Descrição de chapéu Coronavírus

Sem Covid-19, cidade em SP leva remédio à casa de paciente para frear circulação

Cafelândia, com 17 mil habitantes, é o maior município paulista sem casos do novo coronavírus

Ribeirão Preto

Quando o último boletim epidemiológico indicando que não havia nenhum caso do novo coronavírus foi publicado pela prefeitura numa rede social, uma moradora de Cafelândia escreveu: “graças a Deus”.

A própria administração não sabe até quando a situação persistirá, mas a cidade é a mais populosa de São Paulo entre as que ainda não tiveram casos confirmados da Covid-19 em meio à pandemia.
Com 17 mil habitantes, o município fez até agora 29 testes de casos suspeitos da doença, com resultados negativos para todos.

Funcionária da Secretaria da Saúde de Cafelândia distribui máscaras a morador da cidade
Funcionária da Secretaria da Saúde de Cafelândia distribui máscaras a morador da cidade - Divulgação

E o que contribuiu para esse cenário até aqui? As possibilidades são várias, mas a prefeitura aponta a colaboração dos moradores, o baixo fluxo de pessoas nas ruas, terrenos residenciais grandes --que permitem melhor aproveitamento da luz do sol e distanciamento entre os vizinhos--, ausência de prédios residenciais na cidade e uma mudança nos atendimentos a portadores de doenças crônicas.

“Ajudou muito nesse distanciamento entre as pessoas. Isso não quer dizer que o vírus não esteja circulando no município, já que a taxa de casos assintomáticos supera 80%. Provavelmente, quando for implantado o protocolo municipal de testagem de assintomáticos aparecerão casos positivos”, disse o diretor do serviço de saúde da cidade, Clóvis Alves de Oliveira Filho.

Segundo ele, as ações da Vigilância Epidemiológica começaram antes de o governador João Doria (PSDB) decretar quarentena, em março, e incluíram reduzir a circulação de pessoas em estabelecimentos de saúde.

Uma das ações foi inverter a lógica das consultas para pacientes crônicos, com hipertensão e diabetes, por exemplo. Eles foram orientados a ficar em suas casas e a prefeitura passou a levar receita médica e medicação às residências de todos, para reduzir a circulação. “[O setor de saúde] É onde tem o maior número de contaminações.”

Foram compradas 5.000 máscaras de pano, distribuídas a grupos de risco, além de a cidade ter passado por uma faxina geral, com limpeza e desinfecção de prédios e ruas. Empresas, como usinas, fizeram doações de álcool e de protetores faciais.

RISCO

Um problema para Cafelândia --e outras cidades do mesmo porte-- é que a rede hospitalar é insuficiente para atender um grande contingente de casos graves da doença.

Sem leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), a alternativa para casos graves é transferir pacientes para a Santa Casa de Lins (distante 27 km) ou o Hospital Estadual de Bauru (89 km).

A cidade tem apenas quatro leitos de estabilização na Santa Casa, com respiradores, monitores cardíacos e bombas de infusão de medicamentos, para cuidar do paciente até que seja liberada uma vaga na Cross (Central de Regulação e Oferta de Serviços de Saúde).

No comércio, as pessoas têm trabalhado com máscaras e exigido que os clientes as usem também, como na loja Combate, do comerciante Osvaldo Ovidio Minani, 70.

“Todo mundo aqui tem medo. Venho na loja só na hora do almoço e deixo minha filha aqui. Não apareço depois disso aqui, não”, afirmou.

Segundo ele, os estabelecimentos da cidade têm movimento pequeno, o que também contribui para evitar a propagação do vírus. “Entra um cliente, depois aparece outro, um tempo depois vem outro. Não há aglomeração. O único lugar que tem movimento mesmo é no mercado”, disse.

O comércio local foi reaberto no último dia 1º, seguindo o plano do governo paulista. Lanchonetes têm funcionado só com 40% da capacidade.

Até o início da tarde desta terça-feira (9), 85 das 645 cidades de São Paulo ainda não tinham a confirmação de casos do novo coronavírus, segundo a Secretaria de Estado da Saúde.

Apesar das medidas, a prefeitura afirma que a doença chegará à cidade em algum momento. “A Covid-19 é nova, não tem medicação nem vacina. O que realmente poderíamos fazer era prevenção. Mas será inevitável chegar. O interior está atrasado em relação aos grandes centros e a circulação de pessoas aqui é menor. O que fizemos foi tentar nos preparar para quando isso acontecer”, disse o diretor de saúde.

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