Descrição de chapéu Obituário Renato dos Santos (1953 - 2021)

Mortes: Disseminou os conceitos de bem-estar animal na pecuária brasileira

Renato dos Santos ouvia o homem do campo para ensinar a se tratar bem o gado

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Maringá (PR)

Nos treinamentos que realizava Brasil afora para levar os conceitos de manejo racional de bovinos a produtores e, especialmente, vaqueiros que estão diariamente na lida com o boi, o veterinário Renato dos Santos costumava mostrar uma fotografia de um rebanho de gado circulando uma pessoa —os animais formando um círculo perfeito em volta dela.

"O animal com mais medo nessa foto aqui é o Paulo. Grande cara, hoje jornalista da Folha de S.Paulo", dizia. Sou eu naquela foto, feita há mais de 15 anos. Foi feita quando ele me levou a uma fazenda para me explicar, na prática, que é preciso entender o animal para manejá-lo. Para mostrar o ponto de fuga do bicho, que no curral uma bandeirola e paciência tornam o trabalho mais efetivo que o bastão de choque e gritos e que, acima de tudo, é preciso respeitar e tratar bem o animal que servirá de alimento.

Doutor Renato, como era chamado por muitos, Doc, para os colegas mais próximos, ou Professor, para tantos universitários que aprenderam com ele, foi um dos principais responsáveis por implementar no Brasil os conceitos de manejo racional de bovinos.

Retrato do veterinário Renato dos Santos
O veterinário Renato dos Santos, disseminador do manejo racional de bovinos no Brasil - Paulo Muzzolon/Folhapress

Foram muitos os pecuaristas que descobriram que as técnicas de bem-estar animal introduzidas por Renato (para mim sempre foi apenas Renato, um amigo que gostava de andar descalço e com quem conversava sobre livros, estradas e, principalmente, as pessoas que ele conhecia pela vida) se transformam em melhores resultados da atividade.

Vaqueiros do Brasil inteiro aprenderam com ele, e foi ouvindo o homem do campo que Renato aprimorou técnicas que se aprendem na lida, e não nos bancos universitários.

Em uma das inúmeras palestras que acompanhei, explicava a estudantes de veterinária que escutar e aprender com peões —palavra que dizia significar pessoa de tal confiança que o patrão lhe entrega seu maior bem para cuidar sem pedir garantia— é tão importante quanto ensiná-los.

Em outra, em uma feira agropecuária, cutucava produtores: de que adianta gastar uma fortuna com o melhor capim, o melhor curral, a melhor genética, sem qualificar a mão de obra?

Às vezes perdia a paciência, brigava, era grosseiro. Mas era, sobretudo, admirado.

"Ele foi o ogro mais gentil que podia ter existido! A cabeça mais dura mas o coração gigante! Sua doação era única e sempre será exemplar", escreveu a pecuarista e amiga Janaína Flor.

Renato, Doutor, Doc, Professor deixa mulher, dois filhos e duas netas do primeiro casamento, dois filhos e uma neta de coração do segundo, vaqueiros tristes e uma imensa contribuição para a pecuária brasileira.

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