Tão urbanos quanto um paulistano, morcegos incomodam em dias de calor

Recomendação é nunca entrar em contato com o animal, que pode transmitir raiva para humanos

São Paulo

O sol ainda nem se pôs totalmente quando dois pequenos morcegos descem de uma árvore em um grande rasante sobre as cabeças na Barão de Limeira, 425. Enroscando-se um no outro, sobem, fazem uma pirueta, voltam a mergulhar juntos. Dançando no ar, parecem ser o casal mais apaixonado da região.

De quando em quando, morceguinhos menores se juntam a eles, seguindo as peripécias de seus pais.Olhando dessa forma, passar em frente ao prédio da Folha, no centro da cidade, parece até uma experiência romântica.

Morcego é visto em árvore na cidade de São Paulo
Morcego é visto em árvore na cidade de São Paulo - Marlene Bargamo/Folhapress

Não que o local seja algo assim como uma ponte parisiense, na qual casais dependuram seus cadeados como prova de devoção eterna. Mas não deixa de ser uma chance de observar o amor a dois, certo? Pode até ser, mas desde que não seja o amor dos mamíferos voadores. “Morcegos são poligâmicos”, explica o coordenador do Centro de Zoonoses da prefeitura, Werner Santos Garcia. “Dependendo da espécie, pode haver até disputa para acasalar.” Ou seja, se eles “amam”, não garantem exclusividade aos parceiros.

Vamos dizer que se apaixonam facilmente e podem ferir para concretizar esse amor. Tudo bem, quem somos nós, os humanos, para julgar o relacionamento das outras espécies, aladas ou terrestres? Melhor mesmo se concentrar no fato de que a presença desses quirópteros —ordem de mamíferos na qual os morcegos se encaixam— pode causar problemas ao resto dos moradores da cidade.

Com a chegada da primavera e do calor que vem atingindo São Paulo, ainda mais. Nessa época, eles ficam mais ativos, e as janelas, mais abertas. Para piorar, a fama desses bichos não melhorou em nada com a chegada da pandemia do novo coronavírus.

Uma das hipóteses é que o vírus tenha partido de uma espécie selvagem.Morcegos são animais sinotrópicos, vivem no mesmo espaço dos seres humanos, independentemente de nossa vontade. Na capital paulista, além dos 11 milhões de habitantes, há nada menos do que 43 espécies de morcegos plenamente adaptadas à vida urbana. Apenas duas delas são hematófagas, aquelas que se alimentam de sangue —e o dos humanos não é sua preferência.

As outras 41 comem frutas e pequenos insetos no cardápio diário. Mesmo assim, elas podem acabar causando transtornos, como acidentes, e disseminar doenças. Todas as espécies que voam pela cidade são capazes de transmitir raiva. O Centro de Controle de Zoonoses faz um trabalho de prevenção coletando morcegos nos parques da cidade para testar se têm raiva ou não.

Werner lembra que desde 1983 a cidade não registra nenhum caso da doença em humanos ou animais. “Hoje, os casos no país se concentram mais nas regiões Norte e Nordeste. Por isso não fazemos mais aquelas campanhas de vacinação de animais”, diz. Mas não só a raiva é uma ameaça. Se inalados em ambientes fechados, os fungos presentes nas fezes dos morcegos podem transmitir histoplasmose, que causa inflamação nos pulmões e outros órgãos e, eventualmente, pode levar à morte.

Outros problemas são os acidentes que ocorrem quando entram em contato com humanos. Em 2019, o número superou o do ano anterior —por um motivo muito particular.“Temos problemas com ‘montes [locais] de orações’ que existem dentro da cidade. Há um lugar na zona leste, em Cidade Tiradentes, ao qual alguns grupos costumam ir para rezar durante a noite. Muitas mulheres vão de saia e chinelo de dedo e os morcegos acabam mordendo no calcanhar”, diz Werner.

Neste ano, de janeiro a setembro foram 98 casos, queda em relação aos 175 no mesmo período do ano anterior. O diretor do centro de zoonoses faz um alerta. Nunca encoste em um morcego, vivo ou morto. Caso seja mordido, a recomendação é procurar um posto de saúde, ser avaliado por um médico e receber a vacina contra a raiva.

Há também, no entanto, os casos em que os mamíferos voadores aparecem onde supostamente não deveriam estar, como dentro da sua casa. Quando isso acontecer, a indicação é a mesma: nunca tocar no animal. Se ele estiver no chão, você pode até colocar algo como uma caixa ou um balde em cima para que ele não voe, mas de forma alguma vale se expor ao contato.

