Descrição de chapéu Dia da Consciência Negra

Homem negro morre após ser espancado por seguranças do Carrefour em Porto Alegre; veja cenas

Assassinato de Beto Freitas, 40, provoca mobilização no Dia da Consciência Negra; supermercado diz que vai romper contrato com empresa responsável pelos terceirizados

São Paulo e Porto Alegre

João Alberto Silveira Freitas, 40, foi espancado e morto na noite de quinta-feira (19) por dois seguranças de uma unidade do supermercado Carrefour em Porto Alegre. Homem negro, ele morreu sob as vistas de testemunhas e teve seu assassinato filmado na véspera do Dia da Consciência Negra.

Laudo preliminar do Instituto-Geral de Perícias de Porto Alegre aponta asfixia como a causa mais provável da morte.

Segundo a delegada que apura o crime, Roberta Bertoldo, da 2ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa de Porto Alegre, os seguranças Magno Braz Borges e Giovane Gaspar da Silva ficaram em cima das costas de Freitas quando o espancavam, dificultando sua respiração.

Os homens, que trabalham para o Grupo Vector, foram presos em flagrante por homicídio qualificado. O crime ocorreu no bairro Passo d’Areia, na zona norte da cidade, e segue sob investigação.

O laudo definitivo deve ser concluído nos próximos dias.

O Carrefour classificou a morte como “brutal” e anunciou que romperá contrato com a empresa de segurança, além de demitir os funcionários que estejam envolvidos.

O vídeo do assassinato se disseminou por redes sociais e sites de notícias a partir do fim da noite de quinta, gerando indignação e revolta em Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, onde manifestações pelo Dia da Consciência Negra —a data não é feriado em Porto Alegre— se tornaram protestos pela morte.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não havia feito nenhuma declaração a respeito até a publicação desta matéria. Seu vice, Hamilton Mourão, lamentou o ocorrido, mas disse que não vê relação entre o episódio e o racismo.

Políticos, organizações da sociedade civil e celebridades repercutiram o assassinato, que ecoa o do americano George Floyd, ocorrido em maio deste ano e estopim de uma forte onda de protestos raciais pelos EUA.

Ecoa também a morte de Pedro Henrique Gonzaga, 19, sufocado por um segurança em um supermercado Extra na Barra da Tijuca (Rio) em fevereiro de 2019, e a tortura de um adolescente por seguranças do supermercado Ricoy, sete meses depois, na Vila Joaniza, sul de São Paulo. Todos eles eram negros.

“Foi um episódio de racismo. Basta ver a força da agressão. Primeira coisa que perguntei foi: ‘Ele estava roubando?’. Se não estava, por que ser agredido? E por que ser agredido brutalmente pelos seguranças?” disse o pai, João Batista Rodrigues Freitas, 65.

“Estou me sentindo abatido. Perdi a pessoa que mais amava. Amava minha mulher, que perdi há seis anos. Agora perdi meu filho. Tínhamos uma amizade de pai e filho, nos respeitávamos.”

Beto, como o apelidou a madrinha no primeiro ano de vida, vivia de serviços de conserto e jardinagem. Torcia para o São José e vivia com Milena Borges Alves, 43. Tinha quatro filhos de outras relações.

Era com Milena que Beto estava no Carrefour quando foi abordado e assassinado. Segundo declarações dela a jornalistas, o marido teria feito um aceno a uma funcionária do caixa, em tom de brincadeira, após concluírem as compras, e deixado o mercado. Ela terminou de pagar pelos produtos e, na saída, deparou-se com o espancamento.

João Alberto Silveira Freitas (centro), de 40 anos que foi espancado até a morte por seguranças de um Carrefour
João Alberto Silveira Freitas (centro), de 40 anos, que foi espancado até a morte por seguranças de um Carrefour - Reprodução

“Ele disse ‘me socorre, Milena’”, contou ela à BandNews. Mais cedo, procurada pela Folha, disse que estava muito abatida, e entrou em um carro da Polícia Civil para depor.

