Descrição de chapéu Obituário Maravilhosa (1997 - 2021)

Mortes: 'Gisele Bündchen de Rondônia', travesti fez de calçada passarela

Maravilhosa ficou famosa ao desfilar para câmera que gravava reportagem em rua de Porto Velho em 2019

Gonçalves

“Se tem uma câmera, mona, eu quero é aparecer”, dizia Maravilhosa, a travesti mais conhecida de Rondônia nos últimos anos.

Maravilhosa, como gostava de ser chamada, ganhou os holofotes em 2019 quando usou uma calçada como passarela e desfilou diante de uma câmera que gravava uma reportagem numa rua de Porto Velho.

A travesti flanou pela calçada sem economizar no carão e em poses como se fosse uma modelo. Nascia ali a Gisele Bündchen de Rondônia.

Travesti Maravilhosa, 23, desfila ao lado de repórter por calçada de Porto Velho (RO)
Travesti Maravilhosa, 23, desfila ao lado de repórter por calçada de Porto Velho (RO) - Reprodução

Narah Braga, a repórter que tentava terminar a reportagem naquele dia sobre o uso de aplicativos de transporte, sofria debaixo de um sol a pino, mas nem por isso interrompeu o close de Maravilhosa.

“Eu dei uma risadinha e só pedi para que o meu cinegrafista não parasse de gravar aquela cena”, disse.

No dia seguinte, Braga publicou o desfile da travesti em suas redes sociais. E claro: Maravilhosa foi alçada à celebridade instantânea na internet.

A travesti concedeu entrevistas para programas de alcance nacional, ganhou um dia inteiro num salão de beleza, roupas e muitos fãs.

Mas a fama repentina pouco aliviou a vida difícil que enfrentava pelas ruas da capital de Rondônia. As calçadas por onde desfilava durante o dia eram as mesmas em que dormia sobre um papelão.

Filha de um pai alcoólatra, viu a mãe fugir de casa para escapar das agressões do marido. Com a família desestruturada e vítima de transfobia, a travesti virou sem-teto ainda na adolescência.

Mal sabia ler e escrever, mas fez da rua sua grande escola. Era benquista pelos comerciantes e moradores da avenida Jorge Teixeira, onde foi descoberta. Ali pedia dinheiro e as tintas de tons avermelhados que pintava o cabelo.

Nos últimos meses, porém, Maravilhosa foi vista na rua em péssimas condições de saúde e acabou internada no Cemetron (Centro de Medicina Tropical de Rondônia), onde foi diagnosticada com tuberculose e pneumonia.

Durante o período em que ficou internada também apresentou sintomas da Covid-19. Maravilhosa entrou para as estatísticas que pesam contra as travestis no Brasil: não passou dos 35 anos e morreu aos 23, na última quinta-feira (4).

A travesti que usava o sorriso largo como artifício contra as intempéries que a vida manda cumpriu outra frase que carregava: “o que é bonito tem que ser mostrado”.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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