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Diante do coronavírus, mães se unem e pagam contas umas das outras

Grupo que reúne pequenas empreendedoras passou a receber pedidos de ajuda de mulheres afetadas pela quarentena

Viçosa (MG)

Criado em 2015 para reunir mães empreendedoras nas redes sociais, o grupo Maternashop costumava estar cheio de postagens de venda e compra de produtos, oferta de buffet para festas infantis, faxina ou outros serviços. Com a quarentena devida à pandemia de Covid-19, o tom das mensagens mudou. Começaram a aparecer mulheres desesperadas com a impossibilidade de trabalhar durante esse período.

O grupo, então, se uniu para se se ajudar de uma forma bem concreta: juntar contribuições para pagar as contas atrasadas de luz, água e gás das que mais precisam.

“Começamos a ter uma enxurrada de posts de mulheres com muito medo de essas contas vencerem. Decidimos fazer alguma coisa por elas, para que elas possam ficar tranquilas e saudáveis nesse momento de quarentena, protegendo suas famílias”, conta a criadora do grupo, Clareana Eugenio, 39, que mora em Florianópolis.

“Mesmo não existindo cortes de alguns serviços essenciais neste momento, se isso se acumular, no fim da quarentena elas vão ter que trabalhar todos os dias para pagar contas atrasadas.”

Integrantes do grupo Maternashop, que reúne mães empreendedoras nas redes sociais
Integrantes do grupo Maternashop, que reúne mães empreendedoras nas redes sociais - Carol Esmanhotto/Estúdio Itka

O pedido de auxílio é feito em posts no grupo, e convencionou-se uma média de até R$ 200 em contas pagas para cada mulher. Clareana mantém uma planilha com todas as ajudas prestadas.

Até agora, 27 mulheres receberam as doações. A seleção é feita caso a caso. “Conversamos com a pessoa para entender as necessidades e onde podemos apoiar. Teve uma mãe que precisava de itens de chá de bebê e arrecadamos doações desses produtos, por exemplo”, diz. “São mulheres que trabalham um monte, o marido é motorista de Uber, vão viver de quê? Muitas são mães solo.”

O Maternashop aceita contribuições de pessoas de fora da rede social. Também destinou uma parte de seu financiamento coletivo, usado mensalmente na manutenção do trabalho da moderação, para ajudar as mães neste momento de crise. O fundo solidário, antes utilizado para microcrédito sem juros, agora é transformado em cestas básicas para doação.

As ofertas de ajuda têm chegado rapidamente, diz Clareana. “Coloco as crianças para dormir e faço o post. Em questão de uma hora a gente já fecha o valor. Teve depósito de R$ 13 e teve de R$ 350. Está sendo incrível”, afirma.

Mãe de uma adolescente de 14 anos, Sônia Maria Batista, 54, teve duas contas de água e luz pagas pela vaquinha do grupo. Diarista e cozinheira, ela não está podendo trabalhar na quarentena. “Me aliviou muito. Se estou com problemas, eu peço ajuda, não tenho orgulho”, diz. “Todo mundo foi pego de surpresa, tem muitas mães passando pela mesma coisa que eu. Uma é artesã, a outra faz bolo, a outra é dona de um buffet. Está tudo parado.”

Em um comentário de agradecimento postado no grupo, Sônia afirmou que pretende retribuir o apoio em algum momento. “Esse vírus serviu para mostrar mais uma vez que não estamos sozinhas”, escreveu.

Mulheres cientistas ajudam mães da USP

Também pelas redes sociais, um grupo de mulheres se uniu para auxiliar outras mães que passam por dificuldades neste momento: aquelas que vivem no Crusp (Conjunto Residencial da USP) com seus filhos. Durante a quarentena, algumas tiveram as bolsas de pesquisa cortadas ou perderam o emprego que as sustentava.

Ao ler sobre a situação dessas mulheres em uma reportagem, uma pesquisadora decidiu ajudar. Ana Julia Mizher, 38, que faz pós-doutorado em física em outra universidade —a Unesp—​, reuniu doações em dinheiro para comprar alimentos, produtos de limpeza e de higiene para elas. Muitas contribuições vieram de redes de mulheres cientistas das quais Ana participa.

“São mulheres de várias universidades do Brasil, a maioria delas mães”, conta ela, que, em menos de 24 horas, juntou a quantia necessária (cerca de R$ 3.500). Ela se uniu a uma estudante que também havia reunido doações para as mães do Crusp e foi ao supermercado montar os kits.

Além de alimentos, elas incluíram remédios que haviam sido solicitados, pasta de dente adulto e infantil e absorventes. “Isso chamou a atenção delas, que nos disseram: ‘Só uma mulher pensa nisso’”, conta Ana. “A escolha foi feita com carinho para prover mais do que arroz e feijão.” Duas semanas depois, voltaram com mais frutas e verduras, além de fraldas.

O Crusp tem um bloco exclusivo para mães de baixa renda com suas famílias, com 12 moradias. Muitas delas vêm de outros estados ou países e são mães solteiras. Há também mulheres vivendo com seus filhos em outras partes do edifício. São aproximadamente 25, mas cerca de 10 saíram do prédio nesse período de quarentena.

“Elas está muito mais vulneráveis durante o isolamento por causa da questão financeira. Além disso, estão confinadas com as crianças nos apartamentos, que são muito pequenos, e têm dificuldade até para se deslocar para ir ao supermercado ou à farmácia, pois não têm com quem deixar os filhos. E algumas crianças são do grupo de risco: tem três asmáticas, por exemplo", afirma Ana.

A pesquisadora guardou os contatos das pessoas que doaram, pois a maioria se dispôs a ajudar mais uma vez, se for necessário. "No próximo mês vou avaliar a necessidade delas e, se for preciso, vou voltar."

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