Descrição de chapéu Coronavírus

Sem dinheiro e com contas, costureiras de Paraisópolis criam campanha para gerar renda na pandemia

Iniciativa que surgiu na zona sul poderá chegar a outras comunidades de São Paulo nos próximos dias

Lucas Veloso
São Paulo | Agência Mural

Marilene Leonor dos Santos, 40, mora na favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, junto do marido e do filho. Em casa, a costureira é a única com renda na família e imaginou que a pandemia do coronavírus a afetaria.

A sensação inicial foi de desespero. “Meu esposo está desempregado, e não tem outra renda. Isso afetou muito”, conta.

A situação começou a mudar quando Sueli do Socorro Feio, 49, uma das criadoras do ‘Costurando Sonhos’, projeto de capacitação em corte e costura de mulheres na comunidade, fez uma reunião em que ficou decidido que as máquinas usadas no curso poderiam ser levadas para casa. Com isso, 20 mulheres poderiam trabalhar durante a quarentena.

Chamado de “Home Office de Costureiras das favelas do Brasil”, a iniciativa pretende apoiar autônomas afetadas pela crise no país.

Uma mulher sentada e outra em pé em sala
Sueli e Maria são idealizadoras do Costurando Sonhos; elas buscam meios de manter renda de trabalhadoras em Paraisópolis - Divulgação

“Um dos objetivos é sensibilizar empresários e pessoas físicas para que contribuam ao comprarem o trabalho feito por costureiras que estão trabalhando diretamente de suas casas”, define Sueli.

Em São Paulo, a média de salário é de R$ 1.365. Na oficina colaborativa da comunidade, o valor pago está em R$ 1.300, mais R$15, por dia, para o almoço.

Com a crise, o grupo decidiu buscar meios de conseguir renda para essas costureiras durante a pandemia.

Um caminho foi procurar empresas que pudessem contratar os serviços oferecidos. A busca rendeu frutos. Uma prestadora de serviços encomendou ecobags, necessaires e máscaras, o que permitiu manter os salários da equipe e contratar mais costureiras em Paraisópolis, e de outras comunidades na capital.

Agora, a ideia é incluir costureiras de Heliópolis, a maior favela da cidade, e do Jardim Valquíria, no Capão Redondo, zona sul.

Presidente da Sociedade Comunitária de Jardim Valquíria, Gilmar Antonio de Souza, 56, conta que a renda por ali caiu drasticamente, ainda mais para quem costura, profissão composta em parte por mulheres idosas que fazem parte do grupo de risco da Covid-19.

"Os microempreendedores da favela, muitos, terão que desfazer seus projetos e se reinventar diante da crise, inclusive precisando da ajuda do governo para compor suas rendas", diz. "A importância do home office para as costureiras nasce da quantidade de senhoras que têm esse ofício como suas fontes de renda".

Um levantamento produzido pelo Instituto Locomotiva/Data Favela, mostrou que em cada dez famílias brasileiras que vivem em favelas, sete já tiveram a renda reduzida devido a crise causada pela pandemia do coronavírus. O estudo ouviu moradores de 262 comunidades em todos os estados do país.

O Instituto estima que 13,6 milhões de pessoas vivam em favelas no Brasil. No estado de São Paulo, 7% da população vive nesses lugares.

Sueli comenta que o maior desafio na quarentena é manter a renda das mulheres, que geralmente são as provedoras de seus lares, sobrevivem das vendas de produtos em feiras livres e do conserto de roupas.

Sala com pessoas usando máquinas de costura
Máquinas usadas na oficina colaborativa de Paraisópolis estão na casa de costureiras durante pandemia - Divulgação

A maioria das costureiras em Paraisópolis tem entre 25 e 50 anos, possui baixa escolaridade, e não tinha profissão antes de aprender o ofício.

“Foi uma grande parada da economia, mas eu continuo trabalhando em casa, algo que está fazendo uma enorme diferença pra mim, pois só tenho essa renda no momento”, comenta Maria Aparecida Felix, 48.

Os dados do Data Favela apontam apreensão em relação a perda de renda em 75% dos moradores de favelas, ao mesmo tempo que 66% reconhecem os riscos à saúde trazidos pelo novo coronavírus.

Entre os moradores, 47% das pessoas trabalham por conta própria, seja como autônomo ou profissional liberal. Nestas áreas, a parcela de quem tem carteira assinada é de 19%, e outros 10% estão desempregados.

Para Maria, o auxílio de R$ 600, promulgado pelo governo federal, virá em boa hora, mas ainda não é capaz de resolver a situação dos mais pobres. A gestão ainda não divulgou as regras de recebimento.

“Embora [os governantes] falem, eles não vivem a necessidade das grandes comunidades”, afirma.

“Essa política será importante no primeiro momento, mas infelizmente não resolverá toda a situação, que precisa de medidas e soluções mais eficazes”.

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