Descrição de chapéu Obituário Boruch Stycer (1917 - 2020)

Mortes: Polonês-carioca, escapou de guerras e viveu aventuras

Refugiado da Segunda Guerra, Boruch Stycer virou carioca sem jamais perder o sotaque

Mauricio Stycer
São Paulo

Se a vida de Boris fosse uma série, ela teria cinco temporadas.

A primeira se passa em Lublin, na Polônia, onde nasceu, em 1917, e foi coadjuvante da história protagonizada por uma mãe-coragem que criou os filhos entre dificuldades.

Intuindo que as coisas ruins sempre podem piorar, deixou o país em setembro de 1939, após a invasão da Alemanha. Uma irmã e outros parentes que permaneceram foram mortos.

Refugiado da Segunda Guerra, Boruch Stycer virou carioca sem jamais perder o sotaque
Refugiado da Segunda Guerra, Boruch Stycer virou carioca sem jamais perder o sotaque - Arquivo Pessoal

A segunda tem como cenário Xangai, na China, onde se refugiou durante a Segunda Guerra e viveu as aventuras mais cinematográficas.

Para chegar lá contou com um visto de trânsito para o Japão concedido por Chiune Sugihara, o cônsul do país na Lituânia. Este "Schindler japonês" salvou estimados 10 mil judeus com o seu gesto.

Acolhido como refugiado de guerra, permaneceu em Xangai até 1949. A revolução chinesa o estimulou a um novo passo. Foi para Nova York, onde reencontrou o irmão mais velho e começou a reconstruir a vida. Tornou-se cidadão americano na terceira temporada.

Mas o destino promoveu um outro "plot twist". No final da década de 1950, desembarca no Rio a negócios e conhece uma secretária da Panair chamada Sonia. Nesta quarta temporada, a mais longa, se casou com ela, teve dois filhos, dois netos e viveu os seus melhores momentos. Virou carioca sem jamais perder o sotaque.

A morte de sua mulher, em 2015, marca o começo de uma quinta temporada, na companhia do filho Daniel e dos netos Clarissa e Gabriel, encerrada na quinta (18), após um AVC.

Lúcido até o final, com autonomia e mobilidade, se viu obrigado a ficar dentro de casa por causa da pandemia. Estava preocupado com a situação do país. Mas não surpreso.

As primeiras temporadas da vida o deixaram bem calejado. Dizia que desde o fim da Segunda Guerra nunca houve um dia sem guerra no mundo. Viveu 103 anos.

Com meu pai aprendi o valor da leitura, incorporei valores fundamentais, além de dividir os melhores e piores momentos do Botafogo na arquibancada do Maracanã. Adeus, Boris.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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