Doações atingem patamar histórico com comoção coletiva gerada pela crise

Moradores da cidade preferem ajudar instituições com roupas e alimentos do que com dinheiro

São Paulo

A crise sem precedentes causada pela pandemia do novo coronavírus inspirou movimento inédito de solidariedade.

Mais de 460 mil pessoas já doaram para os esforços de combate à pandemia de Covid-19 no país, número que segue crescendo com uma média de 15 mil novos contribuintes a cada semana, segundo o Monitor das Doações da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR).

Maioria entre os doadores, indivíduos e famílias somam R$ 303 milhões arrecadados. Suas contribuições se dividem também pelas mais de 500 campanhas de financiamento coletivo que foram mapeadas pela ABCR, sendo cerca de 30% delas na cidade de São Paulo.

A mobilização sem precedentes pode ser explicada pelo sentimento de comoção coletiva que ocorre em situações de tragédia e emergência, afirma a psicóloga clínica Fátima Zacari.

"As pessoas se sensibilizam com o sofrimento do outro, e é por isso que ficam mais disponíveis para se doar de alguma forma", afirma.

Entre os paulistanos, a preferência é por contribuir com objetos e alimentos, mais do que com dinheiro.

De acordo com a pesquisa Datafolha sobre novos hábitos e tendências de consumo, feita no início de julho, 70% dos moradores da capital doam roupas e sapatos usados; 56% oferecem alimentos ou produtos de higiene; e menos de um terço declara contribuir com dinheiro para pessoas carentes (32%) ou instituições humanitárias (29%).

Doar dinheiro só é mais comum entre os mais ricos, com renda familiar mensal de mais de dez salários mínimos. Desses, 54% fazem contribuições para pessoas carentes e 61%, para entidades beneficentes.

A engenheira civil Rosana Matsuno, 57, está entre os 29% de paulistanos que aumentaram a frequência das ações com a chegada da Covid-19 no Brasil.

"É muito gratificante poder doar. O pouco que a gente dá é muito importante para quem recebe", afirma Rosana.

Ela já fazia parte de um centro espírita que realiza campanhas de doação de alimentos, cobertores e dinheiro. Também contribui financeiramente com entidades sociais, entre elas a AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), os Médicos sem Fronteiras e as Casas André Luiz.

Casada e mãe de dois filhos, Matsuno teve redução na renda familiar como 46% dos paulistanos entrevistados pelo Datafolha, mas diz que isso não afetou o volume e a frequência de suas ações sociais.

"Mesmo que nossos recursos tenham diminuído um pouco, a gente precisa aprender a dividir. Algumas pessoas estão precisando muito mais que a gente", diz.

Os benefícios são também do doador, explica a psicóloga Zacari. Quem tem costume de doar experimenta sensações de felicidade e bem-estar geral graças à produção no cérebro de endorfina, serotonina e oxitocina, neurotransmissores ligados à felicidade.


Esses hormônios se espalham pelo corpo, aumentando o sentimento de satisfação e diminuindo o estresse.

"Nese cenário de pandemia, o ato de contribuir com uma causa pode ajudar na saúde mental. O doador fica menos ansioso, menos angustiado e menos estressado", explica a psicóloga.

Talvez por isso, a maior parte dos paulistanos que afirmaram doar produtos ou dinheiro, independentemente da renda, acredita que suas ações sociais não vão diminuir passada a crise sanitária.

A presidente do conselho da ABCR, Márcia Woods, diz que as contribuições serão essenciais no pós-pandemia para que as ONGs e instituições sociais consigam se reerguer e manter o trabalho de apoio às populações vulneráveis.

"O pós-crise ampliará problemas como desemprego, violência e desigualdade, tornando o trabalho do terceiro setor ainda mais necessário", afirma Woods. "Cada um doando para o que acredita vai permitir que as organizações se levantem", completa.

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