Homem que promovia eventos infantis em Minas é acusado de abusar de crianças

Mulheres dizem ter sido estupradas na infância; homem não comenta acusações, que vão até 2018

Elisangela Colodeti Naiana Andrade
Várzea de Palma (MG) | agência pública

Todos os dias, dos 9 aos 11 anos, Ana Paula Fernandes dos Santos olhava apavorada a barriga imaginando que poderia haver dentro dela outra criança. Sem coragem de contar à mãe que havia sido estuprada, a menina escrevia cartas si mesma e depois as queimava para que ninguém mais lesse.

No dia 18 de outubro de 2019, ela foi à delegacia denunciar a violência sofrida quando criança. Ao voltar para casa, escreveu mais uma vez seu relato. Em vez de queimá-lo, publicou nas redes sociais.

Imediatamente, várias mulheres começaram a comentar que haviam sofrido a mesma violência na infância. Ana Paula não citara o nome do suposto agressor, mas muitas não tinham dúvida: seria Dinamá Pereira de Resende, 54, nascido e criado em Várzea da Palma (MG), cidade de 40 mil habitantes 300 km ao norte de Belo Horizonte, que por três décadas promoveu atividades religiosas e culturais gratuitas para crianças.

A Agência Pública teve acesso ao inquérito policial encerrado em janeiro de 2020, que deu origem à ação penal que ainda corre na Justiça. Os procedimentos estão em segredo de Justiça por conter informações de abusos recentes, envolvendo menores.

São depoimentos de 16 testemunhas e de 14 mulheres e meninas que se declaram vítimas de violência sexual cometida pelo mesmo homem. Procurado pela reportagem, o advogado de Dinamá, Santiago Átila Santiago disse que ele e seu cliente não se pronunciariam a respeito do caso. “Vamos ficar calados”, escreveu por mensagem.

Mulher morena de cabelos longos usando blusa clara de manga longa posa diante de porta de igreja branca e azul, olhando para o céu
Ana Paula denunciou Dinamá Pereira de Resende por estuprá-la na infância em Várzea de Palma (MG) - Vera Godoy/Agência Pública

O delegado que chefia as investigações, Guilherme Cardoso Vasconcelos, afirma que o número de vítimas pode ser muito maior do que o de denúncias. Desde 1987, pelo menos 5.000 crianças teriam tido contato com Dinamá, conforme disse o próprio acusado em depoimento no inquérito policial em 6 de dezembro de 2019. No momento da declaração, segundo ele, estavam sob sua responsabilidade atividades com 150 meninos e meninas.

Dinamá fundou a Liga Católica Mirim quando tinha 17 anos. Lá reunia crianças semanalmente para ensinar o evangelho. Fora da igreja, criou grupos de dança folclórica e, nas festas juninas, era ele quem ensaiava os alunos, dentro das escolas da cidade e da região. As meninas que aprendiam a dançar com ele no “Dinamá Show” eram chamadas de “Dinamitas”.

Em 2004, Dinamá concorreu ao cargo de vereador. Perdeu, mas, de acordo com Ana Paula, usou crianças de seus grupos para distribuir material eleitoral. Ela era uma das ajudantes. Com a desculpa de que os santinhos tinham acabado, Dinamá teria pedido à menina que fosse à casa dele buscar mais. Lá, segundo ela, o estupro teria acontecido.

“Eu confiava nele como quem confia em um professor. Lá dentro, ele me jogou na cama e tirou minha roupa. Eu não sabia o que ia acontecer, eu pensei que ele fosse me matar. Eu sentia muita dor. Quando ele parou, era só o silêncio. Ele arrumou minha roupa, me subiu na moto e me deixou em casa, sem falar nada. Eu sentia nojo e medo. Nunca tive coragem de contar pra ninguém e me tornei outra criança”, disse.

Outra vítima, Camila (o nome foi trocado para manter o anonimato), conta que passou fome na infância e que a Liga Católica Mirim era onde recebia os lanches e doces que faltavam em casa.

Ela recebeu a reportagem em sua casa. Aos 36, contou que aos 11 anos foi rezar o terço das crianças, promovido por Dinamá, na casa de uma amiga. Ele teria pedido que elas se sentassem no seu colo e, contando com a total distração dos adultos, os abusos teriam acontecido.

“Ele passava a mão por dentro da blusa, apertava os meus seios e colocava os dedos dentro da minha vagina. Eu tentava sair, mas ele dizia que ia contar pra todo mundo que a gente estava atrapalhando a reunião. Eu olhava pra minha amiga e via que ele estava fazendo o mesmo com ela. Só quando a Ana Paula teve coragem de falar no Facebook que eu consegui falar também e até depor na polícia.”

No fim de 2019, duas meninas de 10 e 11 anos também foram à polícia, levadas pelas mães, contar que sofreram abusos na casa da avó de uma delas no ano anterior durante o terço das crianças. Nenhum adulto percebera.

As investigadoras da Polícia Civil Maria Luiza F. Rocha e Lucilene L. Mendes e a escrivã Andrea Moura, que fizeram as oitivas, afirmam que Dinamá se valia da “confiança das vítimas e de seus familiares, que permitiam que suas filhas fossem ao terço acreditando que ele era um disseminador da fé” para cometer crimes sexuais.

