Descrição de chapéu Coronavírus

Ex-embalador de malas dribla desemprego com apresentações pelas ruas de São Paulo

Adriano Ricardo perdeu fontes de renda por causa da pandemia do coronavírus

São Paulo

Há pouco mais de dois meses, as ruas da cidade de São Paulo viraram palco para o cantor Adriano Ricardo da Silva, 43.

Nascido em Jequié, na Bahia, começou a trabalhar vendendo doces e sorvetes aos nove anos, quando chegou a Carapicuíba (Grande SP), onde mora com a esposa Arianne Keyty de Almeida da Silva, 30, e três filhos, de 3, 5 e 8 anos.

“Eu sempre tive um diferencial: não vendia meu chocolate me fazendo de vítima. Eu dizia às pessoas que cantaria uma música e se desafinasse não pagaria pelo produto. Assim, eu conquistava os clientes”, conta.

Antes da pandemia do coronavírus, Adriano era ambulante no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Trabalhava há 20 anos no local. Começou vendendo doces e souvenirs e, nos últimos oito anos, embalava malas. Eventualmente, se apresentava em bares à noite.

O cantor Adriano Ricardo canta pelas ruas do bairro do Paraíso (zona sul). Por causa da pandemia de Covid-19, ele perdeu o trabalho como ambulante, no Aeroporto Internacional de São Paulo, onde embalava malas, e os bicos como cantor em bares noturnos
O cantor Adriano Ricardo canta pelas ruas do bairro do Paraíso (zona sul). Por causa da pandemia de Covid-19, ele perdeu o trabalho como ambulante, no Aeroporto Internacional de São Paulo, onde embalava malas, e os bicos como cantor em bares noturnos - Marlene Bergamo - 09.set.2020/Folhapress

A atividade no aeroporto lhe rendia de R$ 400 a R$ 600 por dia, mas, nos últimos tempos, a troca da equipe de segurança dificultou o trabalho e esse valor caiu para R$ 300.

Com a pandemia e a quarentena, Silva perdeu as duas fontes de renda. Só restou o auxílio emergencial. Chegou à situação extrema de não ter como comprar gás.

Neste dia, veio a ideia: a lembrança de quando morou na Espanha, em 2006, e se apresentou nas ruas para ganhar um dinheiro extra. “Se o povo espanhol colaborou comigo, o brasileiro também vai me apoiar. Então, lembrei dessa fase da minha vida e criei o projeto Cantando nas Ruas de São Paulo.”

Pelo menos seis dias por semana, Silva deixa sua casa às 10h, após ajudar a esposa e arrumar as crianças, rumo a um bairro previamente escolhido. Geralmente, são locais de classe média e alta.

Enquanto caminha e canta ao microfone, Silva carrega uma mochila com pertences pessoais, celular, caixa de som e uma placa com os dizeres: “Devido à pandemia, estou cantando aqui. Conto com a sua colaboração". Ao final, divulga o Instagram @adrianoricardooficial. "Tem morador que me vê cantando e prefere usar o Instagram para pedir a minha conta bancária e fazer a doação", explica.

A voz afinada e firme e o sorriso no rosto chamam a atenção. O trabalho é cansativo e Silva só volta para a casa à noite. Na quarta-feira (9), a Folha o acompanhou pelas ruas do Paraíso (zona sul).

Entre meio-dia e 16h30, foram arrecadados R$ 286. A gerente de um salão de beleza na rua Rafael de Barros fez questão de contribuir, mesmo com os prejuízos que teve com a pandemia. “Com um comércio desse tamanho só tenho uma cliente agora, mas resolvi ajudar porque vi o esforço dele e quero incentivá-lo para que continue. O brasileiro é muito criativo e cada um tem que fazer o que pode para sobreviver”, afirma Eliane Mokotaka, 49.

“O que muda as pessoas são as boas ações. Precisamos de empatia, igualdade e ajudar uns aos outros”, diz Vanessa Marques, 21, estudante de direito, que também contribuiu.

Na foto, a estudante de direito Vanessa Marques, 21, aborda Adriano Ricardo e fez a doação
Na foto, a estudante de direito Vanessa Marques, 21, aborda Adriano Ricardo e fez a doação - Marlene Bergamo

Silva está pelas ruas há pouco mais de dois meses. No período, juntou R$ 5.000 para quitar uma dívida sem prejudicar o gasto com a família, que é de R$ 3.000, em média.

A primeira doação, em Osasco (Grande SP), foi de R$ 237. No dia que menos recebeu, a contribuição foi de R$ 100 e o melhor pagamento de R$ 1.000, quando um homem na avenida Angélica, em Higienópolis (centro), pediu que cantasse uma música para sua esposa.

A cantoria agrada a maior parte das pessoas. “A cada 10, 9 gostam, mas já teve gente que ameaçou quebrar a minha caixa [de som] e dar murro na minha cara. Estou me arriscando. Eu não queria estar na rua, mas tenho uma família para cuidar e é o meu bem mais precioso. Peço a Deus todos os dias para me proteger contra esse vírus. Se algum dia eu puder ajudar e abençoar outras vidas eu também vou fazer”, diz.

Para o engenheiro Álvaro Silva, 75, o mundo precisa ser mais verdadeiro e melhor. “Por que a gente resolve ajudar as pessoas? Tem que ajudar. Vamos fazer um mundo melhor, né? A gente já tem muita sorte, não é verdade? Nascemos num lugar especial, tivemos uma educação especial, família. Tem muita gente no mundo mais complicada que nós.”

Na quinta (10), o trajeto entre a estação Cidade Universitária, na Linha 9-Esmeralda da CPTM, e a avenida Pompeia (zona oeste) rendeu ao artista R$ 800.

No repertório estão 45 músicas, entre sertanejas e sucessos do Fábio Jr., Alexandre Pires, Jota Quest, Roupa Nova e Rita Lee.

Em média, Silva canta 20 músicas por dia. As preferidas, como “Evidências”, de Chitãozinho & Xororó, “Não Aprendi a Dizer Adeus”, da dupla Leandro & Leonardo, e a sua autoral, “Pra te Dizer”, são interpretadas mais de uma vez.

O sonho de Silva é lançar sua música em um programa de TV. “Hoje eu posso dizer que vivo de música e isso é muito gratificante. O meu objetivo é seguir com ela.”

Silva tem um EP gravado com seis canções e outro em produção, interrompida pela pandemia. “A pandemia veio para mudar a história de muitas pessoas e uma delas sou eu.”

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