Mesmo entre grupos religiosos, não há consenso em torno do aborto

Enquanto uns o veem como 'crime hediondo', outros chamam de 'pretensos cristãos' os que condenam casos como da menina do ES

São Paulo

De joelhos, católicos e evangélicos oravam no domingo (16) em frente ao hospital no Recife onde uma menina de dez anos faria um aborto após ser estuprada pelo tio.

Eles pediam que ela desistisse de dar cabo à gravidez. Também tentaram invadir a unidade na marra, aos gritos de "assassinos" e "lugar do demônio". O procedimento, dizem, vai contra o conceito sacralizado da vida, que começaria já na fecundação.

Não há, porém, consenso entre os cristãos quando o assunto é aborto.

Hospital onde menina de dez anos realizou aborto, no Recife (PE), foi palco de protesto contra e a favor do procedimento - Filipe Jordão/JC Imagem

A ideia de que a interrupção não é aceitável em nenhum momento da gestação, defendida pelos que se postaram diante do hospital, é ecoada pelo presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), dom Walmor Oliveira de Azevedo.

O arcebispo classificou a interrupção legal da gravidez da menina capixaba é um "crime hediondo".

Walmor foi eleito para presidir a CNBB há pouco mais de um ano e a sua chegada ao cargo foi apoiada por simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) como uma gestão mais voltada à ala conservadora da Igreja Católica.

O arcebispo de Olinda e Recife, dom Antonio Fernando Saburido, foi na mesma toada. "O lamentável caso da criança de São Mateus, município situado a 240 km de Vitória, terminou com a morte da menina de cinco meses." ​

Silas Malafaia, pastor pentecostal líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, diz ver a questão do aborto à luz da ciência e da "palavra de Deus, que está acima de tudo e de todos".

"Quando está em jogo a vida da mãe, se faz uma escolha pelo ser social. Se alguém tem que morrer seria a mãe ou o pequeno bebê? Se escolhe a mãe pra viver e o pequeno bebê pra morrer. Que mundo é esse? Que doideira é essa?", afirmou, em vídeo publicado nas redes sociais.

Ele chama os pastores contrários a essa interpretação de "omissos e moderninhos". "Pior que o estupro é o assassinato de um ser indefeso. O desgraçado assassino do juiz que tinha que estar na cadeia".

​A deputada estadual Clarissa Tércio (PSC-PE) foi uma das parlamentares que estiveram em frente ao Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), no Recife, para tentar impedir a realização do aborto.

Nas redes sociais, ela xingou o diretor do hospital, o obstetra Olimpio Moraes, que não realiza mais pessoalmente os procedimentos.

"Assassino é o médico abortista excomungado por duas vezes, que tem um histórico sanguinário de morte de inocentes. A menina de dez anos é vítima. Ninguém e muito menos eu chamou a menina de assassina em frente ao hospital", disse ela, que é evangélica.

O pastor Pedrão evoca o “não matarás” para explicar por que a Bíblia e ele são contra o aborto. Mas diz respeitar a decisão, que é “personalíssima”.

“Só a pessoa que foi violentada por quatro anos por um parente pode definir. Não estou carregando no meu ventre o fruto de um estupro. E não é minha filha. É fácil carregar a bandeira do moralismo porque não é com você”, afirmou.

Ele é batista, mas não da ala progressista —foi ele quem celebrou o casamento de Eduardo Bolsonaro.

Também batista, o pastor e escritor Henrique Vieira criticou os "extremistas" que pressionaram a família da menina capixaba. "Não há preocupação genuína com a vida, não há sensibilidade diante do sofrimento dessa menina e até mesmo com o risco que ela sofre."

Para ele, a criminalização do aborto não diminui o número de procedimentos, culpabiliza as mulheres e provoca mortes, especialmente de mulheres pobres e negras.

"Infelizmente existe uma cultura religiosa e de leitura bíblica que naturaliza e estimula a violência contra as mulheres. Jesus defendeu a vida olhando para a vida. É preciso ouvir o que muitas mulheres cristãs têm a dizer", afirmou.

Outros grupos também são enfáticos em defender a legislação brasileira, que permite o aborto em três casos —estupro, risco de morte materna e feto anencéfalo—, e em criticar o fundamentalismo.

O grupo Católicas pelo Direito de Decidir chamou de "pretensos cristãos" os que "aprofundam as dores de uma criança, em total discordância com os ensinamentos de Cristo e do Evangelho".

"O aborto é uma consequência de um problema anterior, que é o estupro. Urgente é a gente discutir a cultura do estupro nas igrejas. Isso sim é pecado", afirma a católica Tabata Tesser, parte do grupo.

Pecado, diz, "é mulher morrer por causa de um aborto clandestino". "Decidir sobre os nossos corpos e é um direito sagrado. Defendemos a vida, mas a vida das mulheres, e somos contra essa teologia policialesca."

Ela também rebate a fala do presidente da CNBB: "Se existe algum crime hediondo é o de alto índice de estupros no Brasil, um debate muitas vezes silenciado pela Igreja".

A Frente de Evangélicos para Estado de Direito condenou o que chamou de "oportunismo". "Cobramos que os envolvidos nesse episódio sejam investigados e, em caso de crimes, punidos", afirmou.

"Com seus gritos [os religiosos] perturbaram mulheres grávidas em um momento de alta fragilidade e culparam uma criança, sem maturidade fisiológica e emocional. Em nenhum momento os gritos se voltaram contra o estuprador. Em nenhum momento se apiedaram dessa criança, há tanto tempo violentada no corpo e na alma", disse em nota a frente.

O grupo defende a Igreja como local de conforto, e não de julgamento. "Os que escolheram jogar pedras estão indo contra a palavra de Deus, pois atacam uma criança ao invés de acolher, como fez nosso mestre."

As Evangélicas Pela Igualdade de Gênero têm posicionamento semelhante. Para elas, seria uma "violação ainda maior" a interrupção da gestação não ocorrer. Frisam ainda os riscos para meninas menores de 14 anos de seguirem com uma gestação.

"Gravidez infantil é tortura. Significa a negação de muitos direitos e a interrupção de um futuro, expondo a criança a muitas outras formas de vulnerabilidade", disseram em nota. Para elas, a vida que estava em jogo era a da criança, não a do feto. "Não há que se falar em religião ou moralidade."

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