Descrição de chapéu Coronavírus

Mesmo estressado com a quarentena, Coelhinho tem que se esforçar para animar a criançada nesta Páscoa

Data é oportunidade para afastar o tédio e tornar domingo mais lúdico

São Paulo

Sabemos que o Coelhinho da Páscoa anda estressado e sobrecarregado com tantas tarefas impostas pela quarentena, mas ele precisa fazer um esforço para dar uma passada, ainda que rápida, pelas casas das crianças. Tudo bem se ele não puder trazer aquele ovo incrível: a garotada entende que a situação está difícil para todo mundo, mas um bombom que seja, uma cartinha ou até algumas pegadas seria bom ele deixar.

Diante de tantas privações impostas pelo isolamento do coronavírus, a Páscoa deve ser vista não como mais uma frustração pela impossibilidade de reunir toda a família mas como uma oportunidade para afastar o tédio e tornar o domingo mais lúdico.

“Brincar vai ajudar as crianças a elaborar essa fase e a entender a realidade. A brincadeira também é uma oportunidade para que os pais possam entrar no mundo dos filhos e perceber o que eles estão sentindo. Na Páscoa, cada família costuma ter um ritual de comemoração, e cultivá-lo dá um eixo para as crianças”, diz a psicóloga Renata Rubano, especializada em orientação de pais para a educação dos filhos.

Trabalho manual de Páscoa em Acton, Massachusetts, nos Estados Unidos
Trabalho manual de Páscoa em Acton, Massachusetts, nos Estados Unidos - Maddie Meyer/Getty Images/AFP

Pintar a casca de ovos cozidos, fazer ovos de chocolate, escondê-los, lembrar as brincadeiras que os adultos aprenderam na infância, criar um ritual de celebração e se conectar com familiares para partilhar esses momentos são algumas das sugestões da educadora Adriana Friedmann, especialista na área da infância e autora de livros como “A Arte de Brincar” (editora Vozes) e “A Vez e a Voz das Crianças” (Panda).

O importante, ela propõe, é que pais e filhos criem juntos as brincadeiras, cozinhem, compartilhem histórias, músicas e o que sentem em relação à Páscoa e à situação que enfrentamos. “No atual cenário, o fundamental é estar junto com as crianças e, no caso da Páscoa, contar a história e o seu significado, brincar, pesquisar curiosidades sobre a festa em diferentes lugares do mundo e nas várias religiões. Para os cristãos, por exemplo, a Páscoa simboliza a morte, a ressurreição e o nascimento para uma nova vida. Esses temas podem ser tratados com as crianças recorrendo ao momento que a humanidade está vivendo, em que está havendo esta grande mudança de encerramento de um período para nascimento de outro”, recomenda a educadora.

“Já entre os judeus, o significado da Páscoa, Pessach, evoca a libertação dos judeus da escravidão no Egito. Assim como em outros povos e culturas do mundo, a festa da Páscoa, que nasceu na Idade Média, simboliza a liberdade e a prosperidade. Essas histórias de como é a Páscoa para diferentes povos precisam ser contadas”, sugere.

Ao criar relações entre os significados da Páscoa e a pandemia do coronavírus, é importante estar aberto às dúvidas, comentários e a todo tipo de reação das crianças: “É preciso escutá-las e acolhê-las. Se os pais não souberem responder a alguma das perguntas, devem conversar com outros adultos para buscar respostas, pesquisar, mas não se omitir sobre esses temas que são tão fundamentais: nascimento, liberdade, morte. Claro que da maneira mais adequada para cada idade”, lembra Adriana.

Escritora de literatura infantil e autora de mais de 40 livros, entre eles “Lá Vem História” (Companhia das Letrinhas) e “A Princesa que Não Queria Aprender a Ler” (FTD), Heloisa Prieto compara o isolamento à época do surgimento dos ovos de Páscoa: “Hoje em dia, fora esse momento de pandemia, as casas não são habitadas como antigamente, os pais trabalham fora, as crianças vão à escola e têm atividades extracurriculares. Esta quarentena nos colocou um pouco em clima de século 19, quando as pessoas tinham de ficar e casa em países de clima frio, justamente onde surgiu a tradição dos ovos de Páscoa”, lembra a escritora.

Ela recorre à mitologia, como costuma fazer em seus livros: “Ostara é a deusa germânica da fertilidade associada a lebres e ovos. Sua tradição celebra também a criatividade. Desenhar mosaicos coloridos em formatos ovais, pintar cascas de ovos cozidos ou fazer bolos de chocolate podem ser atividades lúdicas que reúnem toda a família”.

Heloisa reforça a importância da leitura neste momento: “A criança ler para si ou em voz alta para os pais e irmãos pode gerar um clima gostoso como o de roda de histórias diante de fogueira. Esconder ovos de chocolate para serem descobertos é sempre uma gincana animada, mesmo que os pequenos de hoje em dia se divirtam mais é com os pais brincando de coelhos do que acreditando na lenda em si”.

Pesquisadora, escritora, documentarista e jornalista especializada em infância, Gabriela Romeu lembra a importância de deixar a criança explorar cada canto da casa ou do apartamento, por menor que seja, durante o isolamento, o que proporciona uma expansão do espaço. Nesse sentido, a caça aos ovos é uma grande oportunidade:

“As crianças formam um grupo que está em bastante sofrimento com tudo o que está acontecendo. Apesar de não serem grupo de risco do coronavírus, são extremamente afetadas pelo isolamento. Não podemos esquecer que elas se expressam pelo corpo, então temos que buscar formas de achar ‘quintais’ dentro de casa”, diz Gabriela, que estuda a infância em diferentes realidades do Brasil e é autora de livros como “Lá no Meu Quintal” (ed. Peirópolis) e o recém-lançado “Menininho” (Panda Books).

“Precisamos buscar os cantos da casa, reinventar esses espaços e permitir e estimular que elas os explorem. Uma varanda pode ser um lugar para um banho de bacia, podemos colar fita crepe no chão da sala para fazer uma amarelinha, criar percursos, circuitos pela casa em que a criança vai se movimentar e ser desafiada. Isso nos leva a um arrumar e desarrumar a casa o tempo inteiro, mas é fundamental.”

O Coelhinho tem muito a ajudar nessa bagunça saudável. Gabriela comenta que, apesar de tantas ótimas dicas que existem na internet de brincadeiras, livros, filmes, aplicativos e atividades para as crianças em quarentena, é importante lembrar “que a cultura lúdica reside em todos nós”: “Todos temos esse repertório lúdico, ainda que esteja adormecido. Podemos aproveitar este momento em que estamos juntos para resgatá-lo. A sociedade sempre reclamou que havia pouca oportunidade para os pais ficarem com os filhos. Claro que neste contexto a vida não está fácil, mas é também uma oportunidade para esse resgate”, diz Gabriela, enquanto sua caçula, Isabel, 4, corre pela casa, canta e chama pela mãe, que já tenta imaginar em que cantos do apartamento o Coelhinho vai se enfiar para esconder os ovos neste domingo.

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