E, se ele estiver voando dentro da sua casa, deixe o local.Em ambos os casos, o ideal é telefonar para o 156, serviço da prefeitura, e pedir ajuda. O controle de zoonoses tem 30 especialistas para essa situação. Eles podem ser acionados 24 horas por dia. “Fora desse período de pandemia, recebemos cerca de 27 mil notificações de acidentes com mordidas ou arranhões de cachorros, gatos e morcegos”, diz Werner. Ou seja, pode ligar que eles saberão o que fazer no seu caso.

Ter a casa invadida por um morcego ainda não ocorreu com o jornalista Sândor Vasconcellos, 41, mas ele não vai achar nada surpreendente se isso ocorrer alguma hora. Desde março, quando se mudou para um apartamento entre a rua Augusta e a avenida Nove de Julho, ele passou a reparar no grande número de morcegos em uma praça ao lado de sua casa.

“Se eles entrarem em casa, não vou saber o que fazer. Jogo um pano em cima dele? Não machucaria nunca um animal desses, mas não saberia o que fazer”, afirma. Sândor diz que não esperava esses vizinhos quando se mudou para o centro da cidade. “Eu me surpreendi com a quantidade e com o barulho que eles fazem porque ali é o ‘centrão’, é supermovimentado. Imaginei que na cidade eles ficassem em bairros mais arborizados”, afirma.

A impressão dele é comum a muitas pessoas, mas o diretor do centro de zoonoses explica que basta um local, como uma fenda na fachada de um comércio ou algum espaço vazio, para que os morcegos se instalem, em colônias.

Se estão sempre perto de árvores, é porque se alimentam de pequenas frutas.É o que faz o casal da Barão de Limeira, que pode até mesmo nem ser um casal fixo, ou nem ser sempre um par formado pelos mesmos indivíduos. De qualquer forma, eles continuam voando e, desde que não esbarrem, machuquem ou mordam ninguém, toda forma de amor...


Calor faz morcegos aparecerem mais nas ruas de SP

Únicos mamíferos que voam, os morcegos estão presentes em áreas rurais e urbanas. Importantes na natureza, ajudam no controle de insetos noturnos e espalham sementes e frutos, colaborando para a recuperação de áreas degradadas.

No entanto eles podem transmitir a raiva para humanos e outros animais. Se inalados em ambientes fechados, os fungos presentes nas fezes dos morcegos podem transmitir histoplasmose, que pode causar inflamação nos pulmões e outros órgãos.

Em São Paulo existem 43 espécies do mamífero voador; apenas 2 delas são hematófagas (se alimentam de sangue).

Algumas espécies em São Paulo

Morcego Beija-flor Glossophaga soricina 

É uma espécie de morcego da família dos morcegos com nariz de folha. Tem língua longa e extensível para se alimentar do néctar das flores. Tem o metabolismo mais rápido já registrado em um mamífero, semelhante ao dos beija-flores.

Embora utilize 50% de sua gordura armazenada ao longo de um dia, mais de 80% de sua energia vem diretamente dos açúcares simples que compõem sua dieta de néctar. É conhecido por transportar uma variedade de endoparasitas (cestoides, nematoides e protozoários) e pelo menos 34 ectoparasitas.

Morcego Comedor de Frutas Artibeus lituratus

É uma espécie de morcego da família dos morcegos com nariz de folha. Podem crescer até 115g. São polígamos, com grupos chamados haréns, compostos por um macho e várias fêmeas. Às vezes sofrem de alopecia, uma síndrome que pode causar queda de cabelo. Para se orientarem e para encontrarem alimentos, usam a ecolocalização, processo de emitir ondas sonoras e, em seguida, analisar os ecos que retornam para determinar a localização do alimento e os obstáculos próximos.

O que fazer caso um morcego entre em sua casa?

1) Ligue para o 156, da prefeitura de São Paulo

2) Não manipule nenhum tipo de morcego, vivo ou morto; a captura deve ser realizada por profissionais especializados e legalmente autorizados

3) Não utilize produtos químicos para desalojá-los;Caso alguma pessoa tenha algum contato com morcegos, deverá procurar, com urgência, orientação médica;Caso um animal entre em contato com morcegos, procure um médico veterinário ou o CCZ

Importante Em caso de acidente com morcegos, procure atendimento médico e não realize procedimentos caseiros

Fontes: Encyclopedia of Life e Animal Diversity Web - University of Michigan

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