'Novo cangaço' e repressão violenta impactam imagem da polícia, diz pesquisadora

Para antropóloga, investimento em segurança bancária gerou aumento de embate direto, adotado por criminosos desde os anos 1990

São Paulo

Estudiosa há 20 anos de grandes assaltos no Brasil, Jânia Perla Diógenes de Aquino, diz que os ataques ultraviolentos, como o de Criciúma (SC) e o de Cametá (PA), não são coisa recente no país.

Antropóloga e professora da Universidade Federal do Ceará, ela recorda que esses crimes já existiam no Nordeste nos anos 1990, com os irmãos Carneiro, e passaram a ganhar mais adeptos devido ao aumento de medidas de segurança adotadas pelas instituições financeiras desde os anos 2000, substituindo a modalidade que incluía sequestros de parentes de funcionários.

Pesquisadora do Laboratório de Estudo da Violência, ela afirma que esse tipo de crime é prejudicial à imagem das instituições de segurança pública. Mas segundo a professora, o enfrentamento violento desses casos só causa insegurança na população.

A pesquisadora Jânia Perla de Aquino, do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará, que estuda comportamento de criminosos brasileiros - Helosa Araújo/Dário do Nordeste/Folhapress

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Está havendo um aumentando real desses roubos ou somos nós que estamos tendo mais informações? Eu acho que está aumentando, de fato. Nesses dois seguidos, que aconteceram em Criciúma e na região Norte, é muito marcante o fato de terem ocorrido no início do mês. É comum ter assalto a instituições financeiras exatamente no dia em que vai ter pagamento a funcionário público, aposentados, quando recebem malotes de dinheiro para distribuir. Teve um aumento nos últimos anos e costuma ter maior incidência no início do mês. Não é impressão enganosa; eu não trabalho com estatísticas, mas visivelmente tem aumentado.

Por que tem aumentado? Durante os anos 2000, predominava um tipo de abordagem que envolvia sequestro das famílias de gerentes, tesoureiros. Era o tipo de abordagem que evitava o confronto. Embora tivesse assaltos convencionais, no final dos anos 1900 e nos anos 2000 predominava esse tipo de abordagem. No decênio atual, se disseminou o modo de atuação que de certa forma começou com cidades de pequeno e médio portes, no Nordeste, e que se disseminou em todas as regiões do país. É o que costuma ser chamado por delegados de polícia e por uma parte dos jornalistas policiais de “novo cangaço”.

Não concorda com esse termo? Eu não digo que seja totalmente inadequado. Assim como nos grupos de cangaceiros, você tem, com essas quadrilhas, uma abordagem de confronto com as forças policiais, você tem essa abordagem que, ao invés de se esquivar do confronto, o promove.

Então, há essa busca pelo confronto que só se viu e que ganhava repercussão no início do século 20, no Nordeste, norte de Minas, no fenômeno do cangaço.

Quando esse "novo cangaço” começou? Ainda nos anos 1990, na região Nordeste, no Rio Grande do Norte, no Ceará e em Pernambuco. Tem até um protagonismo que pode ser apontado. Era uma quadrilha conhecida como “os Carneiros”. Nos anos 90, tinha um programa semanal na Globo que se chamava Linha Direta. Foi feito um programa exclusivamente para falar da atuação dessa quadrilha que, naquele momento, de certa forma, aterrorizava o Nordeste.

O método dos Carneiros já era assim? Eles foram considerados pioneiros nessa modalidade de crime, essa família. Tem um artigo, de um sociólogo de Natal, Edmilson Lopes Júnior, que se chama “Os Cangaceiros Viajam de Hilux”. Ele mostra como essa família, ainda nos anos 1980, protagonizou no Rio Grande do Norte um ataque a um avião pagador. Essa família interceptou e roubou o carro pagador, que pegou o dinheiro do avião, e esse dinheiro foi usado para financiar uma campanha eleitoral no Rio Grande do Norte. Tudo isso nos anos 1980.

Por que os criminosos trocaram os sequestros pelo confronto? A disseminação desses assaltos com sequestro provocou muito investimento, tanto pelas empresas de guarda de valores, as bases de carros-fortes, como pelos bancos. Por mais que sequestrassem as famílias, os cofres não iriam abrir. Iriam abrir em horário tal. Foram tomadas providências para inviabilizar esse tipo de assalto. Aí, acabou que as quadrilhas que atuam com bancos, com instituições financeiras nas outras regiões no Brasil, passaram a incorporar esse confronto mais aberto com as instituições de segurança pública.

O surgimento e fortalecimento do PCC nos anos 1990 contribuiu para isso? A disseminação do PCC acabou, de certa forma, contribuindo para que se disseminassem os assaltos pelo país. Você também teve um crescimento da economia durante os anos 2000 e aí um alargamento das estruturas bancárias, a quantidade de agência, a quantidade de caixas, dinheiro circulando. Com isso, aumentou a quantidade de assaltos e de pessoas envolvidas com assaltos.

É possível combater esse tipo de crime, ou a tendência é só aumentar? Acabar, é difícil. Mas, por exemplo, o Pix, essa nova forma de pagamento que os bancos adotaram aqui no Brasil, provavelmente vai reduzir a quantidade. Porque, se a expectativa for alcançada, de as pessoas passarem realmente a fazer o pagamento por meio de celulares, usar menos dinheiro, você vai conseguir ter menos quantias acumuladas nas agências e nas bases de carros-fortes. Essa é uma das medidas das próprias instituições financeiras. Outra, em que alguns estados investem, é descentralizar [a força policial]. O que acontecia até os anos 2000? Era concentração na capital não só do efetivo [das polícias], mas das armas [mais potentes], e o interior ficava, de certa forma, mais desguarnecido. É preciso capacidade de uma resposta rápida, a colaboração intermunicipal. E também, é claro, investimento na inteligência e investigação.

É melhor deixar os bandidos irem embora e tentar prender depois? Prender depois também é difícil, mas investir em tecnologias, em inteligência, e até investigar quadrilhas que estão se articulando. Investir na investigação é uma alternativa interessante.

Como fica, nesse cenário, a imagem das instituições policiais? Tem na construção histórica da polícia uma dimensão da guerra contra o bandido, de uma certa masculinidade, da força, uma masculinidade que porta armas. Essa imagem é fortemente impactada com essas ações, porque tudo aquilo a que de certa forma a polícia se associava simbolicamente, são os bandidos que fazem. Essa coisa subverte o que, de certa forma, a sociedade espera: a polícia perseguindo bandido. Tem bandido perseguindo as instalações das polícias, às vezes as viaturas. Aqui no Ceará teve caso de um carro de assaltantes perseguindo a viatura e ainda chamando os policiais de vagabundos.

Em 2018 e 2019 teve muito caso de confronto, em Guararema (SP) foram 11 criminosos mortos, aqui no Ceará teve 8 assaltantes e 6 vítimas. O que aconteceu? Isso gerou ações de resposta, por vezes ações suicidas, de determinadas equipes, ante o enfrentamento. Só que a repercussão pública desses enfrentamentos foi muito negativa. Ampliou ainda mais a sensação de insegurança da população.


JANIA PERLA DIÓGENES DE AQUINO

Bacharel em ciências sociais pela UFC (Universidade Federal do Ceará) e doutora em antropologia social pela USP. Professora do programa de Pós-Graduacao em Sociologia da UFC. Pesquisadora e membro do Conselho Deliberativo do LEV (Laboratório de Estudos da Violência), em Fortaleza.

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