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Dia da Consciência Negra

20 de Novembro e a defesa de nossos melhores sonhos de liberdade

Luta antirracista exige que pessoas negras e não negras se desvencilhem da armadilha da representatividade oca

Ana Flávia Magalhães Pinto

Em algum momento entre 1962 e 1976, o poeta afro-gaúcho Oliveira Silveira encarou suas angústias acerca da gravidade dos vazios históricos produzidos pelo racismo brasileiro e deu ao mundo o poema “Pobre Menino Preto”.

Os versos publicados no livro "Praça da Palavra" reconstroem as tentativas frustradas de uma criança negra para associar sua imagem às dos heróis disponíveis à época: “brincando com a turma: / se imagina mocinho / não cola / os mocinhos são brancos / como os outros”. Ao querer se inventar Tarzan, é logo derrubado do galho por quem o vê apenas como “chita / macaco / chimpanzé / orangotango”. Não fosse tudo isso cruel o bastante, faltava a ele repertório para defender seu íntimo desejo de ser: “não pode brincar de Zumbi / ou Toussaint-Louverture / porque são heróis de verdade / que ninguém conhece / nem ele mesmo nunca ouviu falar”.

O menino com o qual Oliveira se compadecia estava longe de se restringir a pessoas de pouca idade. Seu personagem poderia ser lido como a metáfora de um país inteiro, um Brasil majoritariamente negro que nem sequer estava autorizado a se afirmar a partir daquilo que lhe era inegável: suas origens africanas.

Ancoradas no mito da democracia racial, as múltiplas histórias dos antepassados desse “pobre menino preto” estavam afundadas basicamente em cenas da escravidão, presentes em narrativas nas quais crianças, jovens e adultos negros eram representados como parcialmente humanos. Em outras palavras, figuravam como mercadorias semoventes que, em sua passividade e apatia, só poderiam contar com a benevolência de uma princesa regente para acessar uma liberdade de contornos incertos.

Passados tantos anos desde a escrita desse poema, dimensionar o que Oliveira Silveira e uma ampla rede negra de ativismo antirracista fizeram e fazem para alterar esse cenário nos causa aquela “felicidade guerreira”, da síntese de Waly Salomão. Ainda mais porque esses esforços alcançam efeito na contramão de traiçoeiras e nada sutis tentativas de desqualificação e desmonte.

Talvez ainda seja uma informação que falte a muita gente, mas a proposta do 20 de Novembro como Dia Nacional da Consciência surgiu das inquietações de Oliveira e outras/os integrantes do Grupo Palmares na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 1971. Se até então indivíduos e grupos tinham conseguido manter aqui e ali memórias positivas sobre o legado do Quilombo dos Palmares, foi a partir da formulação segura do coletivo gaúcho que um sonho reprimido ganhou corações e mentes em todo o país.

Nas décadas seguintes, facilitadas pela rearticulação de entidades do Movimento Negro durante a ditatura militar –entre as quais se destaca o Movimento Negro Unificado (MNU), fundado em 1978–, foram se avolumando as ações que tornaram possível a conquista da primeira data cívica de exaltação do protagonismo negro em defesa de sua própria liberdade e em respeito ao significado mais profundo da palavra humanidade no Brasil.

Isso, por certo, impulsionou a formulação de uma agenda de revisão histórica que, mesmo sendo iniciada nas margens dos debates acadêmicos, atravessou os muros das universidades, alterou rotas de pesquisa, práticas de ensino e até mesmo pautou a ampliação da presença de estudantes e professores/as negros/as nesses espaços, por força das políticas de ação afirmativa em anos mais recentes.

De tal sorte, diante da proximidade do cinquentenário do “Vinte”, a ser celebrado em 2021, apenas desavisados ou mal-intencionados podem alegar surpresa diante das atuais iniciativas que têm garantido a consolidação do reconhecimento do movimento negro como protagonista da história deste país, seja por meio indivíduos ou sujeitos coletivos direta ou indiretamente associados a essa ampla frente de luta por justiça social. Operando numa aberta disputa de narrativas, a mensagem enviada pela Coalizão Negra por Direitos no manifesto de junho deste ano, por exemplo, não deixa dúvida: “Enquanto houver racismo, não haverá democracia”.

