'A pandemia evidenciou a invisibilidade da pessoa com deficiência', diz professora da rede pública

Educação virtual traz desafios para a deficiente visual Lara Souto, que leciona português e inglês

São Paulo

A professora de português e inglês da rede pública Lara Souto, 34, deficiente visual, sentiu rapidamente o efeito da quarentena na rotina.

Ela trocou as três horas gastas no metrô para ir e voltar de dois empregos, na Barra Funda e no Jabaquara (zonas oeste e sul de São Paulo), por mais tempo de sono e lazer.

A mudança não veio sem custo. Para quem estava acostumada a andar em média 6 km por dia e frequentar a academia três vezes por semana, o confinamento dentro do apartamento na Saúde, bairro da zona sul da capital, trouxe dores nas costas.

Para se exercitar, passou a fazer pilates online e comprou uma bicicleta ergométrica.

O trabalho remoto com seus alunos, crianças e jovens, também trouxe novos desafios.

Apesar de já ter feito aulas a distância, é a primeira vez que se viu nessa situação como professora.

Assim que acessou o sistema de ensino remoto, se deparou com um "captcha" —teste rápido que pede o reconhecimento de caracteres para garantir que o acesso está sendo feito por uma pessoa, não por um robô".

Há aplicativos que driblam a função para deficientes visuais, mas esse é só um dos detalhes que mostram os desafios da educação virtual inclusiva.

"A pandemia tem deixado em evidência a invisibilidade das pessoas com deficiência. Parece que não fazemos parte dessa narrativa", afirma Lara, que é também consultora de acessibilidade.

A professora mora no apartamento com o marido, o médico endocrinologista Ricardo Ayello Guerra, 49, também deficiente visual.

Ele continua saindo diariamente para ir aos dois hospitais públicos onde trabalha.

Lara diz ter medo do contágio pelo coronavírus, mas, como Ricardo não tem contato direto com pacientes de Covid-19, ela fica mais tranquila.

Sobre o futuro, a professora se diz ansiosa. "Acredito que o pós-pandemia vai demorar a chegar. As consequências deste momento vão além da doença. Mas existe esse desejo de gozar de novo da liberdade."

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