Imigração chinesa no Brasil completa 120 anos ainda como alvo de racismo

História do fluxo migratório é anterior à data oficial e ecoa diversidade chinesa pouco reconhecida no Brasil

São Paulo

“Fica o governo autorizado a despender a quantia necessária com a introdução de 60 mil imigrantes, procedentes dos continentes europeu, americano e africano.” Assim determina uma lei de 1895 no estado de São Paulo, excluindo asiáticos da força de trabalho desejável em um país que havia recentemente abolido a escravidão e entrado em seu período republicano.

Cinco anos depois, no entanto, em 15 de agosto de 1900, atracava no porto de Santos (SP) o navio a vapor Malange, vindo de Lisboa e trazendo trabalhadores chineses para lavouras de café no interior do estado.

Consta no acervo digital do Museu da Imigração a matrícula de 119 chineses, com idades entre 20 e 40 anos, todos homens e solteiros, na Hospedaria dos Imigrantes, onde hoje fica o museu, no bairro da Mooca, em São Paulo.

Rubens Chang Chung Lin, 78, chinês que imigrou para o Brasil aos 8 anos; é um homem magro, bronzeado, com cabelos totalmente brancos; a foto ele está no canto esquerdo, de camisa polo listada de cinza e laranja, olhando para a direita, e a o fundo há plantas e um prédio
Rubens Chang Chung Lin, 78, chinês que imigrou para o Brasil aos 8 anos - Danilo Verpa/Folhapress

A chegada marca o primeiro registro oficial de imigrantes chineses no Brasil, data reconhecida em lei federal de 2018. A presença do grupo no país, porém, é mais antiga, e as discussões sobre ela foram permeadas por discursos e teorias racistas.

Estima-se terem chegado cerca de 3.000 chineses ao longo de todo o século 19 no Brasil; o número pequeno não livrou os trabalhadores chineses, ou “chins”, como eram chamados, de aparecerem em publicações associados a estereótipos carregados do racismo científico comum à época e em discussões sobre políticas migratórias.

Em artigo sobre a percepção que tinham os brasileiros dos povos asiáticos nessa época, por exemplo, o pesquisador Rogério Dezem cita o relato de enviados à China. José da Costa Azevedo, o barão de Ladário, visita o país em 1893 e escreve ao então presidente Floriano Peixoto um parecer em que chama a imigração chinesa de “um mal moral para o Brasil”.

No início da pandemia do novo coronavírus, quando a doença ainda era mais notícia na China do que por aqui, sino-brasileiros relataram casos de racismo, frequentemente associados a estereótipos depreciativos que remontam aos do século 19, especialmente relativos à higiene.

O Ibrachina (Instituto Sociocultural Brasil-China) foi uma das instituições que se organizaram para combater o preconceito.

Segundo Thomas Law, presidente do Ibrachina, o instituto criou um observatório dedicado a combater fake news sobre o vírus, trocando informações com a embaixada e consulados chineses no Brasil, e com jornais e institutos do país asiático.

Por meio de um canal de denúncias, o instituto recebeu milhares de emails, segundo Law, com relatos também de descendentes de outros povos asiáticos, relatando preconceito.

O episódio em que o ex-ministro Abraham Weintraub ridicularizou chineses pelo Twitter também repercutiu mal na comunidade chinesa e se somou aos ataques recebidos.

Law, porém, diz acreditar que casos como esses são superficiais. “Por outro lado, temos autoridades de envergadura muito grande que dão respaldo às relações diplomáticas entre os países, como a ministra Tereza Cristina [Agricultura].”

Em que pesem rusgas recentes, a China é desde 2009 o maior parceiro comercial do Brasil, fato que reflete o aumento da importância geopolítica do país na virada do milênio e gera mudanças no perfil migratório.

“É interessante ver as migrações contemporâneas nas formas de ocupação do espaço da cidade. No caso dos chineses, vai do comércio popular aos grandes comércios, das igrejas à celebração do Ano-Novo chinês e às escolas voltadas para migrantes recém-chegados, entre outros”, diz Tatiana Chang Waldman, pesquisadora de migrações e descendente de chineses.

Essas diferentes atividades refletem a diversidade da própria comunidade chinesa, algo que passa ao largo da percepção do brasileiro. Vindos de Taiwan, Hong Kong ou de várias partes da China continental, ao longo do século 20, os fluxos migratórios tiveram motivações e perfis também diferentes.

Cheung Ka Wai, 38, por exemplo, nasceu em Hong Kong e veio para o Brasil aos cinco anos, no final da década de 1980. Sua família tinha receio do que poderia acontecer com a devolução da cidade para os chineses após anos de domínio inglês, o que ocorreu em 1997.

Ele mantém contato com parentes na China e tenta visitá-los a cada dois anos. A pandemia postergou os planos de 2020.

Cheung (o sobrenome vem antes do prenome na tradição chinesa) fala mandarim, cantonês (idioma do sul da China) e o dialeto chaozhou, usado no vilarejo de seus avós. Alguns de seus tios já moravam no Brasil quando a família chegou, e a dificuldade com o idioma é uma das razões apontadas por ele para que muitos imigrantes busquem locais onde já existe uma comunidade chinesa estabelecida.

Cheung Ka Wai, 38, que imigrou para o Brasil aos 5 anos
Cheung Ka Wai, 38, que migrou para o Brasil aos 5 anos - Danilo Verpa/Folhapress

Analista financeiro, ele foi eleito um dos conselheiros imigrantes voluntários do Conselho Municipal Participativo em São Paulo, em 2014. Atuante em grupos de jovens desde os anos 2000, ele participou da organização do primeiro Ano-Novo chinês em São Paulo, em 2006.

O período que vai da década de 1930 à de 1970 foi marcado por grande instabilidade política na China. A guerra civil entre nacionalistas e comunistas, a Segunda Guerra Mundial e ocupação japonesa, e, depois, a Revolução Cultural, foram acontecimentos que dispuseram muitos chineses a emigrar.

Foi o caso da família do tio de Waldman, Rubens Chang Chung Lin, 78, que veio para o Brasil em 1950, aos oito anos.

Primogênito com quatro irmãs, ele e a família foram de Nanchang, na China continental, para Hong Kong, e então migraram para o Brasil, onde seu pai pretendia instalar uma pequena fábrica de papel. “Mudávamos muito de região, por causa da guerra civil. Não consegui estudar lá”, conta.

Depois de um tempo no Paraná e na Paraíba, a família assentou de vez em São Paulo, onde Chang estudou engenharia. Diferentemente da família de Cheung, a dele veio sem conhecer chineses por aqui.

“Quando decidimos vir, minha família comprou um monte de livro sobre o Brasil. Mas eram livros de viagens e, quando chegamos ao Paraná, não tinha nada a ver”, conta Chang. “Mas tenho excelentes memórias da minha infância no Brasil.”

“Sou mais brasileiro que chinês”, diz Chang, que vai completar 70 anos no Brasil. Ele não conseguiu, no entanto, incorporar seu nome de batismo católico brasileiro aos documentos. “Qualquer mudança nesse sentido é complicada, porque é tudo baseado na minha documentação de entrada no país.”

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