“Milena é uma trabalhadora. Ela e o Beto estavam juntos há muitos anos. Ele era respeitoso, uma pessoa legal”, disse a amiga da viúva, Rejane Aparecida Prado dos Santos, 52.

Beto, por sua vez, foi descrito pelo amigo Matheus Borges Carneiro como “uma pessoa humilde, se preocupava com a vida e com os outros”. “Isso poderia ter sido evitado, sem violência, sem nada.”

“Ele [Beto] vinha aqui, fazia churrasco nos dias de jogos. Se dava bem com todo mundo. Era gente boa. Foi uma surpresa”, disse Sérgio Gozdziuk, dono de uma lanchonete próxima do estádio do São José.

Para Márcio Noble Cardoso, outro amigo, o assassinato “pegou de surpresa”. “Mas a gente já sabia como era o pessoal do Carrefour, ríspidos. Mesmo eu, branco, me sentia oprimido ali depois do jogo.”

Freitas, o pai, disse que a última vez que falou com o filho foi na própria quinta-feira. “Tínhamos plano de comprar um veículo utilitário para transportar produtos no Ceasa. Mas, para isso, precisávamos do carro.

Então, faríamos um financiamento. Mas esse sonho foi interrompido de maneira brusca”, afirmou.

A delegada responsável pela investigação do homicídio de Beto Freitas, Roberta Bertoldo, afirmou à Folha que não era possível ainda definir se o crime teve motivação racista, mas que isso seria apurado.

Segundo a chefe da Polícia Civil, Nadine Anflor, embora seja impossível negar que o racismo estrutural exista, é precoce neste momento elucidar o caso, e afirmou que a motivação está sendo investigada.

“Neste momento, o que temos é um homicídio, em princípio com três qualificadoras: motivo fútil, impossibilidade de recurso de defesa da vítima e a causa da morte por asfixia. É o que foi possível identificar pelos vídeos e informações colhidas até o momento”, disse.

“Se, na sequência da investigação, reunirmos elementos que comprovem que a motivação do crime está relacionada a uma questão de discriminação racial, pelo fato de a vítima ser um homem negro, na conclusão do inquérito a qualificadora de motivo fútil será alterada para motivo torpe.”

Em 2019, 3 de cada 4 vítimas de homicídio ou latrocínio no Brasil eram negras, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Dados do fórum e do Ipea mostram que os homicídios de pessoas negras no país aumentaram 11,5% de 2008 a 2018, enquanto os de pessoas não negras caíram 12,9%.

O corpo de Beto Freitas deve ser velado a partir das 8h deste sábado (21) no cemitério São João, no bairro Iapi, onde o sepultamento ocorre às 11h.

Rede diz que vai reverter receita para combate ao racismo

Em nota, o Carrefour chamou o caso de brutal e disse que todo o resultado de lojas Carrefour no Brasil nesta sexta (20) será revertido para projetos de combate ao racismo no país.

E que neste sábado (11) todas as lojas do Grupo em todo o Brasil abrirão duas horas mais tarde para que neste tempo possa reforçar o cumprimento das normas de atuação exigidas pela empresa a seus funcionários e empresas terceirizadas de segurança.

“Reiteramos que, para nós, nenhum tipo de violência e intolerância é admissível, e não aceitamos que situações como essas aconteçam. Estamos profundamente consternados com tudo que ocorreu e acompanharemos os desdobramentos do caso, oferecendo todo suporte para as autoridades locais”, diz a nota do Carrefour.

A rede anunciou que romperá o contrato com a empresa responsável pelos seguranças e informou que vai demitir o funcionário responsável pela loja na hora do ocorrido.

“O Carrefour informa que adotará as medidas cabíveis para responsabilizar os envolvidos neste ato criminoso”, diz a nota. “Em respeito à vítima, a loja será fechada. Entraremos em contato com a família do senhor João Alberto para dar o suporte necessário.”

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