Moradores das periferias se arriscam em 'prainhas' de SP nos dias de calor

Pedreiras antigas e obras atrasadas dão refresco à população, mas faltam segurança e salva-vidas

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Eduardo Silva Lucas Veloso
São Paulo | Agência Mural

O músico Ihago Guedes, 20, mora a 20 minutos da Prainha da Brasilândia, na zona norte de São Paulo. O local era uma antiga pedreira da região, mas com o tempo, algumas bicas d’água brotaram e com a ajuda das chuvas, formou-se um lago.

Por lá, moradores costumam nadar e ficar mais próximo da natureza e é possível ver cobras e corujas. “Se você jogar no YouTube, vão aparecer pessoas nadando e curtindo”, comenta Guedes, que perdeu as contas de quantas vezes foi até a prainha sozinho ou com amigos.

Apesar da diversão, esse tipo de espaço concentra um problema que vai além da pandemia de Covid-19: a falta de segurança. Moradores relataram afogamentos no local, que não conta com salva-vidas e nem sinalização.

“Houve muitas mortes porque as pessoas mergulhavam sem saber onde tinha pedra ou não. Sempre morria gente”, afirma o turismólogo Augusto Domingues, 26.

Mesmo com a pandemia do coronavírus, os banhistas se arriscam em ambientes sem o devido distanciamento social e, muitas vezes, sem o uso de máscaras.

 Entre Perus e Taipas, banhistas vão a prainha dentro da obra do Rodoanel
Banhistas vão a prainha dentro de obra do Rodoanel entre as regiões de Perus e Taipas - Ira Romão/Agência Mural

Mas não é um caso isolado. Apesar do perigo, a ida a 'prainhas' localizadas em locais abandonadas se tornou comum nos últimos anos e costuma ser justificada pela falta de espaços de lazer e áreas verdes na periferia.

Na zona norte, por exemplo, além da Prainha da Brasilândia, os piscinões Vista Alegre e Damasceno costumam receber banhistas. Na região entre Perus e Taipas, há outra localizada dentro da obra do trecho norte do Rodoanel.

Nos relatos, as informações se repetem: não há salva-vidas, nem profissionais para impedir a entrada ou placas de sinalização sobre os perigos aos frequentadores.

Em 2019, foram registrados 14 casos de morte por afogamento na cidade de São Paulo e, em 2018, outros 21, segundo dados do Corpo de Bombeiros. Procurada, a assessoria da Secretaria de Segurança Pública não respondeu sobre 2020.

Os afogamentos geralmente ocorrem em áreas proibidas para banho ou que não contam com monitoramento.

Brasilândia tem mais de uma prainha sem sinalização
Brasilândia tem mais de uma prainha sem sinalização - Ira Romão/Agência Mural

Morador do Jardim Damasceno, também na zona norte, o tatuador Ataniel de Sousa, 25, diz que equipes de empresas da região têm feito a segurança no local para impedir o acesso de moradores. Parte do terreno pertence ao Metrô e deve receber um pátio da linha 6-laranja –projeto que ficou quatro anos parado e foi retomado ano passado.

Apesar da segurança, Souza diz que o acesso costuma ocorrer. “Sempre tem família e gente que vai fumar um por lá”, inclui.

Para ele, o ideal seria que o local fosse preservado e olhado pela prefeitura, já que serve de lazer aos moradores dali. “Colocar umas placas para não jogar lixo, cuidar da natureza e das crianças também porque, mesmo sendo raso, é perigoso para elas.”

O líder comunitário Quintino José Viana, 74, é o responsável pelo movimento Ousadia Popular, organização de defesa das nascentes e matas da Serra da Cantareira e partes da Mata Atlântica. Ele alerta sobre os riscos de nadar na prainha do bairro.

"É preciso ter atenção porque há riscos de bater a cabeça, ser engolido em algum trecho ou ficar preso nas vegetações aquáticas", comenta.

Quintino afirma que os acidentes nessas piscinas acabam sendo pouco abordados em geral por estarem em uma região afastada. "Sempre acontece acidente. Não tem sinalização ou salva-vidas, e bombeiro só vem quando precisa mesmo."

Quintino na margem do piscinão do Damasceno, onde moradores costumam nadar
Quintino na margem do piscinão do Damasceno, onde moradores costumam nadar - Ira Romão/Agência Mural

Questionada sobre a fiscalização e ações de conscientização nos locais, a Prefeitura de São Paulo não respondeu até o fechamento desta reportagem.

Outra região com forte apelo no verão em São Paulo é a zona sul, onde estão as principais represas da cidade. Na Billings, por exemplo, algumas áreas também são usadas como praias pelos moradores.

Com 127 km² de extensão, o reservatório de água faz limite entre a capital e os municípios de Santo André, São Bernardo do Campo, Diadema, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra e a zona sul de São Paulo (distritos de Grajaú e Parelheiros).

O segurança Wellson Batista, 36, mora no Grajaú e costuma frequentar uma área da Billings que fica em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Para evitar acidentes, ele e a família tomam alguns cuidados ao entrar na água. “Geralmente ficamos na beirada. De preferência vamos quando não tem muita gente e não avançamos mais do que possamos sentir o chão”, diz.

Próximo à represa fica um alambique (loja de bebidas alcoólicas), cujo dono cuida da limpeza do local, segundo Batista.

Ele diz que não há salva-vidas, mas também afirma nunca ter presenciado acidentes na prainha. “Nunca ouvi relatos, mas acho que pode haver, sim. Quando não dá mais pé, é muito fundo; e lá, por ser um alambique, muitos banhistas misturam bebidas com o mergulho, coisas que não combinam”, conta.

No Damasceno, é normal ter moradores pescando nas águas
No Damasceno, é normal ter moradores pescando nas águas - Ira Romão/Agência Mural

Com 26,6 km² de extensão, a represa de Guarapiranga fica na região da Capela do Socorro, na zona sul da capital, e possui 18 “praias” regulamentadas pela prefeitura.

Cinco delas são exclusivas para banhistas ou usuários de esportes náuticos. As demais ficam em áreas particulares ou são destinadas ao acesso de barcos, lanchas e outras embarcações.

Uma das mais movimentadas é a Praia do Sol, conhecida como Prainha, que tem recebido até 2.350 pessoas aos fins de semana nos últimos quatro meses, segundo a Prefeitura de São Paulo.

A área destinada aos banhistas é demarcada, mas é preciso tomar alguns cuidados, como se certificar da profundidade da água antes de mergulhar e não nadar próximo a pontos de captação de água, para evitar acidentes e afogamentos.

O regulamento do parque também proíbe menores de 16 anos de nadar sem o acompanhamento de pais ou responsáveis.

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