Homem vestido de palhaço posa em salão fechado com seis meninas de cerca de dez anos, usando tiara de princesa, camiseta amarela e saia curta de babados à frente, todas com a mão na cintura
Dinamá Pereira de Resende, acusado de abusar sexualmente de crianças em Várzea da Palma (MG), posa com crianças de seu grupo de dança Dinamitas - Dinamá Pereira Resende no Facebook

Silmara Alves Soares, 29, diz ter sofrido abusos diários dos 6 aos 14 anos. Enteada de Dinamá, ela temia contar à mãe o que sofria porque o padrasto a ameaçava. "Ele dizia que, se eu contasse, ele estourava o botijão de gás lá em casa e mataria ela e minha irmã”, afirma.

Daniele Cordeiro Ferreira, 34, relata que o grupo de dança Dinamitas se apresentava em outras cidades. “Tínhamos que viajar no outro dia bem cedo, por isso Dinamá pediu para eu dormir na casa dele e minha mãe deixou. A gente estava assistindo televisão. Quando eu acordei, estava nua da cintura para baixo e com Dinamá em cima de mim. Ele estava nu e forçava a penetração. Fiquei machucada e doía muito.”

Daniele afirma que não entendia o que estava acontecendo. “Empurrei ele, que caiu e fez barulho. A mulher dele gritou do quarto perguntando o que estava acontecendo, e Dinamá falou que tinha escorregado e caído.”

Elaine Silva, 34, diz ter sido estuprada por Dinamá aos 11 anos numas das salas do Centro Pastoral de Várzea da Palma, um dos locais onde ele promovia atividades religiosas e culturais.

“Só o Dinamá estava lá. Ele me puxou para dentro de uma sala onde ficavam guardadas as cadeiras da catequese. Estava tocando ‘Lua de cristal’, da Xuxa. Eu vi ele fechar a porta e, quando tentei abrir, ele me agarrou. Eu tentava escapar, mas ele tinha muito mais força do que eu", afirma.

"Eu só via as paredes e cadeiras brancas, e ouvia aquela música. Quando consegui fugir, as outras meninas estavam chegando. Elas me perguntaram por que eu estava chorando. Contei e disse que nunca mais voltaria”.

Questionada, a Arquidiocese de Diamantina, responsável pelas igrejas de Várzea da Palma, disse em nota que “não tem nada a dizer, por absoluto desconhecimento sobre o assunto”.

No inquérito consta que Dinamá mantinha sob seu colchão fotos pornográficas de meninas aparentando 8 anos, tiradas por ele ou obtidas na internet. Um técnico em informática contratado pelo acusado para formatar seu computador diz ter encontrado arquivos com pornografia infantil na máquina.

Para a equipe policial que investiga as denúncias, há fatos suficientes para que Dinamá seja preso. Além dos novos casos, denunciados em 2018, a lei determina que o estupro de menores de 14 anos prescreve em 20 anos a contar dos 18 anos da vítima.

Mãos femininas pousadas sobre toalha de mesa vermelha seguram um terço branco
Camila (nome fictício) diz ter sido estuprada por Dinamá Pereira de Resende quando frequentava a Liga Católica Mirim, criada por ele - Vera Godoy/Agência Pública

“Não há dúvida de que Dinamá cometeu estupro de vulnerável contra diversas crianças e adolescentes. Diante dessa realidade, sugerimos à vossa excelência o indiciamento de Dinamá Pereira de Resende” foi a conclusão do inquérito policial, em 15 janeiro de 2020.

“Temos relatos idênticos com 20 anos de diferença de mulheres que não se conheciam. Algumas relatam que, na época, nem sabiam que tinham sido abusadas e que isso só ficou claro com o amadurecimento delas”, afirma o delegado Guilherme Cardoso Vasconcelos.

Para ele, Dinamá “é uma pessoa extremamente dissimulada que deturpa comportamentos sexuais com um forte discurso religioso e tenta de todas as formas camuflar o seu verdadeiro interesse de abusar das meninas".

O promotor Guilherme Abras acolheu o pedido de prisão preventiva feito pela Polícia Civil. Mas, em 19 de dezembro de 2019, o pedido foi negado pelo juiz Pedro Fernandes Alonso Alves Pereira, que considerou o fato de Dinamá ser réu primário, sem nunca haver cumprido afastamento disciplinar, e o tempo decorrido dos fatos para propor alternativas.

Foram então aplicadas medidas cautelares válidas por 180 dias e prorrogadas por outros 180: o acusado foi proibido de mudar de endereço sem comunicação prévia à Justiça, trabalhar em qualquer atividade pública com contato com crianças e adolescente e de ter contato com as vítimas citadas nos autos e seus familiares.

Segundo Abras, em 27 de julho Ministério Público encaminhou proposta de ação penal em relação a fatos envolvendo duas vítimas. Ele espera, também, que as medidas cautelares sejam prorrogadas.

Este texto é uma versão editada com exclusividade pela Agência Pública para a Folha. Leia a reportagem na íntegra em apublica.org.

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