Goiás tem 2º destino de turismo religioso afetado por operação policial

Pároco é suspeito de desviar dinheiro dos fiéis para comprar imóveis de luxo

Cleomar Almeida
Trindade (GO)

Depois de Abadiânia, cidade a 90 km de Goiânia, onde o turismo entrou em crise após a prisão do médium João de Deus, o estado de Goiás poderá ter mais um destino de turismo religioso impactado por uma operação policial.

Com 130 mil habitantes, a cidade de Trindade (25 km de Goiânia) tinha como principal atração as missas do padre Robson de Oliveira Pereira, 46, alvo da Operação Vendilhões, deflagrada pelo Ministério Público do Estado de Goiás em 21 de agosto.

Afastado do cargo de reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e da presidência da Associação dos Filhos do Pai Eterno, da qual é fundador, Robson é suspeito de desvio de R$ 60 milhões de doações de fiéis e é investigado por apropriação indébita, ocultação de bens e lavagem de dinheiro.

As doações dos fiéis deveriam ser destinadas à construção do novo Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, mas a suspeita é de que o pároco tenha usado dinheiro das doações para compras de bens luxuosos, como uma fazenda de R$ 6 milhões em Abadiânia e uma casa de praia estimada em R$ 3 milhões em Guarajuba, litoral norte da Bahia. O padre nega ter cometido qualquer ato ilícito.

Donos de pousadas e hotéis afirmam temer dificuldades ainda maiores na retomada do setor, que na cidade gira em torno da devoção ao Divino Pai Eterno, uma tradição de 180 anos que atrai cerca de quatro milhões de visitantes por ano.

Proprietária de uma pousada com capacidade para 90 pessoas, em Trindade, a empresária Divina Aparecida Vaz Silva, 61, diz que a taxa de ocupação já havia zerado desde março, com a chegada da pandemia do coronavírus ao Brasil.

Ela diz acreditar que as suspeitas contra o padre devem agravar o prejuízo dos reflexos da pandemia, ao menos temporariamente. “A dificuldade vai vir naturalmente porque ele [Padre Robson] é idolatrado”.

A empresária diz acreditar que, com o tempo, os turistas vão retornar: “Muita gente está dizendo que o mais importante não é o padre, é o Pai Eterno”, acrescenta.

O prefeito Jânio Darrot (PSDB) tem opinião semelhante. Ele diz que o caso do Padre Robson “pode, sem dúvida, atrapalhar a retomada do turismo” na cidade, já que o religioso tinha uma grande popularidade.

“Muitas pessoas de outras cidades vinham a Trindade para ver o Padre Robson celebrar [a missa], queriam se aproximar dele e tocar nele. Então, isso, sem dúvida, era um atrativo a mais”, observa o prefeito, que ressalta que a pandemia já havia reduzido as excursões para a cidade.

O presidente do Conselho Municipal de Turismo de Trindade, Fernando Carlos Pereira, que também preside a ABIH (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis) em Goiás, diz que a investigação “abalou a confiança no padre, mas não na fé”. E afirma que não houve cancelamentos de pacotes de viagens.

“Estamos perguntando a nossos clientes e praticamente 90% dos que foram contatados afirmaram que vão retornar, assim que possível, pela fé ao Divino Pai Eterno, independentemente da situação do padre”, diz Pereira. Segundo ele, as reservas de agosto e setembro foram apenas adiadas, sem cancelamento.

Presidente da Associação Turística Fé no Coração do Brasil, Regington Bernardes Pereira também diz que pároco não é imprescindível para os fiéis. “A maioria dos nossos hóspedes vêm para assistir à celebração com o padre. Mas, quando ele não está aqui, a maioria não reclama”, acentua.

Após a deflagração da Operação Vendilhões, o padre Robson, que é cantor e apresentador da TV Pai Eterno foi proibido de participar de programas de TV, rádio ou internet, por decisão da Congregação do Santíssimo Redentor de Goiás.

Com a Operação Vendilhões, Trindade tornou-se a segunda cidade goiana de turismo religioso alvo de investigação em menos de dois anos. Em 2018, onde João Teixeira de Faria, o João de Deus, foi alvo de uma operação e preso após denúncias de abusos sexuais.

A Casa Dom Inácio de Loyola, comandada por João de Deus, era o principal atrativo turístico de Abadiânia e atraia milhares de fiéis todos os anos.

A Associação dos Filhos do Pai Eterno e o Padre Robson, que segue em liberdade, não responderam aos pedidos de entrevista da reportagem.

Em vídeo divulgado em suas redes sociais, o pároco diz que segue à disposição do Ministério Público.

“Meu coração está sereno e confiante de que tudo será esclarecido o mais breve possível. Sabemos que a vida é feita não somente de alegria, mas também de provações”, afirma.

Em nota, a defesa afirma que teve acesso ao inquérito apenas nesta semana. Diz que assim que verificar todas as suposições do Ministério Público, as informações necessárias serão prestadas e esclarecidas ponto a ponto.

“O padre Robson é o maior interessado na verdade e na transparência. A defesa aguarda e insiste com o Ministério Público para que ele seja ouvido, o que não aconteceu nem foi agendado até então”, diz a defesa do padre. .

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