Não basta, portanto, festejar o fato de que mulheres e homens negras/os sejamos hoje muito mais numerosas/os em espaços estratégicos do que estava previamente autorizado pelo racismo estrutural, uma vez que seguimos sendo inaceitavelmente menos do que nossos talentos e virtudes nos permitem. A consciência da potência da luta antirracista exige que pessoas negras e não negras se desvencilhem da armadilha da representatividade oca, que acena com a promessa de ampla participação, mas promove a manutenção de barreiras via elogio a excepcionalidades. Isso porque, se representatividade importa, o direito à autoria da nossa própria representação é uma prioridade.

A então presidente Dilma Rousseff recebe as representantes da Marcha das Mulheres Negras
A então presidente Dilma Rousseff recebe as representantes da Marcha das Mulheres Negras - Alan Marques - 18.nov.15/Folhapress

A lição aprendida na realização da Marcha Nacional das Mulheres Negras, em 2015, na sequência das Marchas Zumbi dos Palmares de 1995 e 2005, diz que o princípio do “Uma sobe e puxa a outra!” tanto legitima o protagonismo feminino negro quanto demanda o incremento da atuação em redes, de modo a ampliar a ressonância de nossas múltiplas vozes. Trata-se de um recurso importante para a reeducação das práticas de ativismo que tem sido adotado em diversas ações voltadas à politização do cotidiano nesse novo cenário.

Exemplo disso é dado pela maneira como o Geledés – Instituto da Mulher Negra e o Cultne – Acervo Digital de Cultura Negra, organizações consolidadas, têm desenvolvido parcerias com a Rede de Historiadoras Negras e Historiadores Negros, fundada há cinco anos. A soma de forças tem sido dirigida a fortalecer objetivos específicos de cada entidade e, ao mesmo tempo, impulsionar a troca de experiências interessadas no letramento histórico antirracista, que é do interesse das três.

O desenvolvimento da coluna semanal “Nossas Histórias”, cujo conteúdo articula artigos, vídeos e a indicação de códigos de habilidades descritas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) aos quais se associam as informações prestadas, foi a primeira experiência, iniciada em setembro, e tem dado bons resultados.

Nesta semana da Consciência Negra, outros dois projetos que se valem dessa articulação estão sendo lançados. Um diz respeito à presença dessas entidades com parceiras no projeto “Consciências Negras” do Google Arts & Culture, no qual será desenvolvida a série de exposições virtuais “Nossas Histórias: vidas, lutas e saberes da gente negra”, começando por uma mostra em seis partes voltada a um passeio pela construção do 20 de Novembro.

Essa ação é entendida como uma maneira de reposicionar as pesquisas acadêmicas de excelência produzidas por historiadoras/es negras/os acerca dos mais diversos temas que envolvem pessoas de ascendência africana no Brasil e no mundo.

O segundo é o Ori – Festival Digital Transmídia, protagonizado pelo Cultne, que acontece nesta sexta-feira (20), das 15h às 21h, no YouTube. Trata-se de uma plataforma virtual de discussão e fomento da memória cultural negra, mediante o uso de novas tecnologias de informação e comunicação no campo da cultura digital. A proposta é aproximar e integrar a audiência de todas as idades e classes sociais a esse universo, por meio de uma revista eletrônica que agrega música, humor, economia, moda, educação, finanças, poesia, história e narrativas negras, numa grade de mais de seis horas de produção audiovisual inédita.

Afora informações históricas, outra atração especial é o lançamento da música “Filhas de Zambi”, composta pelos mestres Altay Veloso e Paulo Cesar Feital especialmente para a ocasião. O videoclipe traz, além de Altay, as vozes de sete talentosas cantoras negras do Rio de Janeiro: Marcelle Motta, Fabíola Machado, Amanda Machado, Flávia Santana, Tabatha Aquino, Gil Miranda e Rafaela Soares.

Muitas outras iniciativas inovadoras que fazem do 20 de Novembro um acontecimento tanto nas capitais quanto nos interiores poderiam ser aqui listadas, mas essas já não cabem no espaço de um artigo de jornal há muito tempo. Esse volume e essa intensidade nos permitem apostar que, uma vez que a utopia do desmonte do racismo se realize, falar sobre o protagonismo negro na História continuará fazendo sentido, mas numa chave bem mais interessante. Afinal, a mudança estará fundamentada na realização do mais generoso sonho que Oliveira Silveira dirigiu ao “Pobre menino preto”: existir em paz...


Ana Flávia Magalhães Pinto é professora do Departamento de História da UnB e integrante da Rede de HistoriadorXs NegrXs.

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