Descrição de chapéu Coronavírus

Depois de ter Covid-19, médico deixa quarentena para sepultar a mãe, vítima do coronavírus

Douglas Sterzza Dias perdeu a mãe, Rita, 55, quatro dias após doença matar a avó materna, Iracema, 85

São Paulo

Após ter sido ele próprio infectado pela Covid-19, o médico Douglas Sterzza Dias, 28, cirurgião vascular residente na Unifesp, teve de deixar a quarentena para cuidar do sepultamento da sua mãe no último dia 27, na cidade de São Paulo. Rita Sterzza morreu, aos 55 anos, quatro dias depois de a sua mãe, a "nonna" Iracema, 85, também ter sido vitimada pelo novo coronavírus.

A família Sterzza tem outros quatro integrantes possivelmente infectados pelo Sars-CoV-2 —dois filhos de Iracema e suas respectivas companheiras apresentam sintomas. Um tio do médico está há nove dias na UTI do hospital São Paulo, enquanto os demais cumprem isolamento em casa.

Douglas Sterzza Dias com a avó Iracema e mãe Rita, além do pai e da irmã - Foto: Arquivo pessoal

“Minha irmã, ainda, tenta lidar melhor com o luto, mas encaminhamos para terapias. O meu pai é muito reservado, aparentemente está compreendendo”, disse o cirugião.

As duas tinham diabetes, hipertensão e obesidade —84% dos mortos no país até o último dia 29 tinham doenças preexistentes.

Acostumado a dizer que a rotina médica o ensinou a lidar de forma mais tranquila com a morte, Dias não conteve a emoção ao conversar com a Folha.

Festeiro, o médico era quem organizava, na faculdade de medicina da Unifesp, a confraternização entre os amigos. Uma herança, aliás, de Rita.

“Minha mãe foi muito extrovertida, e a minha avó ajudou muita gente. Mesmo com dificuldades minha avó ajudou meu tio a se formar em medicina, uma vitória indescritível, e as duas tinham muito orgulho do meu trabalho”, diz Dias.

Nos finais de semana e em datas comemorativas, a família Sterzza, de origem italiana e sediada na zona norte de São Paulo, tinha o costume de se reunir em torno da mesa farta de comida e bebida. Na sexta-feira, eles não puderam se abraçar diante dos caixões lacrados de Iracema e Rita.

Para preservar o pai do contágio, de 63 anos e diabético, e a irmã, de 19 anos, Dias foi sozinho ao necrotério do hospital São Paulo e assinou os papéis para o enterro de Rita.

“Os funcionários tinham pressa, pareciam com medo de infecção”, afirmou Dias.

O ápice da dor, segundo ele, veio de saber que o corpo mãe foi transferido do carro da funerária para uma cova. “Como eu já tive a doença, fui o único da família a ver minha mãe no caixão lacrado, sem ninguém por perto para abraçar.”

Dias, liberado da quarentena, retomou a rotina no hospital nesta quinta-feira (2), até para ocupar a mente, e recebeu o abraço de colegas de profissão, além de centenas de mensagens pelas redes sociais.

A missão do médico, agora, é tentar alavancar uma vaquinha virtual para arrecadar R$ 800 mil e comprar equipamentos e materiais para o hospital São Paulo atender os pacientes infectados pela Covid-19.

Dias não esquece de um detalhe. No momento em que seguia para o cemitério Parque dos Pinheiros, na Vila Nova Galvão (zona norte), observou pessoas fazendo caminhadas e correndo pelas ruas. “Infelizmente, chegamos ao ponto em que a tragédia é uma peça educativa. Para minha família, não é só uma gripezinha.”

O Brasil conta ao menos 299 mortos pelo novo coronavírus, segundo dados do Ministério da Saúde divulgados nesta quinta-feira. Em todo o país, já são 7.910 casos da doença que infectou mais de 1 milhão de pessoas no mundo e deixou ao menos 50 mil mortos.

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