Descrição de chapéu Natal

Muito além de Aparecida, Nossas Senhoras acudiram de Lampião a Gonzagão

Livro conta história das várias representações de Maria que tomaram o Brasil

Rio de Janeiro

Luiz Gonzaga viajava pelo Rio de Janeiro, acompanhado do filho Gonzaguinha e de um músico anão que apelidou de Salário Mínimo, quando teve um acidente de carro. Achou que ia morrer. Fazer o quê?

“Neste momento horrível da minha vida, fiz quase em pensamento uma oração. Todos vão dizer que uma prece leva tempo. Conversa. A gente reza muito em frações de segundo", disse em entrevista à extinta revista Cruzeiro.

"Eu já havia encerrado a minha oração, e o carro ainda estava balançando, nos dois minutos que lá ficou, cai não cai. Foi quando lembrei e voltei à presença de Nossa Senhora.”

Imagem do livro "21 Nossas Senhoras que Inspiram o Brasil"; igreja em colina
Imagem do livro "21 Nossas Senhoras que Inspiram o Brasil" - Divulgação

Para milhões de brasileiros, é ato reflexo recorrer a Maria, mãe de Jesus, em momentos de sufoco e também de gratidão. A questão é: qual das versões de Nossa Senhora venerar?

Nesta segunda (12) é dia de Nossa Senhora Aparecida, instituída padroeira do Brasil em 1931, pelo pouco religioso Getúlio Vargas —que, em sua formatura na faculdade de direito, fustigou a moral cristã como "contrária à natureza humana".

Aparecida é só um entre tantos nomes pelos quais Maria é invocada por católicos. É a história das representações marianas mais populares no país que a jornalista Bell Kranz conta no recém-lançado "21 Nossas Senhoras que Inspiram o Brasil".

Gonzagão, por exemplo, pensou em apelar à de Nazaré —essa mesmo do Círio de Nazaré. Mas isso aí era coisa lá de Belém (PA), a mais de 3.000 km de onde se acidentara. “Vou rezar mesmo pra Virgem da Penha, que fica aqui perto e pode nos acudir", decidiu o Rei do Baião.

Nossa Senhora da Penha, no caso, ficava numa colina na Penha, na zona norte carioca. A igreja é conhecida por sua escadaria de 111 metros e 382 degraus, talhada toda em pedra nos anos 1810, à mão, por escravos —encomenda de uma senhora que pediu à Maria da Penha para engravidar, o que aconteceu.

Subir aquela escada virou pagação de promessa, e Gonzaga quitou a dele. Lá do alto cantou o "Baião da Penha", que começava assim: "Demonstrando a minha fé/ Eu vou subir a Penha a pé/ Pra fazer minha oração".

Até o século 17, a imagem de Maria mais popular na então colônia portuguesa era a Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Uma estátua dela veio na bagagem do primeiro governador-geral do Brasil, Tomé de Sousa, que desembarcou em 1549 na Bahia e ali mandou construir uma capela para a santa.

Um de seus devotos mais ardorosos foi o homem que aterrorizou o sertão nos anos 1920 e 1930. O cangaceiro Lampião, que se ajoelhava todos os dias para rezar e jejuava às sextas sem nem água tomar, acendia velas à Conceição.

"Lampião era profundamente místico e religioso. Acreditava em Deus, nos santos e na reza forte. [...] Se sentia um injustiçado e em Nossa Senhora da Conceição ele colocou a sua maior fé", afirma a autora.

A predileção nacional pela Virgem de Conceição começou a bambear em 1717, quando três pescadores acharam num rio uma estátua decapitada da Virgem Maria (a cabeça encontraram em seguida). Como apareceu, chamou-se Aparecida.

"Surgiu talvez da maneira sonhada pelo povo, ou pelo menos mais parecida com ele: uma Conceição mestiça. Nem índia, nem branca, mas de pele escura e feições de branca", diz Kranz. A pele escureceu pelo contato prolongado com lodo da água e, depois, pela fumaça das velas dos devotos.

Mas nem só de Aparecida é feita a veneração da virgem que gerou em seu ventre o filho de Deus, como creem os cristãos. Ainda hoje, muitos se apegam à Nossa Senhora da Boa Morte, culto mariano que existe desde os primeiros séculos do cristianismo.

"Morrer bem é o que os fiéis pedem a ela, protetora dos agonizantes, dos que estão com os dias contados: os doentes terminais", afirma Kranz.

Era à Boa Morte que os escravos condenados à morte chamavam a caminho da forca, na São Paulo do século 19. As execuções ocorriam onde hoje fica a praça da Liberdade, que na época atendia por outro nome: praça da Forca. Os sentenciados passavam em frente a uma igreja que, ironicamente, era conhecida como igreja "das boas notícias".

A Bíblia nada diz sobre como Maria morreu. Há, contudo, esta descrição numa obra apócrifa creditada a são João Evangelista, o apóstolo a quem Jesus, já crucificado, pediu que cuidasse de Maria como se fosse a própria mãe.

Diz o texto que, no dia em que um anjo lhe avisou que morreria, ela pediu que sua alma não visse "nenhum mau espírito" ao sair do corpo.

Os apóstolos, presentes para sua partida, "assistiram juntos à descida de Jesus ao encontro da mãe e à assunção da alma de Nossa Senhora aos céus", diz Kranz. "A alma de Maria aproximou-se do seu próprio corpo, o qual saiu intacto do túmulo e foi levado aos céus."

A veneração de santos continua viva no Brasil, mas cambaleia. No país, 38% veneram uma ou mais dessas figuras tidas como sacras para o catolicismo, segundo pesquisa Datafolha de 2017, quando católicos celebraram os 300 anos da descoberta de Nossa Senhora Aparecida nas águas do Paraíba do Sul.

Dez anos antes, metade dos brasileiros dizia o mesmo. A queda se explica em boa parte pela ascensão demográfica de evangélicos, que não acreditam em santos, e de pessoas sem filiação religiosa. Maria vai com os outros.


21 Nossas Senhoras que inspiram o Brasil

Bell Kranz
Editora Planeta
264 págs.
R$ 49,90

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