Descrição de chapéu Coronavírus

Crivella estuda 'hospedagem compulsória' contra coronavírus para idosos de favela e Copacabana

Medida, que visa resolver baixa adesão a programa de isolamento, dependeria de medida judicial

Rio de Janeiro

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), afirmou nesta sexta-feira (10) que estuda a "hospedagem compulsória" de idosos que moram em favelas e em Copacabana (zona sul) para que sejam isolados a fim de evitar contaminação pelo novo coronavírus.

A medida, que dependeria de uma decisão judicial, visa resolver a baixa adesão ao programa de prefeitura de oferecer quartos de hotéis para idosos se isolarem. Até esta sexta (10), apenas 40 haviam aceitado o convite dos assistentes sociais —estão disponíveis mil vagas.

"Vamos levantar os casos dos idosos que as clínicas de família considerem mais importantes para serem preservados nos hotéis. O próximo passo será conversar com eles. Não queremos de forma alguma constrangê-los, mas, sim, protegê-los. Não havendo aceitação, teremos que apelar, realmente, para uma ordem judicial", disse Crivella.

Prefeito Marcelo Crivella e Tia Ju, secretária de Assistência Social do município, em visita hotel na Barra da Tijuca (zona oeste do Rio) que está abrigando idosos durante pandemia do coronavírus; os dois estão junto à janela do quarto, olhando para fora, ao fundo da foto; no primeiro plano, uma cama de casal com lençóis brancos
Prefeito Marcelo Crivella e Tia Ju, secretária de Assistência Social do município, em visita hotel na Barra da Tijuca (zona oeste do Rio) que está abrigando idosos durante pandemia do coronavírus - Marcos de Paula/Divulgação Prefeitura do Rio

A prefeitura, em nota, usou como base para a pretensão a lei federal que dispõe sobre as medidas para enfrentamento do novo coronavírus, editada em fevereiro. Em seu artigo 3º, ela autoriza a realização compulsória de medidas profiláticas.

O foco do prefeito são pessoas acima de 60 anos que moram em favelas e acima de 80 que vivem em Copacabana, bairro da zona sul com maior concentração de idosos.

Os convites começaram a ser feitos há mais de uma semana e já chegaram a ao menos 800 pessoas com mais de 60 anos nessas localidades. Porém, mesmo estando no grupo de risco, a maioria não quis se separar dos parentes ou dos objetos que acumulou ao longo da vida. A expectativa é que a procura pelos quartos aumente com o avanço da doença.

"Alguns não querem ficar longe de suas famílias. Quando eles chegam a um hotel, é um lugar mais frio", diz o vice-presidente do SindHotéis Rio (Sindicato de Hotéis e Meios de Hospedagens do Município​), José Manuel Caamaño.

A aposentada Janete Correa, 67, por exemplo, preferiu continuar no quarto e sala na Rocinha onde mora com o marido, que é cardiopata. Os filhos ficam nos pavimentos acima. "Eles passam aqui e mandam beijo, mas não entram. Acho que tem gente que precisa mais", afirma ela.

Apesar da condição de saúde do companheiro, Janete também quis permanecer em casa porque considera que tem tomado todas as precauções necessárias para evitar o vírus. "Lavo tudo com água sanitária. Faço até mais do que o que eles pedem", conta.

Outro motivo para a recusa dos idosos, segundo a própria secretária municipal de Assistência Social, Jucélia Freitas, conhecida como Tia Ju, tem sido a proximidade com a data do recebimento da aposentadoria.

“Uma das nossas colaboradoras disse que eles estão preocupados em ir para os hotéis agora, no início do mês, que é o período em que recebem o benefício”, diz. “Eles gostam de deixar suas coisas organizadas. A maioria é autônoma, vai ao banco, ao mercado, resolvem tudo sozinhos.”

Ela afirma que a abordagem precisa ser presencial, porque por telefone há uma desconfiança. Quem tem feito as visitas são os agentes comunitários de saúde, que já acompanhavam os pacientes cadastrados nas clínicas da família locais.

Para convencê-los, usam argumentos como a falta de condições que eles têm de se isolar dos outros parentes em casa e a letalidade do vírus entre os idosos e pessoas com doenças prévias como hipertensão e diabetes.

Nos últimos dias, a prefeitura também passou a incluir a oferta da hospedagem nos avisos que saem das sirenes da Defesa Civil municipal nessas favelas. O recado é dado todos os dias na Rocinha e no Vidigal, às 9h e às 13h, e em breve seguirá para outras comunidades.

No domingo (5), Crivella fez um apelo aos idosos para que aceitem o convite dos agentes comunitários.

"Não sei se está havendo falha de comunicação da prefeitura. Temos hotéis excelentes, alguns até com vista para o mar, e temos poucos idosos que ocuparam as vagas nos hotéis. Quartos com televisão a cabo, internet banda larga, pode ficar dia e noite em contato com a família", disse o prefeito.

Por enquanto são três hotéis escolhidos, dois na Barra da Tijuca e um no Centro, mas os nomes dos estabelecimentos não têm sido divulgados para evitar que as pessoas procurem diretamente esses locais. O único ocupado até agora fica no bairro da zona oeste.

As diárias não podem ultrapassar R$ 120 e são custeadas pelo município à medida que os quartos vão sendo preenchidos. Crivella vai editar um decreto regulamentando o abatimento desse valor das dívidas de ISS e IPTU dos hotéis que fizerem parte do programa.

Os idosos ficam isolados no quarto e recebem na porta as três refeições do dia e os lençóis, que eles mesmos têm que trocar. Uma equipe com psicólogos e assistentes sociais fica no local 24 horas por dia, acompanhando-os por telefone, segundo a secretária.

Muitos dos que aceitaram o convite já viviam sozinhos, como Francisco Barbosa, 78, morador do Vidigal há 70 anos. “Estou aqui porque minhas filhas falaram comigo se eu queria vir. Eu disse: eu vou, eu tô sozinho aqui mesmo, eu vou para lá que vou conhecer mais gente e ficar cuidado”, diz ele em vídeo filmado pela prefeitura na piscina do hotel.

Outra que decidiu ir foi Damiana Fernandes dos Santos, 63. “Em casa eu estava me sentindo muito só, pressionada com a situação, vendo aquelas coisas na Itália que também me entristeceram muito”, conta na gravação da prefeitura.

Ela chegou a ficar dividida: “Deixar minha casa, minha filha, meu gatinho?”, perguntou-se antes de se decidir, mas a apreensão pesou mais. “A pessoa que mora em favela já tem essa carga negativa da violência. Ainda vem um vírus desse, ninguém suporta”, desabafa.​

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