Corpo do artista NegoVila é enterrado sob forte comoção em cemitério de SP

Artista tentou apartar briga e acabou atingido por um tiro disparado por PM; ele deixa uma filha e três irmãos

São Paulo

O corpo do artista NegoVila, 40, foi enterrado na tarde deste domingo (29), no cemitério da Lapa (zona oeste da capital paulista), por volta das 16h.

O velório teve início ao meio-dia e terminou sob grande comoção de amigos e colegas de trabalho do artista.

Nos minutos finais do velório, amigos cantaram o rap “Bate as Mantas” cujos versos, que já foram entoados por NegoVila numa gravação, dizem: “Na Vila Madá é assim. O samba e o rap não tem fim”.

O caixão com o corpo de NegoVila foi enterrado junto ao skate dele, que recebeu mensagens como: "que papai do céu te cubra de luz".

Familiares e amigos em cortejo para enterro do corpo do artista NegoVila, no cemitério da Lapa, na tarde deste domingo (29)
Familiares e amigos em cortejo para enterro do corpo do artista NegoVila, no cemitério da Lapa, na tarde deste domingo (29) - Arquivo Pessoal

O artista morreu na madrugada deste sábado (28) atingido por um tiro disparado, segundo testemunhas, pelo policial militar Ernest Decco Granaro, 34, em frente de uma distribuidora de bebidas na Vila Madalena, zona oeste.

Segundo a secretaria de Segurança Pública da gestão Doria (PSDB), Granaro foi preso, e o caso está sob investigação no 14º DP (Pinheiros). “A Polícia Militar também instaurou um IPM [inquérito policial militar] para investigar todas as circunstâncias relacionadas à ocorrência”, diz a nota.

NegoVila era o nome artístico de Wellington Copido Benfati. O “Vila Madalena” homenageava o bairro onde ele nasceu e acabou morto de forma violenta.

O artista estava acompanhado de ao menos nove amigos no Royal Bebidas, uma distribuidora de bebidas da região.

O grupo chegou ao local no final da noite de sexta-feira (27) e lá permaneceu bebendo na calçada até a confusão que terminou com o artista baleado, por volta das 4h30 deste sábado.

Segundo amigos da vítima, o artista foi baleado após tentar separar uma briga entre um de seus amigos e o PM. Os motivos da briga ainda não estão esclarecidos.

As testemunhas disseram ainda que, ao tentar acabar com a confusão, NegoVila foi agredido com um soco no rosto desferido pelo policial. Ele revidou.

Armado, Granaro deu um tiro para o alto e causou uma correria entre os frequentadores da distribuidora que estavam na calçada. Na sequência, segundo testemunhas, o policial se aproximou e atirou contra o artista. O tiro atingiu o tórax da vítima.

O artista NegoVila, 40
O artista NegoVila 40 - Arquivo Pessoal

Amiga do artista, Luana Cruz de Campos, 37, conta que só percebeu que NegoVila havia sido baleado quando o viu caído.

“Quando ele caiu após o tiro, o policial veio e apontou a arma na direção dele para atirar mais. Foi quando eu coloquei meu corpo em cima do dele e implorei: por favor, não!”, disse a assistente administrativa, em versão corroborada por testemunhas.

Campos também disse à Folha que o policial se afastou, e ela conseguiu conversar com NegoVila até a chegada do resgate. “Está tudo bem?”, perguntou ela.

O artista só conseguiu responder: fui baleado. “Eu vi o sangue e comecei a gritar. Foi horrível”, disse.

NegoVila foi socorrido e levado ao Pronto-Socorro da Lapa, mas segundo a irmã do artista, Tatiane Cristina Benfati, 43, ele chegou morto na unidade hospitalar.

Muito abalada, Tatiane disse que seu irmão “não merecia ter morrido dessa forma.”

Dois policiais chegaram rapidamente ao local ao ouvirem barulhos de tiro porque estavam atendendo uma outra ocorrência no 14º DP, que fica a poucos metros da distribuidora de bebidas.

Segundo o boletim que relata a ocorrência, Granaro mostrou resistência à prisão, “sendo necessário o uso da força para que fosse contido, culminando-se com um breve algemamento do indiciado”, segundo trecho do documento.

O policial suspeito portava uma pistola calibre .40, de propriedade da Polícia Militar, que foi apreendida. Na delegacia, ainda segundo o boletim da ocorrência, o policial disse ter “sido agredido fisicamente e que se defendeu”.

O PM afirmou também que enquanto era agredido, um grupo de pessoas que ele não especifica, o cercaram e tentaram tomar sua arma e, por isso, ele diz ter atirado “a fim de repelir a injusta agressão que estava sofrendo”.

O boletim também narra a versão da amiga do artista sobre o fato de ela ter se deitado sobre o corpo da vítima para o policial parar de atirar.

Para a delegada Letícia Faria Fadel, que atendeu a ocorrência, mesmo Granaro alegando ter agido em “legítima defesa” numa briga cujas circunstâncias ainda não estão esclarecidas, ele foi o autor do homicídio “sem motivo para ter cometido o crime”.

O policial foi indiciado por homicídio simples e levado ao presídio Romão Gomes, onde os militares envolvidos em crimes cumprem pena, até decisão da Justiça.

A Folha não localizou a defesa do PM.

Corpo de NegoVila é enterrado junto ao seu skate no cemitério da Lapa, na zona oeste da capital paulista, na tarde deste domingo (30)
Corpo de NegoVila é enterrado junto ao seu skate no cemitério da Lapa, na zona oeste da capital paulista, na tarde deste domingo (30) - Arquivo Pessoal

Artista multifacetado

NegoVila era rapper, skatista, muralista, artista plástico e assistente de produções cinematográficas.

Ele deixa uma filha, de nove anos que, segundo a família, estava ansiosa para viajar com o pai no final deste ano, três irmãos e muitos amigos.

Em depoimento enviado à Folha, Ágatha Yazbek, 32, ex-namorada e mãe da filha de NegoVila, disse que “arrancaram uma pessoa que ia estar sempre na nossa vida”.

“Era um artista. Cantava, fazia obras de vidro lindas, grafitava e tocava na Escola de Samba Pérola Negra”, afirmou Yasbek.

Para Tatiane, a irmã do artista, houve um componente racista na morte de NegoVila que, segundo ela, se via como negro, mas não levantava bandeiras sobre a causa racial. “Ele era a própria bandeira”, disse.

“O racismo é algo que existe, né, no Brasil. O cara que matou meu irmão é branco. Ele nunca viu meu irmão na vida dele. Ele não tinha nenhum motivo para fazer isso”, afirma.

Nas redes sociais, amigos do artista protestaram. Numa das postagens, uma foto de uma faixa estampava: “PM assassina”.

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