'A vida das famílias foi atropelada há cinco anos', diz Ailton Krenak sobre desastre no rio Doce

Aldeia onde escritor e líder indígena vive foi um dos territórios atingidos pelo rompimento da Samarco

Belo Horizonte
Ailton Krenak
Ailton Krenak em BH, depois de meses isolado na aldeia krenak, no médio rio Doce, devido a pandemia do novo coronavírus - Joaquim Lima

Nenhuma criança nascida nos últimos cinco anos no território Krenak, em Minas Gerais, pôde passar pelo ritual de ser mergulhada nas águas do Watu, por volta do primeiro mês de vida, para garantir imunidade, seguindo a tradição do seu povo. Watu é como os Krenak se referem ao rio Doce, atingido pelo rompimento de uma barragem de rejeitos da Samarco em 2015, com um saldo de 19 mortos.

Para os Krenak, o rio é um ancestral, um avô, em um sentido que vai além da concepção familiar, porque ele é parente de todos, explica o escritor e ativista Ailton Krenak. Desde o rompimento, os rituais no Watu pararam, uma cerca passou a separar o rio da aldeia e a água usada é fornecida por caminhões pipa.

Segundo a Fundação Renova, criada para ações de reparação, em Resplendor (MG), onde está o território Krenak, 600 pessoas são abastecidas com água mineral –ao todo, 1.587 titulares de comunidades indígenas estão no escopo de atuação da entidade. O rompimento provocou danos em uma extensão de 663 km.

Fora da terra indígena, onde se isolou por causa da pandemia do novo coronavírus, pela primeira vez desde março, ele conversou com a Folha sobre os danos causados pelo maior desastre ambiental do país ao seu povo:

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Passados cinco anos do rompimento da barragem de Fundão, como está a vida no território Krenak em Resplendor (MG)?

A vida das famílias foi atropelada há cinco anos. Foi um evento muito violento. As pessoas idosas adoeceram e alguns, ao longo do primeiro ano, morreram. Não porque a lama acertou a casa deles, mas acertou a sua ideia de lugar. Uma pessoa que sempre foi minha orientadora, a mãe da minha mulher, sofreu um choque tão grande que, nas primeiras semanas depois que a lama atravessou o fundo da nossa terra, ela perdeu a voz.

Ficou de cama, triste, sem motivo para viver. Ela não entendeu o evento. Foi um sofrimento muito grande ver ela indo embora. Vai completar dois anos que ela morreu.

Não foi possível retomar nenhum ritual porque a qualidade da água não está muito diferente de cinco anos atrás.

O Ministério Público mandou a Vale instalar uma cerca, separando a vida cotidiana da aldeia do corpo do rio. Os animais estavam indo ao rio e morrendo. O MP também instituiu ações emergenciais, que incluem caminhões pipa todos os dias, levando água às casas dentro da reserva, e uma empresa fazendo fornecimento de água potável, diferente da do caminhão.

O ambiente interno da reserva virou uma espécie de rally das empreiteiras, com retroescavadeira, máquinas enormes. Por que esse tanto de obra? Porque o caminhão, que traz a água, não tem vias para circular na reserva. Ela está sendo transformada em condomínio. Estamos sendo urbanizados, o que é uma violência. Aquilo ali é uma reserva, não é um bairro.

Como era o sistema de água antes?

Antes, nossa água vinha do próprio Watu e de nascentes ou minas dentro do território, que não são suficientes para abastecer 130 famílias.

Ao longo do ano, tem período que tem água de dentro da reserva que pode suprir metade da demanda, mas depois, o resto do ano, não tem para ninguém. Foi por isso que o MP instituiu essa obrigatoriedade de que, enquanto a água do rio não for atestada para consumo, eles são obrigados a botar o caminhão com água.

E a vida no rio como está?

Sou muito observador, eu atravesso a cerca, vou com o celular, bem pertinho do curso d’água, fico observando as poças, se tem algum girino.

Mas, na contranarrativa de que o rio morreu, os Krenak dizem que o rio está em coma. O Watu aparece nos sonhos de muitas pessoas, e informa seu estado. Há uns três anos, ele começou a dar sinais de autorregeneração, de, que ele está se cuidando.

Que tipo de sinais?

O mais significativo é mostrar que ele tem um subterrâneo, um aquífero, acompanhando como uma segunda vida. De vez em quando, ele pega em sonho alguém e mostra essa sub-bacia. Um alívio para quem achava que ele estava morto.

Em “O amanhã não está à venda” (Companhia das Letras, 2020), o senhor conta que foi procurado por engenheiros para sugerir como recuperar o rio Doce. À sua sugestão, de parar as atividades humanas a 100 km das margens, eles responderam que era impossível. Continua achando que é a única viável?

Isso foi logo nos primeiros meses, quando havia debates públicos. Eu acho, porque isso tem uma relação com tempo. O rio precisa de tempo, os ciclos da natureza precisam de tempo. O Pantanal, que queimou agora, se você não fizer nada e deixar ele quieto, em dez anos, a vegetação vai voltar. Se contratar empreiteiras para fuçar, é bem capaz de estender esse dano por mais 30 anos.

Em “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” (2019), o sr. fala sobre ter que justificar para a Unesco (o braço de história e cultura da ONU), na discussão da criação da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, por que era importante que o planeta não fosse devorado pela mineração. É uma questão na sua vida?

O tempo todo. Para os krenak, a mineração é uma questão desde que foi feita a ferrovia em 1927. O inferno foi instalado com a passagem da ferrovia e continua até agora. [O rompimento] só ampliou a minha observação sobre como essa atividade é insustentável.

O sr. teve papel importante na redação da parte sobre direitos indígenas na Constituição de 1988 e um discurso histórico no Congresso Nacional. Esses direitos foram cumpridos?

Os direitos ficaram escritos na Constituição; a implementação deles não era mais um gesto político, mas administrativo. A gente conseguiu cumprir uma parte ao longo da década de 1990. Quando virou a década já tinha tanto golpe, tanta malandragem, que a questão da mineração [em terras indígenas] voltou agora.

Protocolos que tinham que ser cumpridos foram sendo ignorados, até chegar a hora em que estão propondo medida provisória para estabelecer como vai ser a mineração em terra indígena. Um assalto. É o pior período da nossa relação com o Estado.

Na época do regime militar, o território Krenak em Minas teve o Reformatório Krenak, um presídio para onde foram levados indígenas de mais de 15 etnias, de ao menos 11 estados, segundo o Ministério Público Federal. Como foi essa época para o sr.?

Esse período foi quando todas as famílias Krenak foram enxotadas do território. Ao longo de mais de 20 anos, essas famílias perambularam por Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Espírito Santo. Em SP, tem a [terra indígena] Vanuire, onde metade da população é krenak, exilados daqui. A ideia era implodir a gente, dissolver a identidade para a gente não existir.

O sr. escreveu que a pandemia seria o momento de abandonar o antropocentrismo. Como estamos? 

Talvez tudo que a gente tenha aprendido seja aplicado ao passado. Esse é o problema. A máquina de produzir loucura está ativa produzindo futuro, um futuro distópico que pode ser sem nós.


RAIO-X

AILTON KRENAK, 67 Nascido na região do Vale do rio Doce, em Minas. Escritor e ativista do movimento socioambiental e de defesa dos direitos indígenas. Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG).

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