Descrição de chapéu Coronavírus

Indígena do Amapá conta como foi perder a mãe na pandemia de Covid-19

Até 30 de maio, houve 115 casos da doença na Terra Indígena Uaçá, na região do Oiapoque (AP)

São Paulo

O indígena Elson Forte Galibi, da aldeia Kumarumã, no Oiapoque (AP), perdeu recentemente a mãe, Edinair Galibi —segundo ele, para a Covid-19. Depois que ela começou a se sentir mal, com febre e falta de ar, Elson chamou médicos para que a examinassem e fizessem testes, mas o atendimento nunca chegou. Edinair tinha diabetes.

Segundo o Dsei (Distrito Sanitário Especial Indígena) Amapá e Norte do Pará, do Ministério da Saúde, até 30 de maio, houve 115 casos de Covid-19 na Terra Indígena Uaçá, na região do Oiapoque (AP), dos quais 34 foram no polo Kumarumã.

Seu relato sobre a morte da mãe foi feito em áudio e transcrito pela professora da Unifap (Universidade Federal do Amapá) Elissandra Barros e publicado em página de rede social da universidade.

O indígena Elson Forte Galibi, da aldeia Kumarumã, no Oiapoque (AP), perdeu recentemente a mãe, Edinair Galibi - Arquivo pessoal

Há muito tempo, quando meu avô decidiu sair daqui, da aldeia de Kumarumã, minha mãe ficou aqui sozinha. Meu avô e minha avó foram para a Guiana Francesa. Um certo dia ela saiu para ir atrás dos pais dela, e a gente foi para a Guiana, mas a gente não se acostumou com o clima de lá, começamos a adoecer, e minha mãe decidiu voltar para o nosso lugar.

Quando a gente voltou para a nossa aldeia começamos a reconstruir nossa vida e a gente vinha cuidando um do outro. Eu e meu irmão nos apegamos muito a ela, porque ela não era como qualquer pessoa, ela tinha um amor muito grande no coração dela. O amor que ela tinha para as outras pessoas era de ajudar.

Eu e meu irmão Cleber somos os caçadores da família, e quando a gente sai para caçar, às vezes a gente chega em casa de madrugada e ela já está acordada esperando por nós, para saber se a gente está bem. Quando a gente chega tem alguém esperando, quando a gente bate na porta ela já sai.

Eu me lembro quando eu tinha uns 15 anos. A gente foi para a roça e ela estava conosco. Era eu, meu pai e ela. Nesse dia meu pai quis me deixar, só porque eu esqueci o meu facão na roça, era para eu voltar e buscar sozinho, mas já estava anoitecendo. Eu voltei chorando para buscar o facão na roça. Era uns 2 km até chegar na roça Quando olhei para trás, lá vinha minha mãe correndo atrás de mim, para que eu não fosse sozinho para a roça. Ela vinha chorando e me disse: "Meu filho, eu vou contigo, não vou deixar você ir sozinho, você nunca estará sozinho!"

Quando eu lembro isso dói muito em mim. Ficou como uma lembrança para mim que marcou a minha vida. Minha mãe foi uma pessoa que sempre fez o bem, sempre queria o bem para as outras pessoas.

Quando começou essa pandemia, a gente sempre assistia pela televisão que as pessoas morriam no mundo inteiro. Quando chegou no estado do Amapá eu disse que não era para a gente sair da aldeia. Eu sou vice-cacique da comunidade e a gente colocou uma norma para que ninguém saísse. Eu me preocupava com os meus pais, com a minha mãe, principalmente, mas as pessoas não obedeciam. Outros vieram para dentro da comunidade e trouxeram essa doença.

Quando minha mãe teve os primeiros sintomas, começou com uma febre. Ela era diabética. Eu via no rosto dela que ela estava passando mal. Então ela chamou todos nós, todos, e disse que não era para a gente brigar um com o outro, que era para a gente ficar sempre unido, que era para a gente nunca abandonar aquilo que era dela, a casa dela. Ela disse: "Por favor, não saiam daqui. Nunca deixem o que é nosso para ninguém tomar conta. Uma coisa digo a vocês, nunca briguem um com o outro".

Quando eu acabei de ouvir isso, olhei para ela e disse: "Por que que a senhora está falando assim? Você não vai morrer, essa doença não vai te matar". Aí ela disse: "Não, eu não sei. Mas o que estou deixando para vocês é uma lembrança para vocês nunca esquecerem na vida."

Havia um grupo de médicos que tinha vindo de helicóptero para coletar sangue dessa doença. Eu fui chamar eles e disse: "Venham, a minha mãe está precisando que vocês examinem, pelo menos coletem o sangue dela para ver se é essa doença ou não".

Chamei duas vezes, ninguém veio, eles foram embora. Na segunda-feira pela manhã, ela começou a se sentir sem ar. Aí eu chamei os médicos de novo, mas ninguém veio nem para examiná-la.

A gente ficou só, eu e meus irmãos, minha cunhada, minha esposa. Aí ela disse: "Agora eu quero que vocês cuidem do irmão de vocês". A gente tem um irmão deficiente. Ela disse: "Nunca deixem ele só aqui em casa".

Aí eu chorei, eu chorei porque parece que ela estava se despedindo da gente. Eu nunca vi ela assim.

De repente, aconteceu algo que eu nunca esperava ver, eu nunca esperava sentir isso. Quando ela ainda falava, ela estendeu a mão para o meu pai, falando para ele cuidar bem dos filhos dela. Ela ainda falava quando, de repente, se foi...

A gente ficou desesperado, um olhava para o outro, a gente sacudia ela, a gente fez tudo o que podia, mas já era tarde. Isso ficou como um trauma na minha vida, porque eu não consigo chegar em casa e não ver ela. Eu preciso me recuperar, eu preciso que Deus me dê força para conseguir superar tudo isso. O que ela deixou para nós foi uma lição de vida.

Os enfermeiros vieram depois para coletar o sangue dela para ver se ela morreu de Covid-19. Aí o meu pai não deixou que ninguém tocasse mais nela, porque quando ela estava viva a gente mandou buscar eles e eles não vieram.

Eles a levaram de mim, a única coisa que eu guardava no meu coração. É por isso que eu digo não visite parentes, não é hora de dar passeio pela cidade, porque isso é uma coisa muito séria. O vírus não brinca com a gente, se a gente brincar, ele não brinca, o vírus veio para matar, para destruir famílias. Por isso que eu digo, fiquem em casa, cuidem-se por favor.

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