Descrição de chapéu Coronavírus

Sem espaço para enterrar as vítimas da Covid-19, Manaus empilha caixões

Cidade começou a usar valas comuns há uma semana; agora, sepultamento é em camadas

Rio de Janeiro

Diante do colapso no sistema de saúde e de uma explosão no número de enterros, a Prefeitura de Manaus está empilhando caixões em uma vala comum para poder dar conta de todos os sepultamentos das vítimas do novo coronavírus.

Há uma semana, a prefeitura passou a enterrar os corpos um ao lado do outro, em uma vala comum no cemitério Nossa Senhora Aparecida, no bairro Tarumã.

Desde então, o número de mortes continuou a aumentar, e a prefeitura decidiu abrir uma cova mais funda para permitir o sepultamento em camadas, ou seja, o empilhamento dos caixões.

Enterro em vala comum no Cemitério Parque em Manaus (AM), que teve 142 enterros no domingo (26)
Enterro em vala comum no Cemitério Parque em Manaus (AM), que teve 142 enterros no domingo (26) - Sandro Pereira - 27.abr.20/Xinhua

Antes da pandemia, o cemitério realizava cerca de 30 enterros por dia. Na última semana, esse número triplicou e, neste domingo (26), chegou ao pico, com 142 sepultamentos. A prefeitura projeta que mais de 4.000 pessoas devem ser enterradas no mês de maio.

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram familiares criticando e questionando a necessidade de empilhamento dos caixões.

"O espaço que tem para enterrar é esse. Acabou esse espaço, não vai ter para enterrar mais ninguém", diz um policial militar a familiares das vítimas da Covid-19 em uma gravação.

Em outro vídeo, uma pessoa mostra uma cova funda e diz: "Essa aqui é a vala que eles vão enterrar três, um em cima do outro".

Para tentar reduzir o número de sepultamentos, a Prefeitura está arcando com os custos da cremação dos corpos, para famílias que estejam de acordo com essa alternativa.

No sábado (25), jornalistas foram barrados de entrar no cemitério. O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), restringiu o acesso da imprensa ao cemitério após reportagem da Folha mostrar aglomeração de familiares e coveiros sem EPI (equipamentos de proteção individual) em enterros de vítimas da Covid-19, contrariando orientação do Ministério da Saúde.

Funcionários de empresa de serviços funerários aumentam produção em meio a aumento de mortes em Manaus
Funcionários de empresa de serviços funerários aumentam produção em meio a aumento de mortes em Manaus - Michael Dantas - 27.abr.20/AFP

Na terça-feira (21), em meio à explosão no número de enterros, a prefeitura de Manaus proibiu a entrada de jornalistas nos cemitérios municipais alegando “consecutivos conflitos entre familiares e a imprensa”. Nesse mesmo dia, passou a enterrar mortos pela Covid-19 numa vala comum.

As primeiras imagens dos enterros coletivos, que rodaram o mundo, foram feitas pelos próprios familiares. Alguns fotógrafos furaram o bloqueio, e outros usaram drones.

Na quinta-feira (23), após negociação com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Amazonas, a prefeitura limitou a presença da imprensa das 9h às 11h, de segunda a sexta-feira. Além disso, apenas cinegrafistas e fotógrafos têm permissão para entrar no cemitério Nossa Senhora Aparecida.

Em novo comunicado, a prefeitura comandada por Virgílio Neto disse que a decisão foi “pautada pela ética e pelo jornalismo cívico, voltado ao interesse do cidadão” e voltou a dizer que o motivo da restrição ocorreu “por conta de conflitos registrados entre os profissionais e os familiares”.

Com todos os leitos públicos de UTI ocupados, o Amazonas já contabilizou 3.928 casos confirmados do novo coronavírus e 320 mortes em decorrência da Covid-19. Manaus concentra 2.738 das infecções e 256 mortes.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.