Coroinha é torturado e morto em novo caso de rixa de facções no Ceará

Em carta, papa Francisco se solidariza pela morte de adolescente assassinado em agosto

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Ideídes Guedes
Fortaleza

As velas eram acesas, quarenta minutos antes, todas as sextas-feiras e domingos, na paróquia São Pedro, em Barra do Ceará, periferia de Fortaleza. Jefferson Brito Teixeira, 14, chegava cedo ao local onde frei João Flores, 66, celebrava a missa. A pandemia do novo coronavírus havia paralisado esse ritual por cinco meses.

No último dia 18, ao ser confundido com um membro de facção criminosa, Jefferson foi morto com brutalidade por criminosos, em mais um caso da escalada de violência entre facções no Ceará. "Impotência é o sentimento que fica, após esse crime bárbaro contra um menino carinhoso e querido por toda a comunidade”, disse o padre.

A notícia do assassinato de Jefferson chegou ao Vaticano, por meio de carta enviada por Kilbert Amorim Naciel, integrante da paróquia. Em resposta, o papa Francisco enviou uma mensagem de pesar.

"Dói-me muito o que contas sobre Jefferson. Estou próximo de ti e rezo por ti, pela comunidade paroquial de São Pedro da Barra do Ceará. Rezo pelo eterno descanso do Jefferson e também rezo pela avó que ficou sozinha. Que Deus tenha misericórdia dos assassinos. Por favor, não te esqueças de rezar por mim e te peço que digas à avó de Jefferson que estou muito próximo a ela. Que Jesus te abençoe e a Virgem Santa cuide de ti. Fraternalmente, Francisco."

Jefferson voltava da aula de capoeira, no fim da tarde, quando foi linchado e teve o corpo vilipendiado. Segundo informações coletadas pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que investiga o caso, o coroinha, que não tem antecedentes criminais, pode ter sido confundido com um rival porque apresentava três cortes na sobrancelha, como teria o real alvo.

Ele foi morto com chutes, pauladas, pedradas e tiros de arma de fogo, no entroncamento de três ruas, limitadas por facções.

“Muito triste ver uma criança perder a vida assim, do nada. Foi muita maldade o que fizeram com esse menino, que não fazia mal a ninguém. Vi ele crescer. Era sempre atencioso com a avó, um servo de Deus. Era como um filho pra mim. Só me resta o consolo celestial”, contou uma vizinha, que pediu anonimato por temer represália.

O adolescente foi sepultado em um cemitério público da cidade, com as vestes de coroinha, como atuou por dois anos. O gesto serviu de homenagem ao avô, que o garoto chamava de "pai", um dos principais membros da igreja, que faleceu em 2018.

No dia 23, três suspeitos foram presos por participar do assassinato do adolescente. Dois deles tinham sido detidos, um dia antes da morte de Jefferson, por guardas municipais por outro motivo, suspeita de tráfico de drogas, mas liberados mediante uso de tornozeleira eletrônica.

Pelas investigações, o sinal da tornozeleira eletrônica indicou que eles estavam no local e hora da morte de Jefferson. Segundo a polícia, porém, os dois negaram estar no local do crime.

Ainda segundo a polícia, o outro detido admitiu ter espancado o adolescente, porque ele era de facção rival e estaria roubando. A reportagem não conseguiu localizar a defesa dos três suspeitos, que seguem presos.

A morte de Jefferson põe em evidência a violência na disputa de território pelo tráfico de drogas no Ceará. Em junho, em um episódio de demonstração de força, criminosos usaram fogos para marcar posição na disputa pela venda da droga.

O estado convive com as disputas de quatro facções por territórios e tráfico de drogas: Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro; Família do Norte (FDN), do Amazonas; Guardiões do Estado (GDE), grupo criminoso local; e o PCC de São Paulo —o grupo paulista foi nesta semana alvo de operação policial em diversos estados para desmantelar a hierarquia de comando.

“Não podemos chamar o policiamento para fazer a segurança dos festejos da igreja, porque a facção não deixa. Uma rua é comandada pela CV e a outra pela GDE. Ficamos no meio dessa guerra sem fim”, disse um dos frequentadores da paróquia, Otávio Mota (nome fictício).

A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social registrou, nos primeiros sete meses do ano, 2.540 crimes violentos no Ceará. O número já é maior que o contabilizado em 2019, que teve 2.257. Até julho de 2020, os homicídios no estado mais que dobraram no período e já representam 112,54% de todas as ocorrências durante o ano anterior.

“Houve uma redefinição do crime, principalmente, porque o comércio de drogas foi afetado durante a pandemia. Assim, as facções estão buscando novas formas de mercado para sobrevivência. Os pactos foram quebrados neste ano, tornando-se uma gangorra que facilita o aumento da violência”, diz o sociólogo César Barreira, coordenador do Laboratório de Estudos da Violência da UFC (Universidade Federal do Ceará).

Reprodução de uma carta
Reprodução de carta escrita pelo papa Francisco a avó de coroinha de 14 anos morto brutalmente na periferia de Fortaleza, em rixa de facções criminosas. - Reprodução

Jefferson foi uma das 365 vítimas de morte violenta, com idade entre zero e 18 anos, neste ano no Ceará, de acordo com o monitoramento do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca) —um acréscimo de 97 em relação a 2019. Em comparação por sexo, 125 eram meninos e 40 meninas, um salto de 152,85% e 100%, respectivamente.

A região da Barra do Ceará, onde o coroinha foi assassinado, teve o maior acréscimo em letalidade nessa faixa etária em Fortaleza. Foram 11 crianças e adolescentes mortos somente no primeiro semestre, ante 4 ao longo de todo o ano passado.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social diz que o indicador de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) de julho deste ano alcançou o melhor resultado desde janeiro de 2020. "O resultado de julho demonstra que o Estado vem reorganizando suas atuações de mês a mês, após o trabalho das forças de segurança ser impactado pelo motim de parte de policiais militares em fevereiro deste ano, além da tendência nacional de aumento nos crimes contra a vida".

A SSPDS reforçou que o trabalho das polícias Civil e Militar já resultou em 8.858 prisões, com 3.385 armas de fogos apreendidas apenas em 2020. Além disso, 32 territórios de Fortaleza e região metropolitana contam com o trabalho do Programa de Proteção Territorial e Gestão de Riscos (Proteger).

"Com a integração entre a Prefeitura e Estado, Polícia e demais instituições, as ações ocorrem no intuito de melhorar a situação dos microterritórios no município. A presença permanente da Polícia nos territórios neutraliza a ação de grupos criminosos e constrói uma relação de confiança junto aos moradores".

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