Veja o que se sabe sobre cerveja contaminada em MG

Após inquérito, Polícia Civil de Minas Gerais indiciou 11 pessoas no caso da cervejaria Backer

Belo Horizonte

Depois de cinco meses de investigação, a Polícia Civil de Minas Gerais apresentou nesta terça-feira (9) as conclusões do inquérito que apurava o caso de intoxicação por dietilenoglicol em pessoas que consumiram a cerveja Belohorizontina, da marca Backer. Onze pessoas foram indiciadas no caso, sete delas por homicídio culposo.

As acusações apontam ainda lesão corporal culposa e intoxicação de produto alimentício, essa última com dolo. Uma testemunha responde por prestar falso testemunho e extorsão e três sócios por não terem feito recall do produto nem darem publicidade sobre riscos que ele apresentava.

Até a conclusão apresentada nesta terça, foram apontadas 29 vítimas da intoxicação por dietilenoglicol — anticongelante tóxico, usado industrialmente, para resfriar. Sete delas morreram e 22 convivem com sequelas da intoxicação. O número pode aumentar, segundo a polícia.

O inquérito ouviu 70 pessoas, entre vítimas, familiares e funcionários e teve mais de 100 perícias realizadas. Para as vítimas, a conclusão deixou clara a responsabilidade da empresa na contaminação.

A Backer disse que só irá se manifestar sobre o inquérito depois de análise do relatório por seus advogados e que irá honrar com suas responsabilidades.

Entenda o que se sabe sobre o caso depois da conclusão do inquérito:

Primeiros casos: Os primeiros casos começaram a ser relatados no final de dezembro e início de janeiro e geraram boatos de uma doença misteriosa na capital mineira. No dia 5 de janeiro, a Polícia Civil de Minas Gerais começou a apurar o caso. Duas famílias do bairro Buritis, em Belo Horizonte, levantaram a possibilidade de que a cerveja estivesse na origem da intoxicação alimentar, ao concluírem que foi o único produto em comum que as pessoas afetadas consumiram.

Sintomas da intoxicação: As vítimas relataram enjoos, vômito, algumas tinham diarreia. A maioria dos casos evoluía para paralisação dos rins e danos neurológicos como paralisia facial, que descia também para as pernas, compatíveis com a chamada síndrome nefroneural.

Qual o número de vítimas? A conclusão do inquérito aponta 29 vítimas criminais —7 mortos e 22 que vivem com sequelas da intoxicação. Outros casos foram descartados por questões médicas e de investigação, e 30 estão em análise, o que pode levar o número total de vítimas a aumentar, segundo a Polícia Civil. Foram feitas perícias diretas (com exames nas vítimas) e indiretas (análise de prontuários médicos) com as vítimas.

O que as vítimas tinham em comum? Muitas consumiram o produto no mesmo período, durante festas de fim de ano, como Natal e formaturas. Foi identificada ainda coincidência nos locais frequentados por elas, várias compraram a cerveja no mesmo supermercado. Uma promoção da Black Friday levou várias pessoas a adquirirem grande quantidade de produtos dos lotes contaminados.

O que é o dietilenoglicol? A substância identificada na cervejaria é usada como anticongelante para evitar que os produtos evaporem e para resfriar. Como é tóxica, ela não pode ter contato com alimentos. Na fabricação de cervejas, ela é rara. Segundo a Polícia Civil, foram encontrados dietileno e monoetileno na fábrica; qualquer uma das substâncias é tóxica e poderia provocar danos à saúde humana. O dietileno, no entanto, tem nível de toxicidade maior.

Sabotagem ou acidente? A Polícia Civil descartou a possibilidade de sabotagem, que chegou a ser levantada no início das investigações. Para os investigadores, a contaminação foi acidental, com dolo pela responsabilidade de técnicos e gestores com o controle do local e uso das substâncias na linha de produção.

