Em posse de Teich, Bolsonaro defende abertura de fronteiras e comércio e critica governadores

Bolsonaro, porém, reconheceu que não pode decidir sobre ações de isolamento social nos estados

Brasília

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) defendeu, nesta sexta-feira (17), a reabertura de fronteiras e comércios no Brasil e voltou a criticar medidas tomadas por governadores no combate à pandemia do novo coronavírus.

“Essa briga de começar a abrir para o comércio é um risco que eu corro. Porque se agravar, vem para o meu colo”, declarou Bolsonaro, durante cerimônia de posse de Nelson Teich como novo ministro da Saúde no lugar de Luiz Henrique Mendetta (DEM). “O que eu acredito? Muita gente já está tendo consciência que tem que abrir”, complementou.

Na mesma declaração, Bolsonaro afirmou que defendeu junto ao ministro Sergio Moro (Justiça) a reabertura de fronteiras terrestres no Brasil, que estão fechadas em razão da emergência sanitária.
“Na minha opinião, começar a abrir as fronteiras. Por que está fechada com o Paraguai? É uma fronteira seca e não temos como fiscalizar. O mesmo com Uruguai”.

Bolsonaro investiu novamente contra governadores e disse que jamais mandaria forças de segurança prenderem pessoas que estejam violando regras de quarentena.

O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de posse do novo Ministro da Saúde Nelson Teich, que substitui Luiz Henrique Mandetta
O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de posse do novo Ministro da Saúde Nelson Teich, que substitui Luiz Henrique Mandetta - Pedro Ladeira/Folhapress

“Essas prisões mais que ilegais, atingem a alma de cada cidadão brasileiro. Não podemos admitir isso. Não vou pregar desobediência civil, mas medidas como essas têm que ser rechaçadas”.

Embora não o tenha citado, a referência de Bolsonaro é uma crítica ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB), considerado pelo Planalto um possível adversário em 2022.

Doria chegou a afirmar que cidadãos que desrespeitassem regras de quarentena no estado seriam advertidas e orientadas a voltar para casa, mas quem em casos de reincidência poderia haver prisão.

Apesar das críticas, Bolsonaro reconheceu que não pode decidir sobre ações de isolamento social na resposta à crise do Covid-19, uma vez que o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que estados têm competência para tomar essas medidas.

Bolsonaro disse ainda que, em seu governo, qualquer portaria ministerial envolvendo medidas restritivas passará antes pelo crivo da Casa Civil.

O presidente afirmou ainda que havia opiniões diferentes entre ele e Mandetta, o que motivou a demissão do agora ex-ministro.

“A visão do Mandetta, muito boa, é a da saúde e da vida. A minha também é a da saúde e da vida, mas entra também o Paulo Guedes, a economia e o emprego. Desde o começo eu tinha uma visão que nós devemos abrir o o emprego. O efeito colateral do combate ao vírus não pode ser, do meu ponto de vista, mais danoso do que o próprio remédio."

Ao novo ministro, Bolsonaro pediu que ele também leve em conta a necessidade de preservar empregos.
"Junte eu e o Mandetta e divida por dois: pode ter certeza que você vai chegar naquilo que interessa pra todos nós. Não queremos vencer a pandemia e daí chamar o doutor Paulo Guedes [ministro da Economia] para solucionar as consequências de um povo sem salário, dinheiro, e quase sem perspectiva em função de uma economia que está sofrendo sérios reveses", afirmou o presidente.

O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de posse do novo Ministro da Saúde Nelson Teich, que substitui Luiz Henrique Mandetta, na foto cumprimentando o presidente e o novo ministro com o cotovelo, sem apertar as mãos
O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de posse do novo Ministro da Saúde Nelson Teich, que substitui Luiz Henrique Mandetta, na foto cumprimentando o presidente e o novo ministro com o cotovelo, sem apertar as mãos - Pedro Ladeira/Folhapress

Teich e Mandetta também falaram na cerimônia. Sem mencionar propostas efetivas, o novo ministro da Saúde fez um discurso afirmando que fará uma gestão com foco nas pessoas e defendeu uma maior integração com outras áreas no combate ao novo coronavírus.

“Uma coisa importante que temos que entender é que a Covid abrange todas as atenções, mas tem outras doenças. Se você tem menos acesso, menos diagnóstico, será que não vai prejudicar o diagnóstico de pessoas com câncer? O que vai acontecer quando a pessoa fica em casa com medo de ir ao pronto-socorro e não chega ao hospital?”, questionou. “Tem que acompanhar também os indicadores sociais. Se tivermos mais desemprego e pessoas que perderem os planos de saúde, isso vai impactar no SUS.”

Teich iniciou sua fala apresentando sua formação como médico de família e oncologista para dizer que tem contato próximo com pacientes e que sua formação terá foco “nas pessoas”.

“O foco de tudo o que vamos fazer é nas pessoas. Por mais que fale em saúde, em economia, o final é sempre gente. Trazer uma vida melhor para a sociedade e as pessoas do Brasil”, disse. “Não podemos esquecer que as pessoas mais frágeis, mais pobres são aquelas que mais vão sofrer. A atenção para as pessoas tem que ser total.”

Teich disse que vai defender a visibilidade de mais informações sobre a doença na tentativa de “administrar o comportamento de uma sociedade que hoje está com muito medo”.

Em seguida, disse que trabalhará com planejamento para a construção de uma solução para a pandemia do novo coronavírus, mas admitiu que poderá trabalhar em um cenário de incertezas.

“A gente vai ter que trabalhar esse cenário de muita incerteza, mas hoje vemos medicamentos que estão surgindo com muita possibilidade”, disse.

Citando seu histórico empresarial, ele defendeu a necessidade de “formar times” para que haja condições de trabalho.

“É pegar não só a área do ministério mas as outras áreas, uma lista de problemas de cada área.”

A posse também teve um episódio envolvendo o Conass e o Conasems, conselhos que representam secretários estaduais e municipais de saúde.

Representantes das entidades, que são as outras duas pontas da gestão do SUS, foram barrados na entrada. Os conselhos lamentaram e repudiaram não terem tido o acesso permitido na cerimônia.

​O ministério da Saúde disse, em nota, que devido à crise do coronavírus o ato no Palácio do Planalto foi restrito a poucas pessoas. De acordo com a pasta, os conselhos serão convidados para uma reunião de apresentação e trabalho no ministério.

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