Descrição de chapéu Escola do Futuro

Escola precisa de currículo flexível para progredir em tecnologia

Professor não resiste ao uso de novas ferramentas; a dificuldade é adaptar os programas, apontam debatedores

São Paulo

Embora pareça que os professores são resistentes ao uso da tecnologia, na verdade, o currículo engessado muitas vezes é a principal causa na demora à introdução de novos instrumentos de ensino nas escolas.

Essa foi uma das conclusões do Seminário Escola do Futuro, promovido pela Folha, nos dias 6 e 7 de julho, em formato online, com patrocínio do Grupo SAS. A necessidade de isolamento diante da pandemia empurrou as escolas para aulas virtuais, sem tempo para planejamento.


Veja o vídeo do debate abaixo.


"O que os colégios estão fazendo não é EAD (ensino a distância) nem homeschooling (educação sem escola). São improvisações que se mostraram necessárias”, disse Fábio Aidar, diretor do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, e membro do Conselho Estadual de Educação.

Mas a tecnologia, que entrou de supetão no cotidiano de alunos e professores, veio para ficar. O que se discute é a melhor forma de incorporá-la.

Na visão de Luciano Meira, sócio-fundador da empresa de tecnologias educacionais Joy Street, o currículo ainda domina a atividade do docente. “Não é que ele não queira usar a tecnologia, o currículo é antiquado demais para inseri-la. A gente tem que fazer uma transformação digital na escola para que se deixe de entregar apenas conteúdo e se passe para uma oferta de experiências significativas”, defendeu.

Esther Carvalho, diretora do colégio Rio Branco, em São Paulo, concorda com Meira. “Essa escola de 200 anos [atrás] ainda está impregnada na nossa alma de professor, aluno, comunidade. Não é incomum ouvir alguém falar ‘colegial’, ‘ginásio’. O processo de resistência da escola é muito verdadeiro.”

A jornalista Laura Mattos faz a mediação de debate do seminário Escola do Futuro, promovido pela Folha - Keiny Andrade/Folhapress

À frente do Rio Branco, que tem cerca de 2.300 alunos em duas unidades, Esther conta que foi necessário adaptar-se às pressas. “Rapidamente percebemos que o ano letivo tal como conhecemos não existia mais. Era necessário repensar e reestruturar esse tempo a partir das necessidades. Tivemos que avançar alguns anos em poucos meses”, disse.

No colégio, há momentos coletivos, com sala de aula completa, mas também atividades com grupos menores para reforçar vínculos. “Nos sites que usamos, se originalmente era mais para a família do que para a criança, agora invertemos, é uma interface para o aluno”, explica a diretora.

Caê Lavor, gerente-executivo de avaliações e conteúdo digital no SAS, ressaltou que, nesse momento de transição, é preciso refletir sobre como preparar os alunos para um futuro que ainda não conhecemos. “Quando se fala de escola do futuro, a ideia é o aluno vivenciar experiências, se envolver com problemas reais, que impactem na sociedade, e não somente contar histórias de cientistas do século 17 ou 18. Essas duas coisas têm que conviver em harmonia”, disse.

Para Lavor, a formação universitária dos futuros professores precisa caminhar nessa direção. “Nenhum médico sai da universidade só com formação teórica, mas nossos graduados em pedagogia estão se formando muitas vezes sem ter dado uma aula.”

O SAS é um sistema e uma plataforma de educação que desenvolve conteúdo e presta serviço para mais de 800 escolas no Brasil. Quando as aulas foram suspensas, a empresa criou o SAS ao vivo. Foi disponibilizado, gratuitamente, nas redes sociais e no canal do youtube, vídeo-aulas com conteúdo para estudantes desde o ensino fundamental até o ensino médio.

Gil Giardelli, professor de MBA e especialista em inovação digital, que se define como um “tecnootimista”, prevê o que ele chama de “uma nova era da educação”. Nesse futuro, o ensino poderá ocorrer em qualquer lugar graças a tutores com inteligência artificial e a tecnologias educacionais.

Giardelli usa como exemplo um robô utilizado nas escolas municipais de Recife que ajuda estudantes autistas a desenvolver suas habilidades cognitivas. Outro exemplo citado por Giardelli foi o Pepper, robô que consegue memorizar os rostos dos alunos, gravar como eles se posicionaram em relação ao que foi discutido e também alerta o professor se ele está repetindo assuntos durante a aula.

Lavor aproveita para reforçar uma premissa importante: “Tecnologia não pode ser o fim, ela é um meio para que a gente consiga atingir o aluno e evoluir com as competências e habilidades necessárias”.

30% dos alunos que prestam Enem não têm acesso à internet

Mas como falar em robôs em um país com tamanha desigualdade como o Brasil, onde muitos alunos sequer têm uma boa conexão?

Uma análise no perfil de participantes do Enem de 2018, os mais atuais disponíveis, mostra que 3 em cada 10 participantes que concluíram o ensino médio na rede pública naquele ano não tinham acesso à internet. Na escola privada, apenas 3,7% disseram não ter internet em casa.

“Um dos legados dessa pandemia será a urgência de resolvermos o enorme fosso social. E não importa o quanto de dinheiro que você tem na conta, todos foram atingidos”, afirma Girardelli.

Luciano Meira sugeriu uma ideia utópica, como ele descreve. Empresas de tecnologias e até pequenos comércios poderiam compartilhar a senha do wifi para que jovens estudantes possam trabalhar.

“Num contexto desse [pandemia] há uma defasagem cada vez maior que constata o que já sabemos: é necessária uma política de estado que passe pela educação e pela infra-estrutura. Isso demora 20, 30 anos, que nós não temos”, diz a diretora do Rio Branco, Esther Carvalho.

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