Descrição de chapéu Coronavírus

Médicos têm formatura antecipada e começam a trabalhar durante pandemia

Recém-formados podem contribuir principalmente na atenção primária, afirmam alunos e professores de faculdades

São Paulo

A dois meses da colação de grau, os estudantes da centésima turma de medicina da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) acabaram entrando antes do previsto no mercado de trabalho.

Sem completar os últimos ciclos do internato, eles se formaram nesta sexta-feira (24) por uma videochamada.

Alunos da centésima turma de medicina da Universidade Federal de Santa Catarina testam plataforma em que vão realizar a colação de grau antecipada
Alunos da centésima turma de medicina da Universidade Federal de Santa Catarina testam plataforma em que vão realizar a colação de grau antecipada - Acervo pessoal

A turma pode se formar com base em uma medida provisória que permite formatura antecipada de universitários da área da saúde.

Para medicina, os estudantes precisam ter concluído 75% da carga do internato do curso (período que engloba os últimos anos da graduação, com estágio em hospitais).

Wenderson Magno Cruz, 27, é um dos alunos da UFSC que se formaram nesse processo. Ele havia pedido a antecipação da colação antes de formatura em grupo e teve a cerimônia feita em gabinete.

"Minha avó estava em cuidados paliativos em casa devido a um câncer avançado, sendo cuidada pela minha mãe. Então, como médico, tinha tomado a decisão de me formar e ir para casa poder cuidar dela, mas, como apresentaria risco de transmissão da Covid caso eu trabalhasse e retornasse para casa, optei por assumir a vaga que me ofertaram aqui em Santa Catarina e enviar dinheiro para o cuidado", conta o recém-formado.

Sua avó morreu três dias após sua colação, mas ele decidiu continuar na vaga para atuar em uma Unidade Básica de Saúde em Florianópolis como médico de família.

"Todo médico recém-formado procura ter muito cuidado ao ir trabalhar. Não por se considerar inexperiente, mas por saber que na medicina nada é exato e que a gente sempre pode se deparar com situações que os mais experientes também teriam dificuldades", diz Cruz.

Por isso, grande parte da turma já está realizando cursos específicos sobre coronavírus e revisando o que foi aprendido durante a faculdade, conta.

A movimentação na universidade começou antes da decisão do governo federal, conta Paulo Roberto de Oliveira, 36, também recém-formado pela UFSC.

Assim que começaram a ser decretadas as suspensões das aulas, a turma se articulou com estudantes de outras faculdades do Brasil para tentar antecipar as colações.

Paulo conta que grande parte da turma já começa a trabalhar na segunda-feira depois da colação. Ele também acredita que a maioria tenha preferência por atuar na atenção primária, por ser um ambiente menos corrido e complexo se comparado ao pronto atendimento.

Para o coordenador do curso, Aroldo Carvalho, os novos médicos já têm uma formação adequada para atuar no sistema de saúde.

"Eles têm perfeitas condições para atuar em unidades de saúde, alguns em unidades de pronto atendimento ou outro tipo de atendimento. A gente acredita que não haja um prejuízo grande na formação", afirma.

Os estudantes ficaram sem dois módulos do internato, que acabaria em 14 de junho deste ano.

Letícia Eberlin, 23, que se formou no último dia 16 pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, afirma que não sentiu defasagem em sua formação com a antecipação.

"Claro que a gente tem apreensão de começar a trabalhar, mas isso é normal, porque você nunca vai sair um médico perfeito da universidade. O médico está sempre se atualizando e aprendendo coisa novas. Não seria em dois meses que eu aprenderia tudo que até hoje não aprendi", conta.

Desde o dia 20 ela está atuando na atenção primária de uma UBS em Lagoa Salgada (RN), que estava sem médico no último mês.

Letícia Eberlin, que se formou antecipadamente no último dia 16, ao fazer seu registro no Conselho Regional de Medicina
Letícia Eberlin, que se formou antecipadamente no último dia 16, ao fazer seu registro no Conselho Regional de Medicina - Acervo Pessoal

"Não acho que médicos recém-formados deveriam ir para a linha de frente. Precisamos de médicos experientes no pronto-socorro e nós podemos tomar esses lugares de atenção básica, que vemos muito na universidade e com o que estamos preparados para lidar", afirma Eberlin.

Sua colação de grau foi online, com assinatura digital da ata. Ela conta que fez live pelo Instagram para que amigos e familiares pudessem acompanhar o momento.

Géssika Lanzillo, 32, que também se formou na UFRN, conta que houve resistência da reitoria da instituição em um primeiro momento por antecipar a formatura. Mas, com o pedido dos alunos e a publicação da MP, acabou se efetivando.

"Em condições normais, cumprir 100% do internato seria o ideal. Mas estamos em uma situação extraordinária em um país em que já há escassez de médicos", afirma.

Ela também optou por trabalhar em uma UBS localizada em Parnamirim, cidade da Grande Natal. A unidade, conta a médica recém-formada, estava com médico afastado com suspeita de Covid-19.

"Encontramos uma unidade que estava sem possibilidade de renovar receitas, fazer atendimento pré-natal, avaliar pacientes crônicos. Todas essas demandas serão supridas com a nossa contratação", afirma.

Há universidades que já regularizaram a formatura antecipada e nas quais a graduação deve acontecer nas próximas semanas. É o caso da Universidade Federal do Paraná, que tem cem alunos aptos a participar da colação —a graduação antecipada não é obrigatória.

"De maneira geral, eles podem atuar em diversos níveis da frente de combate à pandemia, começando até por atendimento primário, nos postos de saúde; estão perfeitamente qualificados para fazer esse primeiro atendimento", afirma Eduardo Barra, reitor da graduação da instituição.

Apesar de as universidades cumprirem os critérios estabelecidos pelo Ministério da Educação, não são todas as instituições que têm concordado com a antecipação.

Irene Abramovich, presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, afirma que o órgão é contra a medida.

"A formação desses médicos ficará truncada para o resto da vida", afirma. "Eles vão ter um furo na formação, o internato prevê dois anos de rodízio."

O coordenador do curso na UFSC afirma que não foi uma decisão fácil para os alunos. "Você tem toda a perspectiva de uma solenidade com a família, com os amigos, com o reitor, com os professores. E eles estão sendo privados disso tudo nesse momento."

"Meus pais já haviam alugado casa, comprado passagens e estavam ansiosos. Mas todos entenderam que a situação requer muitos cuidados e estão orgulhosos por saber que priorizei o cuidado a população e deixei as festas para mais tarde", conta o médico Magno Cruz.

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