Descrição de chapéu Obituário Anuar Kalil (1932 - 2020)

Mortes: Luminoso como o luar, amou a vida e a família

Anuar Kalil tinha curiosidade aguçada e consciência de que faltava muito, ou tudo, para aprender

Juliana Kalil Gragnani

Quando Anuar Kalil, com seu porte elegante e mãos grandes e firmes, abria os braços para quem amava, seu abraço se tornava o mundo todo.

Vinham dele o maior conforto e as melhores histórias, em que cada personagem, mesmo os mais passageiros, tinha nome e sobrenome —sua memória era formidável.

Tinha curiosidade aguçada e consciência de que faltava muito, ou tudo, para aprender. Falava inglês, francês, árabe, espanhol e arriscava-se no italiano. Mantinha o dicionário de português em um pedestal, consultando-o toda noite e vibrando a cada palavra nova aprendida. Desde março, na quarentena, leu 18 livros, registrou com admiração a filha mais velha.

Seus netos cresceram rindo e dançando com ele –Silvio Caldas, Charles Aznavour, Elis Regina, muita música árabe. Nas viagens de carro, ele apontava para o verde sem fim na estrada, admirado com a natureza. Seu olhar era aquele de quem não se acostumava com a beleza do mundo.

Anna  Lydia Lanna Kalil e Anuar Kalil foram casados por 60 anos. (Foto: Acervo Pessoal)
Anna Lydia Lanna Kalil e Anuar Kalil foram casados por 60 anos. (Foto: Acervo Pessoal) - Acervo Pessoal

Filho de José Jorge Kalil e Itália Miele, foi sempre rodeado de amor. Contava sobre como ele e os seis irmãos competiam para ver quem dormiria na cama do Gêde e da Sête (“meu avô” e “minha avó”, em árabe).

Cresceram em São Joaquim da Barra, interior de São Paulo. “Rios, lagoas, córregos e muita mata, fazendas, sítios e chácaras nas redondezas onde habitava boa parte da população, vindo ao ‘comércio’ para se abastecerem de sal e querosene, pano de roupa e... p’ra ir ao doutor, assim se falava”, escreveu em uma crônica.

Estudou em colégios internos no interior e cursou direito na capital. Foi chefe do Departamento de Câmbio do Banco Central em Brasília. Depois, teve função semelhante no banco Safra, na avenida Paulista –para a sorte desta neta, que, quando estudava por lá, sempre ia ao encontro do avô. Seus colegas o descrevem como íntegro, culto, cavalheiro e extremamente generoso.

Seu coração enorme amou sobretudo a linda Anna Lydia, que tinha talento para fazer qualquer um cair na risada. Foram 60 anos de casados com paixão de início de namoro.

Quando ela se foi, ele escolheu uma sepultura no cemitério atrás da casa dos dois. Levantava, pegava os binóculos e, pela janela, conversava com sua amada. A saudade doía muito, dizia.

Exatamente um ano após a morte dela, no dia de Natal, Anuar foi a seu encontro. Morreu aos 88, de complicações relacionadas à Covid-19.

Anuar significa, explicava ele, “a luz da lua, luar”. Sua luz vai brilhar nas noites e dias escuros daqueles que deixou —três filhos, quatro netos, três bisnetos e muitos sobrinhos, amigos e colegas que o amavam.

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