'Nós estamos à procura como no dia que a barragem rompeu', diz irmã de vítima em Brumadinho

Dois anos após desastre e um ano sem novas identificações, 11 pessoas ainda não foram encontradas

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Passo Fundo (RS) e Brumadinho (MG)

Desde o dia 25 de janeiro de 2019, Natália de Oliveira, viu a lama de rejeitos que irrompeu da barragem da Vale, em Brumadinho (MG), correr, perder velocidade, secar, trincar, ficar embaixo da vegetação nova, ser mexida nas operações de buscas do Corpo de Bombeiros. Mas o telefonema, com a notícia que espera há dois anos, nunca chegou: a confirmação da localização da irmã, Lecilda de Oliveira.

“A gente dorme para esquecer e todos os dias a gente amanhece no dia 25. Nós estamos à procura dos nossos, igual estávamos no momento que a barragem rompeu. Eu continuo procurando a Lecilda”, diz ela, que faz parte da comissão dos não encontrados e da associação das famílias (Avabrum).

Lecilda, que trabalhava havia anos para a Vale, é uma das 11 vítimas do rompimento da barragem na mina Córrego do Feijão ainda não encontradas. Enquanto a contagem oficial aponta 270 mortos, 259 deles identificados, as famílias contam 272 vidas perdidas, com os dois bebês que estavam nas barrigas das mães.

Josiana Resende e Natália de Oliveira, com a lama do rompimento da barragem de Brumadinho ao fundo. As duas perderam as irmãs, Juliana e Lecilda, no desastre Brumadinho, e ainda esperam pela identificação delas - Eduardo Anizelli/ Folhapress

As últimas duas identificações na lista de vítimas foram divulgadas há mais de um ano, no fim de dezembro de 2019. Desde então, os casos que foram encaminhados pelas equipes de buscas ao IML (Instituto Médico Legal) da Polícia Civil de Minas Gerais têm sido de pessoas já identificadas anteriormente.

“O tempo vai passando, vamos vendo os filhos dela, os gêmeos, crescendo sem poder conviver com a presença e amor dela. Nossa vida ficou um vazio com a ausência da Ju”, diz Josiana Resende, que também espera pela localização da irmã, Juliana Resende, amiga de Lecilda. Em uma foto com colegas, todos vestindo uniforme da Vale, as duas aparecem de mãos dadas.

Josiana e o pai, Geraldo, participam da comissão dos não-encontrados e acompanham de perto os processos envolvendo as buscas, junto com Natália. “É a notícia mais triste que alguém que ama pode receber, mas é a que temos esperado, para podermos nos despedir e descansar nosso coração”, diz ela.

A operação de buscas na chamada zona quente, atingida pela lama, acumula mais de 6.500 horas em busca e salvamento, segundo os bombeiros. O Guinness, livro que registra recordes oficiais pelo mundo, chegou a ser contatado, mas a resposta na época foi de que só poderiam avaliar os números da operação depois de finalizada.

Com a pandemia do novo coronavírus, os trabalhos chegaram a ser paralisados entre o fim de março e agosto, e retornaram com adoção de protocolos de segurança. Na fase atual, a operação conta com cerca de 40 bombeiros atuando na área quente e 60 no total (somando apoio e planejamento). Os militares passam de sete a quinze dias nas buscas.

Nsta segunda (25), dia que o desastre completa dois anos, as buscas entrarão na oitava estratégia, explica o porta-voz da corporação, tenente Pedro Aihara. Além das dificuldades pelo tempo transcorrido desde o rompimento, há ainda problemas com o terreno onde há muita água e com a região que registra chuvas mesmo sem previsão.

“Por mais que a nossa atuação não consiga tirar das páginas da História essa tragédia, acho que ela é capaz, pelo menos, de mudar o significado que as famílias constroem dela. Se a gente permanece até hoje é porque a dor das famílias também é a nossa dor”, diz Aihara.

Desde janeiro de 2019, o IML recebeu 902 casos resgatados da lama e concluiu 96%. A maioria das vítimas, cerca de 85%, foram identificadas nos primeiros três meses após o desastre. A papiloscopia, identificação por impressões digitais, ajudou no reconhecimento da maior parte delas. O método, porém, está comprometido na fase atual, devido ao tempo transcorrido e a decomposição dos chamados tecidos moles, como a pele.

A aposta está nas identificações por DNA, método que identificou 21 vítimas, extraído especialmente de tecidos duros, como ossos, diz o médico legista Ricardo Moreira Araújo.

"Embora o número de identificações de novas vítimas tenha estacionado em 259, desde 28 dezembro de 2019, cerca de 90 identificações foram realizadas nesse período, mas referiam-se a identificação de material biológico de vítimas já identificadas em fases anteriores", diz ele.

Eva Aparecida de Souza, 53, e o marido Geraldo Eustáquio de Souza, 68, com a foto do filho Renato Eustáquio de Souza morto no desastre Brumadinho e ainda não identificado - Eduardo Anizelli/ Folhapress

Assim como Natália e Josiana, Eva Aparecida de Sousa espera a ligação sobre a localização do filho Renato Eustáquio de Sousa, que deixou os pais, dois irmãos e as duas filhas pequenas —as meninas têm três e cinco anos hoje. Aos 97 anos, a madrinha de batismo dele não sabe até hoje o que aconteceu e volta e meia pergunta se ele se mudou, já que não apareceu mais. A madrinha de crisma segue com a foto do afilhado junto à máquina de costura.

“Quando eu lembro de como ele deve ter ficado, onde ele estava, como ele morreu, se foi espontaneamente, se foi asfixiado... Uma mãe pensa tudo isso. Eu fico triste por saber que ele ainda está lá embaixo e não posso fazer nada. Acabou a minha vida e o sonho dele”, diz a mãe.

“Se eu pudesse, eu iria nessa lama e tirava ele com as minhas próprias mãos. E ajudava [as outras famílias] a tirarem os delas”.

No acordo que o governo Romeu Zema (Novo) tenta negociar com a Vale para reparações coletivas pelo desastre, há a previsão de uma rubrica que garanta a manutenção do trabalho das equipes de busca.

“Há um compromisso do governador com as famílias de seguir com as buscas até que todas as pessoas possam ser encontradas, todos os corpos possam ser resgatados da lama”, afirma o secretário-geral do Estado, Mateus Simões.

Uma audiência realizada na última quinta-feira (21) terminou mais uma vez sem sucesso devido a um impasse na discussão de valores, mesmo com a participação de Zema e do procurador-geral da República, Augusto Aras, nas negociações. O governo deu mais uma semana à mineradora para apresentar nova proposta. “Não continuaremos negociando quando completar dois anos do desastre”, diz Simões.

​Enquanto isso, as famílias seguem à espera. “É desanimador, mas mesmo eu sendo uma formiguinha insignificante perante a Vale, a gente tenta fazer com que as pessoas entendam: em Brumadinho, morreram 272 pessoas, mas elas não podem ter morrido em vão. Não é para mudar a história da Vale, mas da mineração, de qualquer empresa”, afirma Natália.

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