Descrição de chapéu Coronavírus

Com 40% de adesão a isolamento, Cubatão tem centro cheio e pessoas sem máscara

População se aglomerava em filas de bancos e pontos de ônibus, ignorando medidas

Cubatão (SP)

A cidade de Cubatão, na Baixada Santista, tem o pior índice de isolamento social contra o novo coronavírus do estado de São Paulo, com 40% de adesão, segundo dados de operadoras de telefonia compartilhados com o governo estadual.

Uma visita ao centro do município em uma tarde normal indica que, de fato, a população não vem respeitando as medidas de distanciamento para conter a pandemia de Covid-19.

Em uma hora na avenida 9 de Abril, a reportagem viu a circulação de centenas de pessoas, apesar de a maior parte do comércio estar fechada. Os cubatenses formavam longas filas nos bancos, mercados e pontos de ônibus.

Ponto de ônibus em Cubatão, município com menor adesão à quarentena no estado de São Paulo - Bruno Santos/Folhapress

A aglomeração tem sido constante, segundo pessoas que frequentam o centro de Cubatão.

"O que eu vejo aqui é uma tremenda barbárie. Não sei se é falta de comprometimento da população ou do poder público da cidade. O que vejo é que as pessoas não estão respeitando a quarentena e vivem como se nada estivesse acontecendo", disse o químico Joel Alves, 33, que trabalha na cidade.

Todos os dias, Joel precisa passar pelo centro para trabalhar. Ele reclama do comportamento das pessoas: "É estranho, Cubatão é a única cidade onde vejo as pessoas não usarem máscara, não respeitarem filas, não respeitarem o comércio fechado", disse o químico.

De fato, a quantidade de moradores utilizando máscaras era bem pequena no centro de Cubatão na tarde desta terça (14). Em uma fila de um ponto de ônibus, a reportagem contou 52 pessoas, das quais apenas 5 utilizavam a proteção facial.

Em um raio de 200 metros, a Folha avistou movimentação de pessoas em cinco bancos diferentes, que estão próximos um ao outro, e em outros três pontos de ônibus. Em uma unidade da Caixa, mais de cem pessoas aguardavam atendimento do lado de fora e dentro.

Uma das pessoas sem máscara era a dona de casa Jucilaine Passos, 42, que carregava sacolas de supermercado. Ela explicou que precisa sair para os afazeres essenciais, como compras e pagamentos nos bancos. "E não consigo ficar isolada porque minha casa é pequena ", disse ela, que mora com o marido e a filha.

Em apenas dois quarteirões, a Folha viu a maior parte do comércio fechada. Alguns estabelecimentos, no entanto, funcionavam com as portas entreabertas, como uma relojoaria, uma loja de produtos por R$ 1,99, uma de materiais para construção, dois cabeleireiros e duas óticas.

Já em um café, com quase todo o portão fechado, mas uma parte liberada, um funcionário vendia comida e bebida para quem passasse. Sentado no banco em frente, três senhores conversavam tomando cerveja. Do lado deles, mais de 60 pessoas aguardavam na frente de um banco.

Segundo relatos de cubatenses ouvidos pela Folha, o centro costuma concentrar a população pela quantidade de bancos, farmácias e mercados. O operador de processos químicos Richard Willy, 30, diz que só tem saído para ir ao mercado e volta para casa. "Temos que nos prevenir ao máximo, para não transmitir para a nossa família", apontou.

A biomédica Ana Luzia Bizinelli, 24, destacou que, na primeira semana de isolamento no município, os moradores tinham mais receio de ir às ruas e a adesão era maior. Porém, com o passar dos dias, ela sentiu que mercados e bancos estavam mais cheios que o comum. "O que me deixou chocada é que boa parte das pessoas nesses locais eram idosos."

Para Ana, as baixas taxas de pessoas infectadas no município passam à população uma falsa sensação de que a possibilidade de contrair o coronavírus é menor. Ela defende um comportamento mais enérgico do município. “Tem que aumentar a fiscalização dos órgãos competentes, se preciso de forma mais ostensiva”, disse a biomédica.

Até esta terça, a cidade, com população de cerca de 130 mil pessoas, tinha 12 casos confirmados de Covid-19. O município, porém, investiga quatro óbitos suspeitos e mais 100 casos de possíveis doentes. Nove estão internados, sendo quatro deles em UTI.

De acordo com a secretaria municipal de saúde, o último óbito suspeito foi nesta segunda (13), de uma mulher de 50 anos. No sábado (11), um homem de 40 anos também morreu. Nenhum dos dois apresentava comorbidades e eles não pertenciam aos grupos de risco. As outras duas vítimas são dois idosos, um de 69 anos e outro de 61, este último com doença crônica.

As cidades da Baixada Santista vêm tomando medidas conjuntas no combate ao coronavírus, como o fechamento dos shoppings, com exceção aos serviços considerados essenciais, suspensão de academias, casas noturnas e templos religiosos e recomendação de redução do atendimento em restaurantes, bares e lanchonetes, com incentivo ao delivery, entre outras.

Em nota, a prefeitura de Cubatão disse que tem, insistentemente, adotado todas as medidas para estimular o isolamento social como prevenção da Covid-19. E acrescentou que, a partir do próximo sábado (18), nenhum dos estabelecimentos autorizados a funcionar, como bancos, lotéricas, mercados e farmácias, poderá atender clientes que não estejam usando máscara. Praças públicas e quadras esportivas serão fechadas e terão a iluminação desligada.

Além disso, a prefeitura afirma que tem feito fiscalização por toda a cidade, orientando e solicitando o fechamento de locais indevidamente abertos, que são notificados e multados se há necessidade. Por fim, diz manter um canal de denúncia para que as pessoas informem locais que insistem em funcionar sem estarem autorizados.

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