Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Venezuelano trilha 6.000 km para morar em praia deserta no Rio

Aos 34, Mauricio passou por narcotráfico, garimpo, tentativa de suicídio e agora 'vive como o vento'

Homem caminha de costas por uma pedra, com mar azul e morro verde ao fundo

O venezuelano Mauricio Chavez, 34, caminha na Praia do Inferno, na zona oeste do Rio de Janeiro Tércio Teixeira/Folhapress

Júlia Barbon Tércio Teixeira
Rio de Janeiro

A história de Mauricio não cabe neste texto. Fisicamente, porém, cabe no abrigo que construiu usando uma pedra gigante que a natureza fincou na areia, duas lonas, algumas cordas, uma barraca de camping e os troncos das árvores.

É ali que ele acomoda alguns pares de roupas, um quilo de arroz, feijão e legumes, um pequeno álbum de fotos da família e sua Bíblia. Organiza cuidadosamente a escova de dente, o fio dental e a Gillette em potinhos e cultiva uma pequena horta ao lado.

O sol raiou há algumas horas e ele diz que acordou tarde. Se atrasou para lavar a louça, cortar a lenha e fazer o café com que desejaria ter recebido os repórteres —de surpresa, já que 40 minutos de trilha o separam da estrada e o sinal de celular ali é raro.

Há quatro meses ele vive assim, sozinho numa praia (quase) deserta onde a única marcação do tempo é o ir e vir das ondas. Agora quer se mudar para a clareira de cima, para fugir do vento, ampliar a casa e aproveitar a vista do mar por cima da folhagem.

“Quase todo venezuelano tem conhecimento de agricultura, construção e plantação, porque a maioria vem do campo”, explica arranhando no portunhol. A fala é rápida, os olhos são esverdeados e as unhas, aparadas e limpas.

Atravessou mais de 6.000 quilômetros de carona, ônibus e a pé para chegar à Praia do Inferno, uma pequena faixa de areia paradisíaca na zona oeste do Rio de Janeiro. Havia sonhado por três noites seguidas que mirava o Cristo Redentor de uma ponte.

“Esta és la vida más bonita que já vivi”, sorri —e ele já viveu muitas. Aos 34 anos, mostra o registro civil colombiano, a identidade venezuelana e a residência brasileira: Mauricio Salazar Chavez, “hijo” de Pedro Pablo Salazar e Natividad Chavez.

Nasceu no primeiro país e por conta da guerra civil logo fugiu para o segundo, onde o pai arranjou um emprego numa fazenda em Tumeremo, leste da Venezuela. Aos seis anos perdeu o indicador direito em uma máquina de moer cana, mas jura que não chorou ao ver o dedo se movendo no chão.

Estudou até a escola básica e logo começou a vender produtos de medicina para bois, já com mulher e o primeiro filho. Aos 18 ou 19, porém, a vida mudou. Recebeu a proposta de um amigo do tio para ser “faz tudo”: enviar cheque, abrir conta no banco, levar coisas.

“De repente caíam moedas de ouro do céu. Estava com caminhonete, calçado de cinco salários mínimos, mulheres, uma vida muito cara.” Só descobriu que o patrão era narcotraficante ao receber uma ligação dizendo que se não fossem embora seriam mortos.

Depois de cruzar o país até a divisa com a Colômbia, chegou numa fazenda com dezenas de galos, armas e cocaína por todo o lado, “coisa de filme”. Um dos meninos da gangue foi assassinado, e uma mosca pousou em seu ombro. “Já estou com cheiro de morto”, pensou antes de planejar sua fuga.

Comprou uma garrafa de whisky e dirigiu sem parar tão cedo com 19 quilos de pó na caçamba, os quais depois vendeu. Como penitência, sofreu um atentado e viveu de cidade em cidade se escondendo por dois anos. A terceira mãe de seus filhos passou a gravidez sozinha.

