Descrição de chapéu racismo

Corpo de Beto Freitas é sepultado no RS com a aliança do casamento que estava marcado para dezembro

Familiares prestaram homenagem a João Alberto Silveira Freitas, 40, assassinado por seguranças do Carrefour

Porto Alegre

Coberto com um véu branco, o corpo de João Alberto Silveira Freitas, que morreu aos 40 anos após ser espancado por seguranças de uma unidade do Carrefour de Porto Alegre, foi velado e sepultado no cemitério São João, na capital gaúcha, na manhã deste sábado (21). Na cerimônia estavam presentes familiares e amigos.

Uma pessoa carregava um pequeno cartaz que dizia “Exigimos justiça para Beto”e “Vidas negras importam”.

A viúva, Milena Borges Alves, 43, abriu sua mochila e, de dentro dela, tirou uma aliança dourada. Levantou o véu e colocou a aliança perto da cabeça de Beto, como ele era conhecido. Eles iriam se casar nas próximas semanas.

“Seríamos os padrinhos”, conta a amiga Charlene Viana, 37, ao lado do marido, Sidnei Viana, 41.

Beto estava usando uma camiseta branca com a palavra “Escobar” e a foto de Pablo Escobar. “É uma camiseta nova que ele nunca tinha usado. Ele tinha essas coisas engraçadas. Tinha um lado excêntrico”, conta Charlene. “Ele assistiu à série na Netflix”, conta Sidnei.

Uma bandeira do clube São José, do qual era torcedor, foi colocada sobre o caixão.

No velório, a filha Thais Alexia Amaral Freitas, 22, lembrou que o pai ficou feliz quando nasceu a neta. Beto tinha outros três filhos.

“Ele levou um ursinho de pelúcia para ela. Sempre foi um bom pai e dizia que não deixaria faltar nada para a neta”, contou a filha.

A mãe de Thais, Rita de Cássia do Amaral, 40, que foi namorada de Beto na juventude, lembra que Beto era estudioso. “Ele estudava bastante, tinha sonhos. O nascimento da filha mudou muita coisa, mas ele sempre foi bom pai mesmo depois que nos separamos. Estou aqui como família. Minha mãe foi no casamento dos pais deles”, contou.

Além de Thaís, também estavam presentes duas filhas do relacionamento com Marilene Santos Manuel, 40: Desireé, 9, e Tainará, 16. O filho João Alessandro, 15, preferiu não acompanhar a cerimônia. “Ele sente tanto a dor que guarda para si e não quis vir”, disse Marilene. “Ele escolheu o nome de todos filhos. A gente se separou, mas ele nunca abandonou as crianças”, disse a ex-mulher. Ela disse ainda que ele dividia a torcida pelo São José com sua simpatia pelo Grêmio.

O pai de Beto, João Batista Rodrigues Freitas, 65, disse que o filho tinha planos de ir ao culto da Igreja Unidos em Cristo com ele.

“Ele chegou a ler a Bíblia conosco na última semana de vida. Lemos juntos o Salmo 121, que dá uma palavra de conforto e ânimo”, disse o pastor Ângelo de Almeida.

“Jesus disse que é para a gente não se entristecer, porque foi preparado um lugar para nós. Um dia ou outro vamos partir, mas nosso lugar está preparado”, disse o pastor no velório.

“Ele intercede por minha alma”, cantavam em coro os familiares, carregando o caixão. Uma salva de palmas encerrou a cerimônia e o sepultamento por volta das 11h45.

Familiares disseram que viram os vídeos das agressões sofridas por Beto e ficaram chocados. "Foi horrível. Foram animais. Lamento que com a nossa Justiça logo estarão soltos", disse Thaís.

Beto vivia de serviços de conserto e jardinagem. Ele estava com Milena no Carrefour quando foi abordado e assassinado. Segundo declarações dela a jornalistas, o marido teria feito um aceno a uma funcionária do caixa, em tom de brincadeira, após concluírem as compras, e deixado o mercado. Ela terminou de pagar pelos produtos e, na saída, deparou-se com o espancamento.

Ele morreu sob as vistas de testemunhas e teve seu assassinato filmado na véspera do Dia da Consciência Negra. O vídeo se disseminou por redes sociais e sites de notícias a partir do fim da noite de quinta, gerando protestos em diversas cidades.

O Carrefour classificou a morte como “brutal” e anunciou que romperá contrato com a empresa de segurança, além de demitir os funcionários envolvidos.

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