Descrição de chapéu Coronavírus

Nos alagados de Manaus, preocupação com coronavírus esbarra em condições precárias e desemprego

Cerca de 232 mil pessoas vivem em situação de risco na capital do Amazonas

Casas de palafita sobre rio

Casas de palafitas do bairro Educandos, em Manaus Bruno Kelly/Folhapress

Manaus

Ao convidar a reportagem para entrar na casa, Maria das Dores Maciel, 63, se apressa em abrir as duas janelas da sala “pra bater um ventinho”. Em ambas, a vista esbarra nas paredes sem reboco da casa vizinha, a menos de meio metro de distância. Não chega uma brisa sequer.

A dona de casa vive com o marido, três filhos e três netos na palafita de quatro cômodos sobre o igarapé Educandos, região central de Manaus. Desde a chegada do novo coronavírus à cidade, a família faz o que pode para minimizar o impacto da pandemia na saúde e na renda em meio ao calor e ao aperto.

“Mano, do jeito que está, tem de melhorar. Nem todo dia é suficiente pra comprar todo o alimento”, diz Maciel. Dois dos filhos que moram com ela, um canoeiro e o outro soldador, praticamente não trabalharam nas últimas semanas.

“Ele carrega o pessoal que quer levar peixe [da feira Panair]. Diminuiu muito. Tem noite que ele vai, não dá nada e volta. E pouca gente está pedindo serviço pro meu filho soldador. Ele faz portão, grade. As lojas para comprar material não estão abrindo. Hoje, por exemplo, ele está parado.”

Por enquanto, o dinheiro da comida vem do salário de professora da filha, mas, como ela está sem trabalhar, Maciel teme que ela deixe de receber num futuro próximo.

A família também se preocupa com a saúde, mas as condições precárias de moradia impõem limites. Na gíria manauara, eles moram em um bodozal, termo pejorativo para as favelas de palafita de cidade. É uma referência ao bodó, espécie de bagre capaz de sobreviver até na lama.

Todos os dias, falta água nas torneiras da casa, a última de uma escada íngreme. Ironicamente, na época da cheia, geralmente em junho, a água fétida do igarapé costuma chegar até o piso, obrigando o marido, Sidinei, a construir e instalar marombas —um piso elevado, como se fosse um estrado de cama, colocado sobre o chão inundado.

Não se trata de um caso isolado. Levantamento recente da Defesa Civil em parceria com o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) contabilizou 58 mil famílias em áreas de risco em Manaus. Usando a média de pessoas por família, trata-se de uma universo de 232 mil, ou 10% dos moradores da sétima cidade mais populosa do Brasil.

Dentro dos limites, a família mudou a rotina. Para evitar sair de casa, Maciel deixou de ir à feira comprar comida, tarefa delegada aos filhos. Outra medida foi encomendar a uma irmã, costureira, dez máscaras de pano. “Estão dizendo que todo mundo tem de usar na rua.”

As ruas e becos do bairro Educandos estão bem mais vazias depois que o governo estadual fechou escolas e o comércio não essencial. Ambulantes, poucos e só de comida. Pelos becos, marcados pelas iniciais CV (Comando Vermelho), as casas estão mais cheias por causa dos alunos sem aula e dos pais sem trabalho.

“A maioria são autônomos vendem fruta, peixe, lavam carros, são diaristas. Sem poderem estar na rua, é difícil”, afirma Liliane Tavares de Moura, 44, coordenadora da Pastoral Social Luz do Saber Capela Sagrada Família.

Nos últimos dias, Moura, nascida e criada em Educandos, ajudou a distribuir comida doada pelo governo estadual e conseguiu negociar para que uma família não fosse despejada por falta de pagamento de aluguel, entre outros afazeres.

“O problema não é nem falta de informação, são as condições de vida”, diz Moura. “Em vez de máscara e álcool em gel, estão gastando dinheiro para comprar comida.”

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