Descrição de chapéu Coronavírus

Mulheres redescobrem e expõem corpos na quarentena

Sozinhas em casa, elas se despem, fazem fotos e gostam do que veem

Nádia Jung
São Paulo

Confinadas em casa, sem poderem retomar suas atividades diárias, muitas pessoas estão atraindo olhares nas redes sociais com fotos sensuais.

Trabalhar em casa não é novidade para Neliane Catarina Simioni, 31, que desde o ano passado presta assessoria de imprensa para alguns clientes a partir do escritório do seu apartamento. Mas, com a quarentena imposta, a ansiedade se fez mais presente e tem ficado mais difícil concentrar-se.

Em uma das manhãs da semana passada, Neliane percebeu um feixe de luz entrando na sala. Parou o que estava fazendo e começou a fotografar. Fez algumas fotos suas nuas. Gostou do que viu. "Mandei uma das imagens para amigas em tom de brincadeira, como se perguntasse quem somos no confinamento. Para a gente rir mesmo. Me fez bem, mas só depois percebi o ato de autocuidado ao me fotografar nua", diz ela.

Neliane diz que sua vida é marcada pela relação que tem com o seu corpo. "O corpo de uma mulher gorda é marcado socialmente, vigiado." Nos dois primeiros dias de confinamento, ela começou a comer mais que o normal para aliviar a ansiedade. Depois temeu engordar. "Quebrei esse ciclo no dia em que uma luz bonita na sala do apartamento de casa me deu vontade de tirar a roupa e fotografar o meu corpo. É a primeira vez que, assumidamente gorda, faço fotos assim e compartilho com as amigas."

Antes do isolamento, a paulistana Marcilia Brito, 31, queria passar mais tempo em casa entre as plantas, o cachorro e os três gatos, mas praticamente só ia ao seu apartamento para dormir. Ficava entre o trabalho de revisora de textos em uma universidade e saídas com os amigos. Agora tem cozinhado mais e se exercitado em casa. Está frequentando mais as redes sociais e também tem exposto fotos em poses sensuais —até porque tinha o hábito de ficar sem muita roupa em casa antes da pandemia.

"Eu postava algumas fotos sensuais esporadicamente, mas agora as postagens estão mais frequentes. Quase todos os dias, no meu horário de almoço, eu tiro a roupa para tomar sol na janela. Quando acho que a luz está boa, acabo tirando umas fotos para mim, e algumas eu posto", afirma. Os seguidores têm gostado. "Tenho visto muitas amigas e amigos postando fotos desse momento de banho de sol também. Alguns já me marcaram, outros mais tímidos mandam mensagem via Instagram ou Whatsapp."

Moradora de Florianópolis (SC), supervisora de vendas de uma empresa de design para banheiros, Amanda Fernandes Batista, 31, tem usado mais as redes sociais para ler notícias, ver o que outras pessoas estão fazendo e também mostrar um lado que poucos conhecem, com fotos em poses mais sensuais. "Acho que é uma forma de me expressar. Não existe só a Amanda profissional ou a Nanis, como muitos me conhecem, mas a Amanda que quer se sentir bonita. Acho que temos muitos pudores em relação a nos expormos ou falarmos o que estamos pensando e sentindo", afirma.

Ela começou a tirar fotos nesse estilo há um ano e meio, mas agora no confinamento perdeu um pouco da preocupação que tinha com a exposição. "Não estou vendo mais sentido em me cobrar muito ou me importar com algumas reações ruins que ocasionalmente vão aparecer. Nessas fotos, eu me senti bonita, gostei do meu corpo, do meu rosto e da pose que estou fazendo."

As reações têm sido bem diferentes, diz Amanda. Uns (a maioria de familiares) acham desnecessária essa exposição, enquanto outras pessoas dão força e ficam orgulhosas. Alguns ficam preocupados porque pode atrapalhar o lado profissional. "Tem gente também que leva para o lado mais sexual, na sua grande maioria homens, e tem gente que apenas enxerga e lida como uma foto normal, porém mais bonita, de uma pessoa que está se sentido mais livre", afirma.

As fotos têm rendido cantadas. "De vários tipos, inclusive. As pessoas estão ficando cada vez mais criativas", afirma. Um homem mandou dezenas de mensagens querendo seu contato. Quando ela não deu muita atenção, ele enviou mensagens dizendo que seu irmão de 12 anos estava mal em um leito de hospital, entubado e que deveria estar doente com o coronavírus. "Mandou até foto desse suposto irmão, pedindo meu número de telefone."

A rotina da estilista gaúcha Carla Bacelar, 20, que mora em Caxias do Sul (RS), mudou totalmente nesses dias de isolamento. Começou a se olhar mais, a comer alimentos mais saudáveis e voltou a praticar hobbies que tinha deixado de lado: dança e tirar autorretratos, que agora ganharam as redes sociais. "Eu sempre gostei, mas tinha parado. Agora com tempo passei a me reconectar comigo mesma. Gosto de ser um ser livre de tabus e transparecer isso, porque o corpo para mim é algo natural."

Para o psicólogo Carlos Eduardo Seixas, é natural que as pessoas comecem o período de quarentena animadas, porque o confinamento muda a rotina diária. Ficar em casa, então, traz novidades, e passa-se a distrair menos com o que acontece nas ruas. "Elas então começam a prestar mais atenção em si mesmas e começam a buscar uma forma de interagir com o mundo externo de um outro jeito, em alguns casos se anestesiando da realidade que as cerca. É uma maneira de pertencer a um mundo que está sendo colocado em xeque", observa o psicólogo.

A sensualidade, segundo Seixas, é uma busca de melhorar a autoestima. "É uma tentativa para se sentirem menos angustiadas, menos sozinhas. Imagens assim geram muitas curtidas, mas muitas vezes essa sensação é falsa."

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