Descrição de chapéu Coronavírus

Filha perde pai paciente oncológico para a Covid-19

'Estou com medo', disse psicólogo, 71, a caminho do hospital

Marcella Centofanti

Meu pai se foi ontem, 12 de agosto. Dia do aniversário de 45 anos do meu irmão, o primogênito dos três filhos. Ele é um dos 1.164 mortos por Covid-19 nas últimas 24 horas no Brasil. Só um entre o total de 104.263 vítimas —até agora. Mas era o meu único pai.

Idoso e paciente oncológico, ele estava em isolamento total desde o começo da pandemia. O câncer, porém, não quis saber do coronavírus. Dor de cabeça, desequilíbrio e confusão mental indicavam que o tumor no cérebro estava de volta. Era inevitável ir ao Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, o Icesp, onde ele se tratava pelo SUS (#vivaosus).

A terceira cirurgia no cérebro em cinco anos parecia ter resolvido o problema, até uma convulsão em casa indicar que algo não estava bem. “Estou com medo”, ele disse, em uma raríssima demonstração de fragilidade, no caminho para o Icesp. “Do corona?”, perguntei. “De tudo”, ele respondeu.

Os 65 quilômetros entre Mogi das Cruzes, onde ele vivia, e a avenida Doutor Arnaldo, em São Paulo, foram percorridos em silêncio, exceto pelo Reinaldo Azevedo esbravejando no rádio contra a proliferação da Covid. Eu também estava com medo.

No dia 8 de julho, meu pai deu entrada no hospital, de onde não sairia mais. No pronto-socorro, o médico testou a cognição dele. “Onde nós estamos, que dia é hoje, quem é o presidente do Brasil”, perguntou o residente. “Icesp, não sei, o idiota do Bolsonaro”, respondeu o paciente, me enchendo de orgulho.

Exames detectaram um abscesso no cérebro, ou seja, uma infecção, causada pela cirurgia. Seria necessário abrir a cabeça pela quarta vez.

Rogério Centofanti, vítima de coronavírus, e a filha Marcela - Arquivo pessoal

Eu fui a pessoa que esteve com ele no hospital, na única hora permitida diariamente. Em cada visita, lavava as mãos pelo menos uma vez na saída e outra na chegada ao Icesp, tomando o cuidado de segurar a maçaneta do banheiro com papel toalha. Esfregava álcool em gel nas mãos em cada recipiente que encontrava, desinfetando também o meu celular e o dele.

O nosso último encontro pessoalmente foi em 12 de julho, um mês antes da sua partida. Nessa visita, abri uma exceção: segurei mão dele. Por precaução, eu não havia tocado no meu pai em nenhum dia. Mesmo assim, lavei as mãos demoradamente antes e depois de encostar nele. Era um domingo à noite.

Na manhã seguinte, uma médica do hospital me liga. Meu pai havia sido transferido para o setor de Covid, porque exames pré-operatórios detectaram a presença do vírus. “Mas ele não tem sintomas. Será que o resultado não está errado?”, perguntei, em negação. “Pode ser, mas ele precisa ficar isolado mesmo assim”, respondeu a médica. Dois dias depois, quem começou a manifestar sintomas fui eu.

Os 30 dias seguintes foram de tensão absoluta, enquanto eu lidava com os efeitos do corona —dor e exaustão— em segredo e sozinha em casa, para não preocupar a minha família já à flor da pele. Nesse meio tempo, meu pai foi transferido para a UTI, entubado, extubado, entubado de novo.

Na segunda-feira seguinte ao Dia dos Pais, 11 de agosto, comemorei o resultado negativo do meu terceiro RT-PCR: eu estava curada do vírus! Meia hora depois, enquanto eu ainda compartilhava a boa notícia com amigos (e aí, sim, a família), recebi um telefonema do Icesp. Era a assistente social, convocando uma reunião familiar para o dia seguinte.

