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Videoconferências e excesso de chamadas causam exaustão na pandemia

Chamado de "Zoom fatigue", fenômeno tem a ver com a sobrecarga de atenção necessária em chamadas

São Paulo

Canal para reuniões de trabalho, falar com a família e encontrar os amigos, as videoconferências têm levado pessoas à exaustão.

Durante a quarentena, tornou-se excessiva a quantidade de chamadas em vídeo que acontecem cotidianamente, afirma Katty Zúñiga, psicóloga e pesquisadora do laboratório de psicologia e tecnologias da informação e comunicação (Janus-Leptic), da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Usuários em videochamada pelo Facebook
Usuários em videochamada pelo Facebook - Marcelo Justo/Folhapress

"Cada vez mais as pessoas se queixam de se sentirem cansadas ou esgotadas nessa nova realidade em que a casa se tornou o local para se fazer tudo e o computador é a janela para o mundo", diz.

O fenômeno tem sido chamado de "Zoom fatigue", uma espécie de fadiga causa pelo Zoom, uma das plataformas mais usadas para as chamadas em vídeo.

Não é só o excesso de chamadas, no entanto, que caracteriza esse cansaço. Qualquer tipo de videoconferência demanda uma atenção visual, mas o mosaico das reuniões virtuais com muitas pessoas envolvidas exigem ainda mais concentração e sobrecarregam o cérebro, explica a psicóloga.

"A pessoa sentada em frente ao computador precisa estar atenta simultaneamente a cinco, 16 ou mais janelinhas na tela, e é isso que exaure e causa esse cansaço", diz. "Presencialmente, as reuniões de trabalho, ou mesmo as salas de aula, são permeadas por momentos de distração, descontração. Já no online, não há isso, e a parte cognitiva fica em constante estado de atenção."

É desse tipo de reunião com muitos participantes na tela que o termo dado para o fenômeno veio, já que o Zoom foi um dos primeiros aplicativos a popularizar o formato de mosaico, com muitos participantes na tela, segundo Zúñiga.

O atraso entre a fala e a escuta causado pela conexão de internet e a falta de liberdade de movimento que a câmera ligada traz também influenciam no desgaste que as chamadas causam, afirma Marcos Oreste Colpo, psicólogo e professor da PUC-SP.

"Ficar atento em tempo integral, sem muita liberdade, é uma questão importante. Quando você está conversando presencialmente, o corpo também fala, mostra inquietações. E, nesses sinais, você aprende sobre o outro, sobre aprovação ou reprovação", explica Colpo.

Ele conta que, quando ministra suas aulas remotas, dificilmente os alunos ligam as câmeras, o que torna a relação entre o grupo veladas e sem reações afetivas. "Tudo isso envolve um cansaço porque não há muita troca."

A longa exposição à luz da tela do computador também tem implicações do ponto de vista oftalmogólico que contribuem para essa exaustão, explica Danilo Soriano, oftalmologista e doutor na área pela Universidade de São Paulo.

"Ficar nesse ambiente muito tempo, prestando atenção em uma chamada por horas seguidas faz com que a gente fique muito tempo sem piscar", afirma.

Esse processo aumenta a chance de ressecamento ocular e fadiga da musculatura ocular de aproximação da imagem, principalmente para os que têm condições como a presbiopia, vulgarmente chamada de "vista cansada".

O nível de exposição à tela que é considerado saudável varia muito de pessoa para pessoa, diz o especialista. Mas caso os olhos fiquem irritados, ardendo ou lacrimejando, o ideal é fazer uma pausa de alguns minutos e lubrificá-los para evitar um cansaço excessivo.

Usar um protetor de tela para reduzir o brilho e aumentar a letra das palavras também são importantes, diz Soriano.

Katty Zúñiga lembra que a pandemia exponenciou a ideia de que todos estão disponíveis, o que contribui para que essas videoconferências sejam tão numerosas.

"Os smartphones já tinham nos colocado em uma posição de disponibilidade constante", diz Zúñiga. "Com a quarentena, existe uma percepção de que a disponibilidade teria aumentado ainda mais pelo fato de muita gente estar em casa, mas isso não é verdade. Ao contrário, as pessoas estão ainda mais sobrecarregadas nas suas casas".

A psicóloga sugere analisar qual sentimento que o convite para uma determinada videoconferência provoca para avaliar se deve ou não aceitar a chamada e, portanto, evitar a exaustão.

"Se não estiver disponível, pergunte se podem falar depois ou até marcar um horário se o que se tem a tratar será uma conversa mais longa. A melhor coisa é ser sincero e dizer que não pode falar naquele momento, com gentileza e sem rodeios", conclui.

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