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Grupo de estudos da periferia cria app para medir lotação do transporte em SP na pandemia

Primeiros alertas da ferramenta 'Sufoco' mediram muita demanda em ônibus, com 65% das reclamações

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Lucas Veloso
São Paulo | Agência Mural

A atendente de telemarketing Ibene Alves, 49, mora com o marido e o filho em Guaianases, no extremo leste da cidade, mas trabalha na Lapa, na zona oeste. Todos os dias são cerca de 3 horas e 20 minutos gastos para ir e voltar do trabalho. Mesmo com a pandemia do novo coronavírus, tem tido de enfrentar aglomerações.

“Tem dia que pego o ônibus e ele está lotado, com pessoas sentadas e gente em pé. Aí você você tem que entrar na condução e passar no corredor, colado nas pessoas. Acabamos ficando bem próximos um dos outros, aí o isolamento acaba indo por água abaixo”, diz.

Estação da Luz, uma das mais movimentadas de São Paulo
Estação da Luz, uma das mais movimentadas de São Paulo - Paulo Talarico/Agência Mural

A rotina que sempre marcou a ida ao trabalho na cidade de São Paulo ganhou peso, por causa dos cuidados necessários para evitar a Covid-19. Mas pouca coisa mudou, afirmam moradores.

“Nem mesmo a pandemia foi capaz de mudar essa situação, quando as orientações médico-sanitárias demonstram a necessidade de manter um distanciamento regulamentar”, afirma o geógrafo e professor do campus zona leste da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Ricardo Barbosa da Silva, 43.

Morador da Penha, zona leste da capital, ele é um dos criadores do aplicativo “Sufoco: lotação nos transportes coletivos na RMSP”, disponível para celulares Android na loja de aplicativos ou no site do projeto.

O app busca mapear as situações de maior lotação. A ideia é mapear de maneira colaborativa os alertas das pessoas em situações de lotação nos transportes coletivos na região metropolitana de São Paulo.

“Cada ponto reportado no mapa terá algumas informações sobre a lotação dos transportes, como ônibus, metrô ou trem, além de dia, horário e condição de lotação”, diz. Ricardo também é coordenador da Rede Mobilidade Periferias, grupo de pesquisa que trabalhou na criação do App.

A equipe voluntária do projeto também conta com Leonardo Garcez, colaborador no desenvolvimento do aplicativo e mestrando da Universidade do Vale do Itajaí; Tatiana Ashino, arquiteta e especialista pela Unifesp campus zona leste; e Cintia de Almeida, bolsista e estudante de história do campus Guarulhos da universidade.

Desde 9 de novembro, dia em que foi disponibilizado, mais de 200 pessoas baixaram o ‘Sufoco’ e cerca de 40 alertas de lotação. Segundo Ricardo, ainda é muito cedo para fazer qualquer tipo de conclusão, mas os dados preliminares mostram que os alertas de lotação no transporte foram 65% nos ônibus, 20% nos trens da CPTM e 15% no Metrô.

Dos alertas citados em relação a condição de lotação, 65% disseram que estava muito lotado (passageiros em pé e com aglomeração), 30% lotado (passageiros em pé e sem aglomeração) e 5% lotação máxima (não foi possível entrar).

De acordo com o professor, as ações dos agentes públicos de São Paulo foram ineficazes ou induziram a lotação. Cita como exemplo a ampliação do rodízio de automóveis e a diminuição da frota de ônibus e trens na região metropolitana da cidade.

“Isso colocou as pessoas em condição de mais vulnerabilidade ao contágio do coronavírus. Geralmente, os mais pobres, negros e periféricos que não puderam ficar em isolamento em casa e são mais dependentes dos transportes coletivos”.

Até agora as linhas mais reportadas em termos de lotação foram a linha 11-Coral da CPTM, a linha de ônibus 809A -10 Jardim D'abril-Terminal Pinheiros e a linha 3-Vermelha do Metrô.

Procurada, a Sptrans afirma que foi constatado o descumprimento da programação estabelecida para a linha 809A/10 Jardim D'abril - Terminal Pinheiros e que a empresa responsável seria notificada para que regularize a operação.

No entanto, as empresas responsáveis pela fiscalização no transporte público de São Paulo, em geral, negam os problemas causados pela lotação durante a pandemia.

A Sptrans afirma que acompanha em tempo real a operação do transporte público e realiza os ajustes sempre que constatada a necessidade. Atualmente, afirma que 87,9% da frota operacional em relação ao período anterior à pandemia tem circulado para atender aproximadamente 60% da demanda.

Interior de ônibus lotado em SP
Interior de ônibus lotado em SP - Léu Britto/Agência Mural

O Metrô de São Paulo e a CPTM responderam por meio da STM (Secretaria dos Transporte Metropolitanos). A pasta diz estar com a ‘Operação Monitorada’ desde o início da quarentena e que a estratégia inclui mais trens nas linhas da CPTM e do Metrô quando constatada a necessidade.

A STM disse que a oferta chega a 100% da frota em algumas linhas nos horários de pico, mesmo com a queda expressiva no número de passageiros.

De acordo com a pasta, nos primeiros meses da pandemia, a demanda chegou ao patamar de 20% do normal e hoje está em torno de 53% na média nas três empresas —Metrô, CPTM e EMTU, que antes da pandemia transportavam cerca de 10 milhões de passageiros por dia.

A percepção dos passageiros, contudo, é de medo do contágio por causa da aglomeração. Ibene diz que desde o mês de abril percebe o transporte público cada vez mais lotado. “Fotografei algumas coisas na linha 7- Rubi, da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e flagrei pessoas sem máscaras dentro de vagões lotados”, afirma.

Do Capão Redondo para a Sé, o entregador de aplicativo Felipe dos Santos, 25, gasta cerca de 2h entre trem e ônibus. Apesar da pandemia, relata que não viu mudanças e nem viajou mais tranquilo durante os últimos meses. “As empresas diminuíram as frotas, né? Mas o movimento deveria ser o contrário já que todos os dias a gente viaja esmagado”, afirma.

“Por sorte, alguns dias eu voltava sentado no ônibus, mas depois de março, isso nunca mais aconteceu. É lotado todo dia. Qualquer hora é esse sufoco mesmo no trem e no busão”, completou.

Em agosto, o professor Anderson Kazuo Nakano, do Instituto das Cidades da Unifesp, organizou um levantamento que cruzou dados da Pesquisa Origem-Destino 2017 com do Sistema de Informações sobre Mortalidade da Secretaria Municipal de Saúde da prefeitura da capital.

A pesquisa mostrou que usar transporte público, trabalhar como profissional autônomo ou ser dona de casa eram características que mais colaboraram para as mortes por Covid-19.

O estudo mostrou que entre os dez bairros da capital com mais mortes pela doença, nove deles também lideraram o número de viagens por transporte público. O Grajaú, no extremo sul da capital, foi um dos exemplos.

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