No interior de SP, cestas básicas para alunos estão vindo sem arroz

Prefeitura de Campinas diz que distribuidora contratada quis cobrar mais caro pelo produto

Felipe Pereira
Campinas

Quando Isabele Fernanda de Souza, 24, recebeu a cesta básica, apenas um pensamento lhe veio à cabeça: "Como vou fazer para alimentar meus filhos?".

Na cesta, encaminhada a alunos da rede municipal de ensino de Campinas (99 km de São Paulo) que não estão frequentando as escolas devido à pandemia do coronavírus, faltava um item prioritário: o arroz.

Ela é operadora de telemarketing e está desempregada. Com dois filhos em centros de educação infantil no bairro Parque Floresta, distrito do Campo Grande, ela achou que a falta do item era fruto de um erro.

"Não acreditei na hora que peguei a cesta e vi que não tinha o arroz. É um item básico, por isso que chama 'cesta básica'."

Mas não havia nada de errado, ao menos na distribuição. As cerca de 40 mil cestas básicas entregues às famílias dos alunos da rede municipal no mês de setembro vieram sem arroz.

Para compensar, a empresa responsável pela montagem dos kits, a DZ7 Comércio Eireli, colocou a mais na cesta um pacote de 500g de macarrão, um quilo de feijão e um pacote de bolacha. A administração reforçou com mais um quilo de carne e dois litros de suco de uva de caixinha.

Outra mãe, que não quis ser identificada, frisa que um pacote de macarrão e um quilo de carne não são equivalentes a cinco quilos de arroz; é pouco, resume ela, que vive na região do Jardim Bassoli, também no distrito do Campo Grande, e tem um filho na creche do mesmo bairro.

Ela lista o que veio na cesta deste mês: um quilo de açúcar; dois pacotes de 200 g de biscoito maisena; um de biscoito água e sal, também com 200 g; uma embalagem de 250 g de café; três quilos de feijão; quatro pacotes de macarrão (totalizando dois quilos); dois sachês de molho de tomate; 900ml de óleo e um quilo de sal, além da carne, do suco, e da cesta de hortifrúti.

A cesta do mês de setembro para alunos em situação de pobreza de Campinas; foto mostra a lista afixada do lado de fora da caixa, mostrando a falta do arroz
A cesta do mês de setembro para alunos em situação de pobreza de Campinas - Arquivo Pessoal

"O arroz faz muita falta. Está complicado dizer para as crianças que não veio o arroz, e que elas têm que comer mais bolacha e macarrão", afirma Isabele Fernanda de Souza. "Eu só tenho arroz no meu armário porque minha mãe ajudou a comprar. Meu auxílio foi reduzido, mas minhas crianças não deixam de comer por causa disso."

A distribuição das cestas começou no mês de abril. Segundo a prefeitura, recebem as famílias dos estudantes que vivem em situação de pobreza e extrema pobreza, com renda per capita de até R$ 178.

Além dos itens básicos, a administração entrega um segundo conjunto com itens de hortifrúti, que seriam consumidos na escola, se houvesse atividades presenciais. Este não tem relação com o contrato da cesta básica.

À Folha a prefeitura diz que o valor pago para a empresa é fixo, de R$ 59 por kit, e que a DZ7 pediu aumento de R$ 10,75 para compensar a alta no preço do arroz, o que foi negado pelo município.

"Quem fornece cesta básica a uma prefeitura está sujeito a essa variação de preço, e, ainda assim, deve assumir o risco e cumprir com o que está previsto em contrato", afirma o prefeito Jonas Donizette (PSB).

Sanções estão previstas, diz o prefeito, caso a empresa persista em não entregar a cesta conforme contratado. Uma delas é a redução do valor pago por cesta —apenas R$ 43,49 serão repassados, já que um dos itens não foi entregue.

A reportagem tentou contato com a DZ7, mas a empresa não se manifestou até a conclusão deste texto.

A nutricionista Fernanda Giácomo afirma que a troca do arroz pelo macarrão, em si, não representa uma perda em nutrientes, mas questiona a quantidade envolvida na troca e as demais substituições. "A carne é uma proteína, não compete com o arroz. O suco de uva de caixinha tem muito açúcar, não é saudável".

Segundo a especialista, a combinação "arroz e feijão" garante uma entrega de aminoácidos essenciais em boa quantidade, que se transformam em algo positivo para o corpo —ainda mais para crianças, que estão em fase de desenvolvimento.

"Macarrão com feijão, macarrão com arroz não têm o mesmo efeito. Até tem uma fonte de carboidratos, mas insuficientes, ainda mais se levarmos em conta o restante da alimentação dessas crianças", completa.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.