A polícia apontou ainda que tanto o manual do chiller quanto o do tanque indicam peremptoriamente que só poderia ser usado álcool de cana-de-açúcar ou cereais nos equipamentos. Ou seja, exigiam uso de substâncias não tóxicas, diferente da prática identificada na cervejaria.

Em caso de vazamento, se isso tivesse sido respeitado, não causaria danos às vítimas, no máximo alteração no sabor da cerveja ou no teor alcóolico.

Como aconteceu a contaminação? A Polícia diz ter certeza que a contaminação ocorreu dentro da cervejaria. A fábrica estava em expansão e adquirindo novos tanques —12 só em 2019— que deveriam ter água e anticongelante. Um deles, instalado no fim do ano passado, teve um problema na solda, o que levou a substância tóxica a vazar dentro do tanque e ter contato direto com a cerveja, causando a contaminação. A bebida ficava 14 dias armazenada no local, para o processo de maturação.

O vazamento foi comprovado quimicamente e fisicamente, segundo o delegado Flávio Grossi. Usaram uma substância traçante (colorida) que indicasse o caminho que o dietileno poderia ter feito.

“O vazamento fisicamente ocorreu porque havia furos nos tanques, no alinhamento da solda. Mas a questão a se destacar não é a ocorrência do vazamento, é o uso de uma substância tóxica dentro de uma planta fabril destinada à alimentação", afirmou Grossi.

Outros pontos da fábrica tinham vazamento do produto, que estariam ocorrendo desde 2018, mas não dentro de tanques (veja vídeo abaixo).


Qual a janela de tempo da contaminação? A Polícia diz ter identificado o que chama de lote-raiz, no qual se iniciou a contaminação. Um lote de cervejas analisada pelo Ministério da Agricultura mostra que, no início de 2019, já existia alto índice de contaminação por dietilenoglicol e monoetileno no produto, no lote 338.

Os lotes examinados pela Polícia, ligados ao tanque com vazamento interno, estavam entre os números 1.200 e 1.300. A Polícia Civil também encontrou no local um tambor datado de 2018 que dizia ter monoetilenoglicol, mas continha dietilenoglicol. Para os investigadores, essa é uma prova de que a substância já estava na fábrica à época.

O Ministério da Agricultura afirma que análises indicam presença de contaminantes como dietilenoglicol e etilenoglicol, em cervejas produzidas desde janeiro de 2019, pela Backer. Foram analisadas mais de 700 amostras em produtos e insumos para investigar a contaminação. Além da Belohorizontina, foi detectada contaminação em outros sete rótulos: Capitão Senra, Backer Pilsen Export, Corleone, Capixaba, Três Lobos Pilsen, Layback D2 e Bravo.

Quem são os responsáveis? Onze pessoas foram indiciadas pela Polícia Civil de Minas Gerais. Sete delas por homicídio culposo e lesão corporal culposa. Seis por intoxicação de produto alimentício dolosa e uma pessoa por culposa. Uma testemunha foi indiciada por falso testemunho e extorsão. Três gestores respondem por não terem feito recall do produto e nem publicidade sobre os riscos de contaminação da cerveja. Para a Polícia, os técnicos não atuaram com dolo, mas tem responsabilidade pelas consequências dos fatos.

Próximos passos: A Polícia Civil de Minas continua com as investigações para apurar outras possíveis vítimas e vai oficiar a Polícia Civil de São Paulo, para investigar a empresa no interior do estado que distribuía mono e dietilenoglicol para a fornecedora da Backer sobre eventual adulteração de produto.

A Backer sempre comprou monoetilenoglicol, mas foi encontrado tambor com dietileno na cervejaria no decorrer das investigações. A cervejaria não tinha ciência da presença da substância, de acordo com a polícia mineira.

O Ministério da Agricultura diz que a empresa só poderá voltar a funcionar depois de cumprir as exigências feitas pela pasta e de garantir a segurança da produção futura.

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