Descrição de chapéu Coronavírus

Com o avanço da pandemia, famílias carentes do DF ficam sem caixões para funeral

Falta de caixão tem ocorrido desde junho em Brasília, mas se agravou em agosto

Brasília

Numa estrada de terra no Recanto das Emas, no Distrito Federal, vive em uma chácara o aposentado Moacyr Baptista da Silva, 84. Casado há 62 anos, ele perdeu no dia 7 de agosto a mulher Amelia Iracema da Silva, 82, vítima do novo coronavírus.

Morando em uma casa simples e com poucas economias guardadas, ele não imaginava que, mesmo sendo incluído no perfil de pessoas de baixa renda, precisaria arcar com as despesas do sepultamento da mulher. Entre os gastos que ficaram em R$ 1 mil, estava o caixão para enterrá-la.

"Eu pedi ajuda ao governo porque a situação da gente é muito frágil. Comprei sem poder porque a gente vive de salário mínimo. Não é fácil, disseram que não tinha", disse Moacyr, que mora com uma filha deficiente de 59 anos e tem contado com a ajuda de vizinhos para os afazeres do dia a dia.

Em meio à pandemia, famílias carentes estão sem caixões que deveriam ser fornecidos pelo Governo do Distrito Federal. Por isso, estão tendo de tirar parte do dinheiro do próprio bolso para conseguir enterrar parentes.

A Folha esteve no galpão em que as urnas ficariam armazenas, e constatou que não há caixões de adultos, principais vítimas da Covid-19.

A presidente da Asfundf (Associação de Funerárias do Distrito Federal), Tânia Batista da Silva, diz ter conhecimento da falta de caixões desde junho.

No entanto, a situação se agravou no início de agosto após a associação parar de disponibilizar urnas para a Sedes (Secretaria de Desenvolvimento Social do Governo do Distrito Federal).

A falta de urnas tem ocorrido, segundo Tânia, por causa do crescimento da demanda em razão da Covid-19 e porque o governo demorou em fazer licitação. "Foram esperando, esperando e não fizeram licitação antes do problema acontecer", disse.

"Para tentar solucionar o problema, a associação propôs à Sedes realizar todo o serviço, incluindo urna, busca e entrega do corpo durante a pandemia por R$ 1.100", disse. Não houve acordo.

Adelar Linhague, dono da funerária Paz do Recanto, que fica no Recanto das Emas, conta que, desde o início do mês, pessoas têm procurado por caixões. No entanto, acabam arcando com a maior parte das despesas.

A afirmação foi feita porque a Sedes garante o auxílio-morte, para a realização dos enterros sociais no DF. Ele está previsto na lei. O benefício tem valor de até R$ 415 para o custeio das despesas do sepultamento. Mas o serviço funerário completo fica entre R$ 1.100 a R$ 1.400.

"Eu tenho dado desconto para as pessoas que chegam para comprar nessas condições. A urna mais em conta, no valor de R$ 706, vendi por R$ 600", afirmou.

Felismino Alves Ferreira Neto, presidente do Sindicato das Empresas Funerárias do Distrito Federal, afirma não ter conhecimento do problema. Mas disse que irá ajudar o Executivo, caso seja necessário.

"Se o governo procurar, ele terá respaldo do setor todo. Quero acreditar que a tendência agora para frente é diminuirem os casos de coronavírus e, consequentemente, o número de mortes", disse.

A Sedes informou, por nota, que está em fase final o processo licitatório para a aquisição de 1.020 novas urnas funerárias. A previsão é que essa tramitação esteja concluída em 15 dias, ou seja, ainda em agosto.

No entanto, garante que não houve interrupção na concessão do auxílio-morte para a realização dos enterros sociais.

"Quando o governo fica impedido de fornecer algum dos itens previstos em lei, a secretaria pode conceder, em parcela única, o benefício no valor de R$ 415 para o custeio das despesas do sepultamento", disse.

Podem receber o auxílio as pessoas ou famílias com renda igual ou menor que meio salário mínimo, R$ 522,50 per capita, que morem no DF e estejam inscritas no Cadastro Único do governo federal.

O órgão esclareceu ainda que nestes últimos cinco meses, foram solicitados 889 auxílios por morte. Já no mesmo período em 2019, foram registrados 540. A pasta associa esse crescimento de 65% à pandemia.

Sobre a tentativa de um acordo da Asfundf com a Sedes, a pasta não respondeu.

O Distrito Federal passou, inicialmente, de um modelo no enfrentamento da Covid-19 para o estado de calamidade pública, decretado no dia 29 de junho por causa da evolução recente dos casos confirmados e mortes decorrentes do novo coronavírus.

Três dias após decretar calamidade pública, o governo publicou um decreto, no dia 2 de julho, com um cronograma para reabrir praticamente todas as atividades que ainda estavam suspensas.

No Distrito Federal 131.170 pessoas foram contaminadas pelo novo coronavírus e 1.905 já morreram pela Covid-19 até sexta-feira (14). São perdas que têm deixado um vazio em muitas famílias, como a do senhor Moacyr, que agora tem somente a companhia da filha, que ele descreve como o bebê da casa.

"Dez dias antes de morrer, minha velha disse que estava partindo, ela escreveu um bilhete dizendo que me amava. Dói demais, muito mesmo. Digo que 62 anos juntos não são 62 dias", diz.

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