Colisão entre ônibus e caminhão deixa ao menos 41 mortos no interior de SP

Maioria das vítimas de tragédia ocorrida em estrada na região de Avaré eram costureiras rumo ao trabalho; polícia investiga causas e suspeita de ultrapassagem irregular

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Ribeirão Preto, São Paulo e Avaré (SP)

Pelo menos 41 pessoas morreram e 10 outras ficaram gravemente feridas na colisão entre um ônibus e um caminhão na manhã desta quarta (25) entre Taguaí e Taquarituba, interior de São Paulo. O ônibus não tinha registro para transportar passageiros e, com infrações acumuladas, rodava ilegalmente havia mais de um ano.

Trata-se de um dos mais graves acidentes rodoviários já registrados no estado de São Paulo. Os nomes dos mortos não haviam sido divulgados até a conclusão desta edição, mas sabe-se que a maioria era de mulheres que viviam na pequena Itaí, 27 mil habitantes, e trabalhavam como costureiras de uma empresa que produz jeans em Taguaí, ambas na região de Avaré.

No momento do acidente, na rodovia Alfredo de Oliveira Carvalho, de pista simples, elas seguiam para o trabalho, por volta de 6h30, saindo de Taquarituba, cidade a cerca de 300 km de São Paulo vizinha a Itaí, quando o ônibus em que estavam se checou com um caminhão na pista contrária. O motorista do caminhão, Geison Machado, também morreu.

Ônibus parcialmente destruído após colisão com caminhão em rodovia paulista na manhã desta quarta-feira (25); ao menos 20 pessoas morreram no acidente
Ônibus parcialmente destruído após colisão com caminhão em rodovia paulista na manhã desta quarta-feira (25); ao menos 20 pessoas morreram no acidente - Reprodução

A causa do acidente é investigada. A polícia suspeita de uma tentativa de ultrapassagem irregular no local –o trecho é de curva e tem pista simples, com proibição de ultrapassar.

O motorista do ônibus declarou à Polícia Civil, segundo o UOL, que outro coletivo freou à sua frente, obrigando-o a invadir a pista contrária para desviar. Ele, que não teve o nome divulgado, alega ainda que o freio do ônibus que dirigia falhou, levando-o a bater no caminhão. O veículo que conduzia levava 51 passageiros.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, 37 vítimas morreram no local e 14 foram levadas para hospitais. Destas, 4 não resistiram aos ferimentos e 10 permanecem internadas, sendo 5 em estado grave: 2 no Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu, intubados, e 3 na Santa Casa de Avaré. A secretaria da Saúde pede doações de sangue ao hemocentro de Botucatu.

Taguaí e Itaí decretaram luto oficial de três dias. O governador João Doria (PSDB) manifestou solidariedade aos familiares e amigos das vítimas, definindo o episódio como “muito triste” e enviando à região os secretários da Saúde, Jean Gorinchteyn, e de Desenvolvimento Regional, Marco Vinholi, além do coordenador da Defesa Civil do Estado, coronel Walter Nyakas Júnior.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não havia se manifestado sobre o acidente até a conclusão desta edição.

Com a batida, os veículos ficaram destruídos. O caminhão invadiu a área de uma propriedade rural às margens da pista, e passageiros do ônibus foram arremessados para fora do veículo, enquanto outros ficaram presos às ferragens.

Pelo menos cinco carros foram enviados para o local pelos Bombeiros, onde trabalharam também equipes da Polícia Militar, Polícia Militar Rodoviária, Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), ambulâncias de prefeituras da região e Polícia Científica, como uma força-tarefa das prefeituras de Taguaí, Taquarituba, Fartura, Piraju, Avaré e Sorocaba, além de um helicóptero Águia da PM.

O resgate dos sobreviventes levou cerca de seis horas. Segundo a capitã Aline Camargo, porta-voz da PM, o último corpo foi retirado do ônibus por volta das 12h. “Os bombeiros analisaram o cenário do acidente para prestar socorro às vítimas mais graves [primeiramente]. A avaliação foi feita para constatar quem precisava de socorro imediato, fazendo remoção do local. Também foram avaliados riscos de vazamentos e incêndios.”

Os corpos foram transportados em um caminhão frigorífico, e uma força-tarefa foi montada pelo estado para fazer a identificação e liberar os corpos para os velórios, que ocorreriam de forma coletiva em dois ginásios e com a presença da Vigilância Sanitária devido à pandemia do novo coronavírus, por causa da qual se proíbem aglomerações.

Ao longo do dia, dezenas de pessoas se reuniram na frente do prédio do IML (Instituto Médico Legal) de Avaré em busca de notícias dos filhos, irmãos, sobrinhos e amigos que poderiam estar no ônibus. Familiares passaram o dia ligando para hospitais da região ou buscando informações no IML.

O corpo da costureira Ozani Lucio, 58, foi identificado pelo sobrinho, filho do aposentado Isaias Lucio, 54. “Procuramos notícias da minha irmã em todos os hospitais que você possa imaginar, mas nos orientaram a ir ao IML de Avaré, conta Isaías.

"Segundo meu filho, o corpo dela estava repleto de pó. Ela era trabalhadora, construiu a casa dos sonhos dela por dez anos, até ficar do jeitinho que ela queria, terminou de pagar o guarda roupa-ontem."

A açougueira Fernanda de Fátima aguardava notícias da irmã Fabiana de Góis Vieira. “Uma amiga dela me ligou perguntando se eu fiquei sabendo do acidente. Aí fiquei desesperada e já fui procurar em todos os hospitais da região. Mas até agora não tenho nenhuma informação. Sei que ela estava no ônibus e a minha única esperança é que ela não esteja nesse caminhão [frigorífico]“, disse.

“Passa [na cabeça] que a gente não tem valor. Tinha que ter mais segurança sim, ela é solteira, tem dois filhos... tem o meu paizinho que está lá esperando notícias.”

De acordo com a Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo), a empresa Star Fretamento e Locação Eireli EPP, responsável pelo ônibus envolvido no acidente, não possuía o registro e operava de maneira ilegal desde 11 de outubro de 2019. A Folha não conseguiu contato com responsáveis pela empresa.

A Star acumulou infrações neste ano, todas referentes ao transporte irregular de passageiros. Em 3 de março, foi multada por fazer o fretamento irregular na rodovia Raposo Tavares, próximo ao km 296, em Avaré. Ela transportava 30 estudantes.

No mesmo dia, outra multa foi aplicada à empresa, por transportar irregularmente 43 estudantes. Dois dias depois, a empresa recebeu nova autuação devido ao fretamento irregular, de novo na rodovia Raposo Tavares, mas em Ourinhos.

A Artesp frisa a importância de passageiros e contratantes conferirem se as empresas que oferecem o fretamento estão cadastradas e reguladas, por meio do site da agência. A EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos) é responsável pela fiscalização nas regiões metropolitanas de São Paulo, de Campinas, da Baixada Santista, do Vale do Paraíba/Litoral Norte e de Sorocaba.

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