“Eu era milionário nessa época, tinha muito respeito”, diz. Mas gastou tudo com prazeres, a mulher o deixou e entrou numa depressão profunda. Por volta dos 25, se meteu debaixo de uma goiabeira e tomou pesticida. Deu tempo de se arrepender e forçar o vômito.

Mesmo assim, passou por uma lavagem estomacal e ficou dias inconsciente no hospital, escutando vozes ao longe. Uma delas foi a de Deus, a quem disse que serviria se não o deixasse morrer. “Uma doutora falou: você é o primeiro milagre que já vi”, ele jura.

Em apenas dois anos prosperou de novo, com 20 mil pés de mamão cultivados, e caiu mais uma vez, com uma peste que acabou com a plantação. Depois trabalhou de um garimpo a outro voltando aos tempos de bonança, mas também a uma vida próxima de armas, drogas e prostituição.

No meio de tudo, conservou a espiritualidade, mesclando trabalho e dias de jejum ou peregrinações. Chegou a passar fome e morar na rua por 40 dias em Caracas “não por opção, mas por petição”. “Se te pedem para amar ao próximo, você tem que amá-lo cagado, podre, doido. E isso você não vai fazer num escritório todo bonitinho”, diz.

A partir de 2014, a economia venezuelana desmoronou e o ouro que tinha já não valia quase nada, então decidiu vir ao Brasil, onde estavam a ex-mulher e dois dos quatro filhos. “Não há maneira de prosperar de forma lícita lá. Só se você entrar numa linha canibal de comprar arroz por 5 e vender por 20 a quem tem fome”, diz.

Mas ele ainda quer voltar. Culpa os EUA pelas sanções e critica um modelo de socialismo que julga não ter dado certo. “Socialismo é o que fazemos aqui na praia: um comprou carne, eu tenho feijão, o outro farofa. Fazemos um almoço e todos estão saciados.”

Chegou a Pacaraima (RR) a pé em 24 de maio de 2019, levando uma mochila costurada com apenas um par de calças, blusas, meias e sapatos. Se emocionou porque ali começava uma história que ele até hoje não sabe onde vai terminar.

Em um ano e meio dormiu na rua em Boa Vista, vendeu adubo orgânico em Presidente Figueiredo (AM) e caminhou 90 km com R$ 50 no bolso para encontrar a ex-mulher e os filhos em Manaus, já que no início da pandemia as caronas cessaram.

Trabalhou num barco até chegar em Porto Velho e andou mais três dias até Ariquemes (RO), onde virou monitor de uma casa de passagem. Seguiu para Cuiabá e resolveu procurar estabilidade em Sinop (MT). Mas durante uma obra uma tábua caiu e quebrou seu dedo do pé, “porque fiz um pacto com Deus de ir ao Rio e não cumpri”, diz.

Então seguiu seu caminho passando por Goiás até finalmente ver o Cristo Redentor na paisagem, menor do que no sonho mas ainda assim glorioso. Achou a Praia do Inferno, que pelo Google pensava ser ainda mais afastada. Não imaginava que o lugar teria uma bica de água potável e jacas ou pitangas brotando das árvores.

Agora Mauricio está se preparando. “Essa é uma época de esperar. Quando chegar a época de sair, sairei. Quando chegar a época de prosperar, prosperarei. Quando chegar a época de me casar, me casarei”, profetiza ele, que se identifica como cristão espiritual e está em busca de uma mulher “louca e tranquila” como ele.

A meta que Deus lhe deu é ajudar quem precisa, mas diz ainda não ter as ferramentas e sementes necessárias para isso. Também não se vê como um andarilho, porque um andarilho é aquele que não sabe para onde vai.

“Posso parecer só um cara todo doido que você conheceu na praia, mas minha história acompanha meus pensamentos. E minha história conta que eu tenho andado como o vento, de lá para cá procurando algo que não tem no mundo, não se compra com dinheiro, não se pede no banco. É algo que se encaixa na minha alma."

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