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Família que perdeu tudo no litoral de SP recebe ajuda até dos EUA

Reportagem mostrou situação de casal durante a pandemia do coronavírus

Santos

​​Fabiana da Cruz Granero, 42, me procurou ainda cedo no último dia 26 de maio, por WhatsApp. Retornei o contato assim que pude.

Ela pediu desculpas pela insistência, mas contou que estava ávida para compartilhar a repercussão da matéria publicada um dia antes pelo jornal, que relatou as dificuldades enfrentadas por sua filha, Gabriela Cristina Granero, 25, em meio a pandemia de Covid-19.

Além do dono de um quiosque onde trabalhou por quase três anos, pessoas com quem nunca havia falado do interior do estado, da capital e de Santos entraram em contato para fazer doações à filha.

Talisson Onorato de Jesus, 18, sua filha Thaylla Granero de Jesus, 3 meses e sua esposa Gabriela Cristina Granero Ferreira, 25 - Eduardo Anizelli/Folhapress

​Foram diversas formas de ajuda. De depósito na conta bancária da mãe, a cestas básicas e compras entregues no lar provisório de Gabriela, emprestado como forma de socorro há pouco mais de um mês por uma amiga de infância, no bairro Jardim Céu e Mar, em Guarujá.

A última e mais surpreendente ligação, ela conta, foi de um brasileiro que mora em Nova York e que se sensibilizou com a história.

Gabriela e sua família preencheram duas estatísticas nas fortes chuvas que atingiram o litoral sul de São Paulo na madrugada de 3 de março: a de desabrigados e, também, a de óbitos.

Os deslizamentos decorrentes do temporal mataram 45 pessoas, 23 delas na Barreira do João Guarda, em Guarujá, local mais castigado.

Moradora da comunidade, ela teve a casa completamente sugada pela lama. Perdeu os dois filhos, Allefer Adailton Granero da Silva, 6, e Allana Granero de Oliveira, 3, encontrados mortos somente dez horas depois.

Gabriela foi salva com o marido, já sem forças e quase totalmente coberta por escombros, devido ao choro da filha mais nova, Thayla, hoje com cinco meses, que serviu de guia para o resgate dos três.

Lembro-me de ter chegado para a cobertura da tragédia no início da tarde, pouco após a entrevista coletiva do governador João Doria, em Santos.
Logo que comecei a subir o morro, a primeira cena chocante: um corpo sendo carregado de forma improvisada por moradores com o auxílio de uma porta. Muita gritaria, choro e pouca luz para enxergar tudo.

Dez dias depois, fui acompanhado do repórter-fotográfico Eduardo Anizelli até um bairro próximo, Parque Enseada, para ouvir sobre a tentativa de recomeço da família. Com a ajuda de amigos, eles haviam alugado uma casa a pouco mais de 3 km do local da tragédia.

Não existia nenhum móvel no novo lar. Apenas um pássaro com a gaiola ainda suja de lama, outro sobrevivente da tragédia, um carrinho de bebê, um ventilador antigo e muitas doações espalhadas pelo chão de toda a casa.

Ela contou que as vezes ficava por horas sentada no chão com o vazio dos filhos que não podia ver mais.

Dois meses depois, descobrimos que tudo havia piorado para a família. Eles foram despejados por não terem dinheiro para um segundo mês de aluguel. Não receberam o benefício prometido pela prefeitura de Guarujá e pelo estado pela ausência de um documento de identidade.

Voluntários e bombeiros durante as buscas no Barreira João Guarda, no Guarujá, na Baixada Santista, em março de 2020 - Eduardo Anizelli/Folhapress

“A prefeitura nos diz que precisamos de uma conta no banco aberta e de RG. Mas como? Perdemos tudo e não conseguimos tirar novos documentos agora com o Poupatempo fechado”, questionou Gabriela à época.

A solicitação, confirmada pelo Poupatempo, foi realizada em 18 de março, antes do fechamento dos postos para atendimento presencial, a partir do dia 21. Depois disso, por telefone ou pela internet, não conseguiram mais retirar o RG.

Gabriela precisou vender uma bicicleta por uma quantia baixa e outros itens que ganhou, pois passava fome. O Poupatempo disse que entregou nesta quarta (3) o documento a ela.

“Vocês nem imaginam o tamanho da ajuda que deram. A gente vai levando, vai levando, mas ainda não recomeçamos. A Gabriela não está bem, tem dificuldades para dormir e precisa urgente recomeçar”, conta Fabiana.

O Poupatempo reconheceu que havia, também, outra solicitação dela, registrada em 11 de maio, mas que, devido a falta de clareza para o motivo da urgência, alegando apenas aluguel atrasado, o procedimento não pôde ser concluído com agilidade.

Da Prefeitura de Guarujá, Gabriela tem direito a receber R$ 3.700, diluídos em 12 prestações — a primeira parcela é de R$ 1.500 e outras 11 de R$ 200. Do estado, o valor é maior, de R$ 4.600, sendo uma parcela de R$ 1.000 e mais 12 de R$ 300.

Ao ligar para a família confirmar o recebimento do RG, Gabriela contou que estava apressada a caminho do banco para, enfim, abrir a conta, mas que antes tinha uma missão pessoal.

Ela passou no cemitério do bairro Vila Júlia, onde foram sepultados os filhos, para deixar flores e um brinquedo, como tem feito todos os meses. Nesta quarta (3), o desastre completou três meses.

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