Descrição de chapéu Coronavírus

Com Carnaval de SP indefinido, blocos se reinventam para manter festa viva

Bruno Covas anunciou adiamento da festa para maio ou junho do próximo ano

São Paulo

Em primeiro lugar, a saúde. Este é o entendimento dos blocos do Carnaval de rua de São Paulo, cidade que nesta sexta-feira (24) anunciou o adiamento da festa de 2021 para maio ou julho, ainda com data a definir.

O desafio para eles agora é manter fervilhante uma festa que se consuma nas ruas e nos encontros, mas sem poder sair de casa. O impacto é emocional e também financeiro.

“O prejuízo é isso, reflexo em todo mundo que é contratado para trabalhar no Carnaval. É um prejuízo também para cidade, não só para os blocos”, diz Alexandre Natacci, do bloco Baixo Augusta, um dos maiores da capital. “Mas temos que ter a preocupação principal na saúde."

O evento de rua movimenta toda uma rede que vai desde vendedores ambulantes de bebidas durante a festa, a confecção de fantasia antes, as oficinas culturais preparatórias e até os diversos shows de “esquenta” que servem de renda para centenas de músicos.

“Na época do carnaval tem muita gente que conta com essa renda. Ambulante, produção, toda uma cadeia não só direta, mas também transporte, gastronomia, hotelaria”, diz Cesinha, da Oficina Dr Alegria, que engloba, por exemplo, o carioca Sargento Pimenta, que também sai nas ruas de São Paulo.

Em 2020, a Oficina também trouxe o tradicional Galo da Madrugada de Recife, considerado o maior bloco do mundo, para a capital paulista.

“Os blocos de Carnaval juntaram, nas três semanas [de 2019], 15 milhões de pessoas e trouxeram um benefício econômico de R$ 2,75 bilhões”, afirmou o prefeito Bruno Covas (PSDB) nesta sexta-feira (24), sobre o impacto da festa.

A decisão de adiar e não cancelar a festa é entendida como certeira pelos blocos, uma vez que é mais segura sanitariamente e, apesar de ter impactos financeiros, são menores que um cancelamento.

No entanto, para Zé Cury, do Fórum de Blocos de Rua de São Paulo (que tem mais 200 associados), houve um erro do prefeito ao afirmar que conversou com todo a festa da cidade.

“Sua equipe conversou informalmente com alguns blocos e com uma associação que não representa mais um Carnaval de rua. Apesar de ser assessorado diretamente pelo ex-presidente do bloco Baixo Augusta [Alexandre Youssef, ex-secretário municipal da Cultura], não pode dizer que falou com todos os blocos”, afirmou.

Covas afirmou que conversou com a Associação das Bandas Carnavalescas de São Paulo, composta por 18 dos mais de 600 blocos oficiais da cidade, e com algumas entidades individualmente.

Cury entende que o adiamento é a melhor medida para o momento e diz que fica feliz que ao menos os maiores blocos da cidade tenham sido ouvidos, mas que, para uma definição final, será necessário conversar também com os menores.

No entendimento de quem faz o Carnaval de rua paulista, o prejuízo maior não está na questão financeira, mas sim na cultural e emocional. E é então que eles buscam se reinventar.

“A gente costumava fazer uma festa mensais o ano todo, e as festas próximas ao Carnaval são as grandes. A gente está bem de mão amarrada, o que vai ser, que novo modelo de festa vai começar a surgir? Querendo ou não, festa tem aglomeração”, entende Fernando Magrin, do Minhoqueens.

Por meio das redes sociais, youtube e outras plataformas, os blocos tentam substituir os eventos que, não houvesse a pandemia, estariam começando a acontecer no segundo semestre, em preparação para fevereiro de 2021 quando seria a festa.

São oficinas, festas e debates levados para o mundo virtual como maneira de manter o ânimo, principalmente num momento em que o vírus ainda atinge com força o estado de São Paulo e o Brasil.

Fernando confessa que há certa preocupação que este esfriamento dos eventos enfraqueça o Carnaval enquanto movimento e dê mais espaço a discursos conservadores contrários à realização da festa.

“Principalmente pelo governo federal, quando no Carnaval de 2019 o único vídeo compartilhado pelo presidente [Jair Bolsonaro] foi o do "golden shower" [cena em que um homem urinava em outro como brincadeira sexual], no intuito de dizer que a festa é devassa”, afirmou.

“A cultura ainda é cerceada por questões ideológicas, muito moralismo, não é vista como pilar legítimo da economia, e mesmo como construção de cidadania, de nação. Existe uma parcela da população extremamente conservadora que enxerga a festa como apenas uma grande bagunça, não entende a magnitude cultural e artística que tem”, afirma Thiago França, do Charanga do França.

A avaliação, ao mesmo tempo, é que cada vez mais a festa tem crescido e mostrado sua importância, dando menos espaço a quem é contrario a ela. Os blocos ouvidos pela Folha dizem, inclusive, que já tem sido consultados por candidatos a prefeitura e vereadores da cidade de São Paulo, que deve eleições municipais em 2020.

“Vai falar contra o Carnaval com discurso conservador... e daí? O Carnaval não deixou de existir por conta da pandemia [da gripe espanhola], a reportagem sobre o Carnaval de 1919 mostrou isso”, afirma Paula Klain, do Agora Vai.

Para ela, o Carnaval compõe uma cultura de resistência da liberdade por meio da ocupação das ruas e da tomada dos espaços carregando apetrechos fantasiosos. Também diz que, mesmo caso a atual pandemia não permita, em maio ou julho, as aglomerações, haverá alternativas, mesmo que cada família ou grupo de amigos precise fazer seu próprio bloco dentro de casa.

“Acho que não dá para subestimar a nossa criatividade, de um folião de Carnaval. A gente vai dar um jeito de fazer a festa acontecer, porque é uma força da natureza."

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