Solidária na pandemia, Paraisópolis sonha com parque e rejeita muro

Prefeitura diz que a entrega do local, com 68.150 metros quadrados, será em outubro

Terreno do futuro parque Paraisópolis ao centro. Ao fundo e à direita, a parte mais rica da região e, no primeiro plano, a comunidade

Terreno do futuro parque Paraisópolis ao centro. Ao fundo e à direita, a parte mais rica da região e, no primeiro plano, a comunidade Eduardo Anizelli/Folhapress

São Paulo

Mercado do Louro. De uma ponta a outra de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, o local é um dos mais conhecidos da comunidade e pertenceu a Lourival Clemente da Silva, falecido há seis anos e que dará nome ao Parque de Paraisópolis.

Lourival chegou à região em 1965 e, segundo sua viúva Maria, que veio com ele de Alagoas (Maceió), não havia mais de 15 casas na região —hoje são mais de 100 mil de habitantes, segundo a Associação de Moradores de Paraisópolis.. Lá, eles moraram pelo resto da vida.

“Tinha criação de galo, tinha granja, tinha tudo. E hoje em dia não tem nem onde colocar nada”, diz ela à Folha. “Chegava uma pessoa, alguém do Nordeste, ele fazia um barraco e dava para morarem. Se fosse uma pessoa gananciosa para querer tudo pra ele, ele teria [deixado] um monte de mansão”.

Maria se orgulha de ter criado seus 4 filhos e 3 netos na comunidade. Ela acompanhou o explosivo crescimento da comunidade, que acabou com as áreas de lazer.

Atualmente, resta apenas o campo da Palmeirinha, time de várzea administrado pelo irmão de Maria, Chiquinho, 61. Durante a quarentena, o local tem sido ponto para organização de ações de combate à doença.

Com a paralisação do futebol amador, ele aguarda ansioso (e já com 40 equipes inscritas) a pandemia permitir a realização da próxima Copa da Paz, torneio que integra favelas de todas as regiões da cidade.


É uníssono o sentimento de que o parque representaria uma melhoria que há anos é necessária nas opções de lazer.

"Acho que [o parque] é muito importante. Tenho bisnetas, as bichinhas têm bicicleta, mas não têm onde brincar. Se tiver um parque, as pessoas têm que tomar conta", diz Maria.

“Temos um grupo de jovens muito grande, 31% [da população de Paraisópolis] tem 15 a 21 anos e não tem oportunidade de acesso a áreas de lazer e esporte”, diz Gilson Rodrigues, presidente da associação dos moradores da comunidade.

A construção é uma promessa antiga, está prevista em lei desde 2008, mas nunca saiu do papel. Após a ação da Polícia Militar que matou 9 jovens no baile funk da DZ 7, em dezembro de 2019, o prefeito Bruno Covas (PSDB) afirmou que terminaria o parque.

Foi também a gestão Covas que incluiu a homenagem a Lourival.


O local voltou aos holofotes após a vizinha Associação dos Moradores do Jardim Vitória Régia solicitar a construção de um muro separando o parque do bairro vizinho, o rico Morumbi. O pedido foi negado pela prefeitura, e questionada, a organização não quis se manifestar.

A Folha visitou o local no último dia 21 de julho. O terreno está rodeado por tapumes, tem homens trabalhando e máquinas “ranhando” o solo, como antecipou Gilson. Ao lado, há equipamentos para exercício e recreação.

“Precisamos agora, já que nossos vizinhos [do Jardim Vitória Régia] estão com tanta vontade de lutar pelo parque, que eles nos ajudem a pressionar a prefeitura para ele ser inaugurado, para não ser só mais uma ação de véspera de eleição”, afirma Gilson.

A Prefeitura afirmou que a entrega do local, com 68.150 metros quadrados, está programada para outubro e integra o plano de metas da gestão. Com custo de mais de R$ 2,4 milhões, a obra é responsabilidade da Monteiro Engenharia e Arquitetura e prevê guarita, administração, área com pergolado, deck e parquinhos.

Também disse que recentemente abriu duas unidades de educação infantil, criou mil vagas de qualificação técnica, modernizou 1,9 mil pontos de luz, além de ter realizado outras ações no local.

Fosse construído, o muro teria 3 metros de altura e ficaria na área mais elevada do terreno do parque, beirando uma pequena rua que, além de sequer dar acesso à comunidade, já ostenta na calçada oposta outro alto muro branco demarcando a região onde, ao fundo, é possível ver os telhados de casas em condomínios de alto padrão.

“Parece a Alemanha, o Muro de Berlim. Esses bacanas dependem da gente, isso é discriminação total. Dá até uma revolta, mas foi um tiro no pé desses dois ou três moradores [que defenderam o muro]”, diz Chiquinho.

O muro não separaria apenas um bairro rico de um pobre, mas um mais eficiente que o outro no combate à pandemia. Segundo o Instuto Pólis, Paraisópolis conseguiu melhores resultados que o Morumbi.

Estudo publicado em maio, revelou que a taxa de mortalidade de Paraisópolis era de 21,7 pessoas por 100 mil habitantes, enquanto a Vila Andrade (distrito que engloba tanto a comunidade quanto o bairro mais rico) tinha 30,6. A média do município de São Paulo inteiro era de 56,2.

O local também foi mais eficiente que outras áreas vulneráveis como Pari (127), Brás (105,9), Brasilândia (78) e Sapopemba (72), segundo o Pólis.

Paraisópolis tem mais de 1.400 moradores voluntários para auxiliar em ações de combate à pandemia, que englobam, por exemplo, os chamados presidentes de rua, pessoas responsáveis por monitorar a situação sanitária de cerca de 50 famílias cada.

Ambulâncias da comunidade transportam doentes até os hospitais. Também foram separadas casas para isolar infectados que não tenham como realizar o distanciamento social dentro de suas moradias.

“Ao analisar as ações e os dados de óbitos, o Instituto Pólis atesta que a favela, apesar das condições de precariedade e vulnerabilidade, tem sido eficiente em baixar a média de mortalidade do distrito como um todo”, diz a publicação.

“O muro seria uma vergonha. É como criar um apartheid. Acredito que o Morumbi só estará numa situação boa [em relação à disseminação do vírus] quando Paraisópolis estiver numa situação boa. Não existe Morumbi bom sem Paraisópolis boa”.

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