'Blindadas', 16 cidades permanecem como as únicas sem Covid-19 no Brasil

Maioria está em MG; municípios somam 0,04% da população e usam polícia e alerta de médico para se proteger

Porto Alegre

A fumaça dos churrascos dominicais podia ser vista quando, de dentro das suas casas, os moradores da pequena Cerro Branco, na região central do Rio Grande do Sul, escutaram a voz do “médico da cidade” ampliada em um carro de som.

“Aqui quem fala é o doutor Ilceo. Estamos vivendo uma situação muito difícil, de extrema gravidade, onde toda a população corre riscos”, dizia a mensagem. “Insisto: Fiquem em casa. Protejam-se”, alertava o médico Ilceo Carlos Mergen, desde 1977 atendendo aos moradores, na gravação.

A voz familiar à maioria dos 4.681 habitantes da cidadezinha foi uma das ações adotadas para evitar o novo coronavírus. A cidade está há seis meses sem nenhum caso de Covid-19.

Cerro Branco é uma das 16 cidades brasileiras sem a doença segundo dados do Ministério da Saúde até 13 de setembro. Juntas elas somam 74.886 habitantes, menos de 1% da população do país.

“Conheço todo mundo. Trabalhei no posto de saúde por mais de 30 anos. As pessoas escutaram e levaram a sério. Teve efeito, sim”, diz o médico sobre o carro de som.

A ideia da gravação foi do prefeito Jorge Luiz Hoffmann (PDT). “Somos insistentes. As cidades em volta foram afetadas pela doença e seguimos intactos. De início tivemos dificuldade em conscientizar os aposentados, aqueles da terceira idade, que frequentam os encontros de jogo de carta. Mas o pessoal obedece”, diz Hoffmann.

A gravação foi feita em março, no início da pandemia. Em um domingo, o estúdio da rádio comunitária da cidade foi aberto exclusivamente para a operação. “Gravamos a chamada de manhã para já ser divulgada ao meio-dia, quando o pessoal estava fazendo o churrasquinho”, relembra o radialista Marcos Haetinger.

Na divisa com o Uruguai, a gaúcha Aceguá também não registrou nenhum caso positivo de Covid-19. Com apenas um fiscal sanitário, a prefeitura conta com o reforço de voluntários de outras áreas que ajudam na fiscalização do cumprimento das normas.

O Exército brasileiro montou uma barreira no lado brasileiro e o Exército uruguaio é responsável pela fiscalização do outro lado da fronteira. Apenas uma rua divide Brasil e Uruguai. Assim como o município gaúcho, a cidade uruguaia também é chamada de Aceguá.

Porém, além da vigilância das autoridades, a Aceguá brasileira conta com um ajuda do elemento demográfico: são apenas 2,8 habitantes por km². São Paulo, por exemplo, tem uma densidade demográfica de 7.387 habitantes por km², segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

“Temos uma peculiaridade que é 75% da população vivendo na zona rural. Por isso, existe um maior distanciamento entre as casas das famílias e consequentemente entre as pessoas. No campo, o convívio é menor do que na área urbana”, explica o vice-prefeito, Júlio César de Godoy Monteiro (PSDB).

A cidade gaúcha mais próxima de Aceguá, a 60 km, é Bagé. Na “Rainha da Fronteira”, como é conhecida Bagé, são 786 casos confirmados de Covid-19, segundo a Secretaria Estadual de Saúde. O presidente Jair Bolsonaro esteve em Bagé em julho, onde causou aglomeração. “Tem medo do quê? Enfrenta”, disse Bolsonaro na ocasião.

O estado que possui mais cidades sem casos de Covid-19 é Minas Gerais. São 11 dos 16 municípios sem caso no país. Um deles é São Tomé das Letras, com ​7.089 habitantes. Com vocação turística, a cidade está há seis meses fechada para visitantes.

“Por ser um local que recebe muitos turistas de São Paulo e Rio de Janeiro, onde há muitos casos de coronavírus, os moradores foram entendendo a necessidade de fechar a cidade e abraçaram a causa”, diz Tomé Reis Alvarenga (MDB), vice-prefeito.

Em Novo Horizonte, cidade baiana na Chapada Diamantina, a confirmação da pandemia mundial assustou moradores e autoridades. “Por causa do garimpo de quartzo rutilado, recebemos muitos chineses compradores. Chegamos a pensar que seríamos uma das primeiras cidades com coronavírus no país”, conta o secretário da Saúde, Ailton Alexandre do Nascimento.

Entretanto, passados seis meses, Novo Horizonte não registrou casos da doença. “As medidas que tomamos não diferencia das outras cidades. Mas intensificamos, são três barreiras sanitárias e quarentena de 20 dias para quem chega de fora da cidade”, explica Nascimento.

O diferencial do município baiano, diz o secretário, está na cooperação dos moradores. “Todo mundo se conhece e acaba agindo como um agente de saúde. Se tem alguém estranho, se alguém não usa máscara, eles nos avisam”, diz o secretário.

Se mesmo com o alerta da autoridade de saúde local, alguém insiste em ficar sem máscara ou aglomerado, a prefeitura conta com ajuda da Polícia Militar. Com ​12.385 habitantes, há apenas um automóvel e quatro policiais. Por isso, a solução encontrada foi a chamada de vídeo.

“Pedimos para o policial fazer uma chamada de vídeo para quem infringe o decreto ou para um parente que esteja próximo. É raro precisar. Mas quando chega nesse ponto, resolve. O policial telefona e diz que chegou a informação sobre a situação e pede para não fazer mais. É desse jeito, super educado”, conta.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.