Descrição de chapéu Obituário Raul Wassermann (1942 - 2020)

Mortes: Abriu caminhos com livros e cingiu uma família rarefeita

Raul Wassermann fundou o Grupo Editorial Summus

São Paulo

Discreto e de poucas palavras, Raul Wassermann não era óbvio na forma de demonstrar seu carinho. Fazia isso nos detalhes.

Figura importante do mercado editorial, como fundador do Grupo Editorial Summus e ex-presidente da Câmara Brasileira do Livro, o semblante sério escondia um homem de coração enorme, muito ligado à família e que sonhava em distribuir bibliotecas pelo país.

Quando recebeu o diagnóstico de linfoma, há 12 anos, uma das primeiras reações foi demonstrar o medo de não ver os netos crescerem. Por ser alto e grande, o colo do “vovô Raul” era um dos lugares favoritos dos netos. Era ali, também, que ele lia para os pequenos.

Retrato de Raul Wassermann em 2014 - Ana Paula Paiva/Valor

Filho de judeus emigrados da Bessarábia, região da atual Moldávia, ele herdou o amor pelos livros da mãe e fez questão de passá-lo para as gerações seguintes. O filho Paulo, que trabalha com o pai e é seu sucessor na editora, lembra que cresceu numa casa rodeada de livros, com estantes cheias deles. Não importava se lessem gibis, o pai explicava, o principal era adquirir o hábito.

A paixão pelo ofício fica evidente no legado que deixa. Foi sob sua gestão que a CBL saiu do conjunto alugado no centro de São Paulo e se estabeleceu na rua Cristiano Viana, em Pinheiros, sua sede até hoje.

Com o slogan “a editora que se assume”, lançou selo voltado para o público LGBT muito antes do movimento ter tantas letras, no fim da década de 90. Edições GLS (gays, lésbicas e simpatizantes) nasceu porque ele enxergava a importância de atingir esse público, conta Paulo. O filho lembra do preconceito da época e de como as livrarias colocavam as obras na área de sexualidade.

Às sextas-feiras, Raul Wassermann gostava de cozinhar para a família —paixão descoberta nos últimos anos. A dificuldade, entretanto, era conseguir reunir todos. Com um filho e uma enteada que moram na Europa, quando conseguia ter toda a família em terras brasileiras, fazia questão de tirar uma foto. Depois, enviava uma cópia para cada um.

“Você podia ver o orgulho nos olhos dele quando ele reunia a família e via aquilo que ele construiu”, diz Paulo.

Nascido em Santos, torcia pelo clube da cidade, frequentava os concertos da Osesp na Sala São Paulo e gostava dos filmes do Woody Allen. Raul Wassermann morreu na quinta (9), aos 77, em São Paulo. Deixa a mulher, Edith Elek, três filhos, dois enteados e oito netos.

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