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Em Porto Alegre, jornal de moradores de rua ganha assinatura digital para driblar pandemia

Com 19 anos, Boca de Rua deixa de circular no formato impresso pela primeira vez

Porto Alegre

“Fica em casa! Que casa?”, lê-se na edição mais recente do jornal Boca de Rua, a primeira com assinatura digital em 19 anos de história. A publicação, com circulação trimestral, é feita por moradores de rua de Porto Alegre que se encarregam, das entrevistas, das fotografias e da redação dos textos.

“Eles costumam abordar aspectos em torno da vida da rua, como agressões físicas e psicológicas da sociedade, questões das mulheres e também coisas legais, como retratar uma comunidade ou família de rua”, explica a jornalista Rosina Duarte, uma das fundadoras do Boca de Rua e editora da publicação.

Jeane Carla da Silva e Daniel da Conceição Fraga usam máscaras de tecido branco com o logo do Boca de Rua, que é uma boca vermelha desenhada como se gritasse; está bem aberta, veem-se os dentes e a campainha, no fundo da garganta, preta; o jornal feito por moradores de rua de Porto Alegre ganha assinatura digital pela primeira vez em 19 anos
Jeane Carla da Silva e Daniel da Conceição Fraga usam máscaras com o logo do Boca de Rua; feito por moradores de rua de Porto Alegre, jornal ganha assinatura digital pela primeira vez em 19 anos - Marcos Scher, Boca de Rua/Agência Alice

Depois da impressão, cada um recebe uma cota semanal para venda. A comercialização em semáforos é uma das fontes de renda dos repórteres, que também costumam recolher material reciclável, guardar carros e faxinar.

Diante da pandemia, porém, a dinâmica tradicional teve de abrir caminho para uma alternativa online.

Em razão da Covid-19, as janelas dos carros que antes se abriam nos semáforos para que motoristas comprassem o Boca, como é chamado o jornal, agora ficam fechadas. As reuniões, que eram semanais, passaram a ser quinzenais em uma praça, com o devido distanciamento entre os integrantes da equipe.

Sem casa e muitas vezes até sem água e sabão, os repórteres de rua tiveram a ideia de lançar uma versão digital do jornal com assinatura, para que possam manter parte de seu sustento e evitar que a as edições sejam suspensas.

“A sugestão de publicar online e vender a assinatura partiu deles. Colaboro com a divulgação, o formulário e o envio das edições para os assinantes”, explica Charlotte Dafol, colaboradora do Boca de Rua.

As assinaturas podem ser feitas a partir da página da publicação e custam R$ 20, mas é possível colaborar com quantias maiores. Como o jornal é digital, o exemplar enviado por e-mail para qualquer localidade. Já são ao menos 400 assinantes e a verba é dividida e distribuída quinzenalmente a 30 moradores de rua.

O jornal tem apoio da Agência Livre para a Informação, Cidadania e Educação (Alice) e a impressão, antes da pandemia, era custeada com ajuda do Sindicato dos Petroleiros do Rio Grande do Sul (Sindipetro-RS).

“Povo da rua não tem onde fazer isolamento social, pois vive em barracas nas praças ou nas calçadas”, diz o texto, que acompanha fotografias que retratam cenas na capital gaúcha, como um homem dormindo no chão e uma tenda de lona.

Na edição digital, os moradores de rua entrevistaram a médica e professora de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Maria Gabriela Curubeto Godoy.

A entrevista foi feita durante a reunião periódica e levantou temas como aumento do preconceito, a falta de um lugar para a quarentena e a preocupação com a África, porque relataram que costumam ver notícias apenas sobre a Europa.

“Um vírus é uma fitinha de material genético. No caso do coronavírus, ela é envolvida em uma capinha de gordura cheia de “espículas” que formam uma coroa. É por isso que o sabão, mas também tudo o que tira a gordura, consegue desmanchar ele”, explicou Godoy aos repórteres.

Há reportagens ainda sobre filas nos restaurantes populares, vagas em albergues e sobre negligência em atendimento médico. Um dos textos aborda a importância do uso de máscaras.

“As máscaras evitam que as gotinhas de saliva saiam da boca da pessoa contaminada e também protegem quem não tem o vírus”, escreveram. Eles enumeram dificuldades para a população de rua aderir ao uso: preço, higienização e descarte correto, por exemplo.

De acordo com Duarte, que colabora com a edição desde o primeiro número do jornal, produzido em 2001, os textos mantêm as características da linguagem oral usada pela população em situação de rua.

“A maneira como eles falam uma notícia é mantida no texto, que é coletivo. Trabalhamos com eles os elementos básicos: o quê, quando, onde e por quê. Elementos como clareza e ética não ficam de fora. Eles sabem que, se falam mal de alguém, precisam ouvir essa pessoa e têm que ter fatos”, explica Duarte.

“O Boca de Rua é uma experiência transformadora, em todos os sentidos. Inclusive para quem lê. O jornal dá oportunidade ao leitor de ter uma visão sem filtro. Como disse um integrante, é uma pequena revolução”, diz a editora.

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