Eu temia que a notícia fosse ruim, mas ainda cultivava a esperança de que meu pai se recuperaria. Será que os médicos queriam a nossa autorização para experimentar uma nova abordagem? Meu pai, “highlander”, como os oncologistas brincavam, aguentou três cirurgias no cérebro, a perda de um olho, a retirada da tireoide e uma metástase no pulmão.

Nunca se entregou ao câncer. Em vez de reclamar contra os efeitos da doença, procurava soluções. Escolheu uma bengala estilosa, da qual se orgulhava, na feira da Praça Benedito Calixto para driblar a perda espacial. Quando foi avisado pelos médicos de que poderia perder a visão do olho que lhe restava, cogitou comprar um cão-guia. Para a fraqueza das perdas, negociou a compra de uma cadeira de rodas com uma pessoa no Mercado Livre —a ideia era concretizar o negócio depois da alta que nunca veio.

Eu sonhava que ele sairia do hospital aplaudido pelos enfermeiros, como tantos vídeos emocionantes das redes sociais. Meu highlander ganharia mais essa batalha.

No entanto, não era para falar sobre novos procedimentos que a médica da UTI nos chamou ao hospital. Na realidade, meu pai dava sinais de falência dos órgãos. Com muito tato, ela sugeriu que, caso ele tivesse uma parada cardíaca, não fosse reanimado, mas precisava saber o que pensávamos sobre isso. Meu irmão e eu ficamos de voltar no dia seguinte com a resposta, depois de debater o tema com meu irmão que mora fora do Brasil e minha mãe.

De fato retornei ao Icesp na quarta-feira (12), mas para receber a notícia de que meu pai deu o último suspiro às 4h40 da madrugada. A médica explicou que a causa da morte dele foi a Covid, não a infecção no cérebro. Ela também nos contou que, dois dias antes, colocou no ouvido do meu pai o áudio enviado pelo irmão. Era uma carta de despedida, na qual meu irmão dizia o quanto o amávamos e fomos influenciados por ele. “Coloquei o áudio para tocar duas vezes e o batimento cardíaco dele disparou na hora. Ele estava sedado, mas ouviu a mensagem”, garantiu a doutora.

Na hora da burocracia, descobri que não existe nenhum ritual de despedida em cremação por coronavírus. Eu sabia que não haveria velório, mas na minha cabeça minha mãe, meu irmão e eu poderíamos pelo menos ver o caixão (ainda que fechado) por cinco minutos. Não, não tem absolutamente nada, exceto a assinatura de um papel.

Descobri também que a roupa que eu havia separado para ele usar no caixão (cogitei um cardigan de lã por cima da camisa, porque ele era friorento, até me dar conta de quão absurdo era o raciocínio) não seria permitida. Sofri com a ideia de ele ir pelado no caixão.

A minha única chance de dizer adeus ao meu pai seria no reconhecimento do corpo, autorizado para uma pessoa. Na antessala do local onde o corpo dele repousava, li o nome dele no registro de óbitos, marcado “COVID” com letra maiúscula de fôrma, realçado pelo amarelo daquelas canetas marca texto.

Na presença de uma psicóloga e dois funcionários, pude ver somente o rosto dele, machucadinho pelos equipamentos que os mantiveram vivo nas últimas semanas. Implorei para chegar perto, alegando a minha imunidade ao coronavírus. Sem sucesso, disse as minhas últimas palavras a 2 metros de distância, com três testemunhas desconhecidas. O moço da prefeitura que transportaria o corpo ao crematório da Vila Alpina, que estava na sala ao lado, me mandou um WhatsApp de condolências.

Sozinha, sentei à sombra do lado de fora de hospital, fugindo do sol e do calor de 27 graus em pleno inverno. Uma leve brisa bateu no meu rosto, refrescando a minha pele sob a máscara molhada (e a essa altura sem serventia), enquanto uma abelha pousou no meu braço. Dei um Google em “significado da abelha”, e “imortalidade” foi o primeiro resultado.

Meu pai se foi. Mas o meu amor por ele é eterno e imortal. Descanse em paz, paizinho. Nos vemos na próxima dimensão.​

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